Morreu Luiza, cuja foto eu guardava na carteira para me lembrar sempre de quem quero ser

Andei por muitos anos com a foto de Luiza em minha carteira.

Velhinha, enrugadinha, maquiadíssima, cheia de bijuterias coloridas, roupas também coloridíssimas. Sorrisão.

Assim era ela na foto, bela tradução da figura real, que conheci quando eu tinha 14 anos e ela, 75.

Brigas de família que não vêm ao caso me fizeram morar em sua casa, com minha mãe, durante cerca de quatro meses. Em Tampa, Flórida.

Sua casa era cheia de vida como ela. Uma casa ampla, com um sótão, daqueles de teto rebaixado, onde eu e minha mãe dormíamos. Não tenho muitas lembranças do imóvel, apenas que havia muitos livros (Luiza era muito culta) ali e — não sei se isso é memória real ou já modificada pela imaginação — que havia algumas passagens secretas e um clima de mistério no ar. Lembro que imaginei várias histórias incríveis que eu queria um dia transformar em livros e que se passavam naquele casarão. E que, óbvio, nunca saíram do papel e já sumiram do cérebro.

Luiza me contava histórias e isso é o que ela mais tinha para contar. Viúva, lembro que tinha uma penca de filhos (uns 6? Ou 8? Ou 12?) e alguns netos, sendo que dois deles iam brincar comigo de vez em quando. E que conhecia o mundo inteiro, inclusive já tendo morado em vários países, dos mais exóticos, já que tinha sido mulher de um diplomata (ou militar?). Também já tinha morado em várias partes dos Estados Unidos, inclusive no Alasca, onde passou por um terremoto quando um de seus filhos era ainda bebê.

Ela me contou várias dessas histórias, que eu adorava ouvir, ansiosa por aventuras, mas que minha memória deserta já evacuou nos últimos 17 anos sem qualquer contato com quem as alimentava.

Ela também adorava ler, cantarolar, jogar bingo, fumar e tomar vinho. Tomava pelo menos uma taça todos os dias. Estava sempre alegre, sempre! Falava bastante, ainda com sotaque do Nordeste (mesmo já tendo saído do Brasil décadas antes), às vezes começando uma frase em português e terminando em inglês — ou vice-versa. Era ativa e intensa como ninguém, dirigia pra lá e pra cá, fazia um pouco de tudo. Magrinha, e com tanta leveza (em todos os sentidos da palavra), que às vezes eu a via quase que flutuando pela casa, como uma fada.

(A pessoa tem que ser muito especial para gerar tamanho impacto em uma memória após tão pouco tempo de convivência, né!)

Sempre militei contra o cigarro, mas não sei se posso culpá-lo pela morte de Luiza, no último 15 de março, com enfisema pulmonar. Bom, parcela de culpa ele certamente teve, mas há que se considerar que aquela fada já estava com 93 anos. Como eu já disse, perdi contato com ela, mas imagino com meu coração que ela seguia cantando, dançando, tomando sua taça de vinho e jogando bingo até seus últimos dias. Não consigo imaginá-la presa a uma cama de hospital, não combinaria com Luiza.

Aquela foto que eu guardava na carteira, que algum assaltante já carregou há tempos, me servia como um lembrete daquilo que eu quero ser quando ficar velhinha, se eu chegar lá. Quero ser exatamente como Luiza. Provavelmente com menos maquiagem e menos anéis e colares, porque pouco os uso, mas quero ter a mesma eterna jovialidade dela, o mesmo bom humor infalível, a mesma alegria contagiante, a mesma energia, o mesmo prazer em fazer as pequenas coisinhas de que ela gostava, e, principalmente, quero ter comigo um punhado de aventuras guardadas na memória, para compartilhar com meus netos — de sangue ou de coração.

A foto se foi, mas Luiza será minha eterna inspiração. Sempre carregarei na memória e serei grata por aqueles poucos meses de convívio em sua casa-abrigo. E sempre levarei no coração, com muito carinho, aquela senhorinha de 75 anos (que parecia ter só 60) que foi minha avó emprestada. Chego, neste 27 de março, aos meus 32 anos, torcendo apenas para que eu consiga alcançar os próximos aniversários com pelo menos um pouco da cor e vitalidade de Luiza. Nem preciso chegar aos 93, só quero ser tão jovem quanto ela, na idade que eu tiver.

Agora vai lá alegrar outros mundos, querida fadinha!

 

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4 comentários sobre “Morreu Luiza, cuja foto eu guardava na carteira para me lembrar sempre de quem quero ser

  1. Que lindo! Que coisa boa conhecer pessoas tão inspiradoras como a Luiza! E coisa boa ler textos tão bons quanto os seus! Feliz aniversário!!

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  2. Belo texto, Kika.

    A lembrança registrada da admiração pela intensidade e generosidade de uma pessoa singular, que se foi.
    E a sua lembrança que serve de estímulo e de padrão de humanidade.
    Sinto o mesmo pelo querido Zé Lage, meu tio avô que se foi em Janeiro, aos 95 anos.

    Abraço

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