Presidente da Andrade Gutierrez cospe no prato em que comeu

Texto escrito por José de Souza Castro:

Em entrevista publicada domingo pela “Folha de S.Paulo“, o presidente da Andrade Gutierrez, Ricardo Sena, cospe no prato em que comeu. Melhor dizendo, cospe em Aécio Neves: “Não tenho o menor apreço”, diz, mas votou nele em 2014: “Votei no Aécio porque eu achava ele menos ruim que a Dilma. Mas sou do Aécio? Sou nada!”.

Esse trecho da entrevista feita pela repórter Renata Agostini foi suprimido pela edição impressa do jornal. O portal parece ter sido menos prudente – ou não deu a devida atenção à pretensa força de Aécio junto aos Frias, donos da Folha/UOL.

O mais interessante é que o próprio presidente do Conselho de Administração do Grupo Andrade Gutierrez, Ricardo Sena, que assumiu o cargo em 2015, depois que seu antecessor foi preso pela Lava Jato, parece também ter-se esquecido de como Aécio foi importante para a empresa, quando governador de Minas. No mínimo, o governador não pôs obstáculo a que a AG comprasse, em 2009, 32,96% do capital votante da estatal mineira adquiridos sem licitação, durante o governo do também tucano Eduardo Azeredo, pelo consórcio formado pelas americanas AES e Mirant e pelo Banco Opportunity. Mais informação sobre isso AQUI e AQUI.

Logo no começo da reportagem, afirma-se que Ricardo Sena não está envolvido nas irregularidades confessadas pela empresa às autoridades, mas “seu nome já apareceu na Lava Jato”. Diz que numa troca de mensagens entre executivos do grupo, ele aparece reclamando da vitória da petista Dilma Rousseff em 2014, quando derrotou o tucano Aécio Neves. Reportagem anterior da “Folha” sobre o tema cita Ricardo Sá – e não Sena.

Um erro. Ricardo Sena não desmentiu, quando Renata Agostini fez a seguinte pergunta: “ O senhor tem birra do PT? O senhor aparece na Lava Lato numa troca de mensagens com outros executivos da Andrade reclamando da vitória de Dilma Rousseff em 2014.” Resposta:

“Meu comentário foi: “vergonha de ser mineiro”. Se eu gosto do PT? Não gosto. Porque não gosto desses esquerdismos populistas, aqui e em lugar nenhum. Não gosto de ninguém que entra por esse lado. Não tenho interesse político, mas acho que não constrói país. Não tenho nada contra a agremiação PT. Não sou partidário. Não gosto é do jeito de pensar. Mas eu tinha mesmo uma birra homérica da Dilma. É só ver ela falar francês. Eleger um troço desse não dá. Eu tinha que ficar com vergonha da minha terra [Minas Gerais]. Aí você vai me perguntar se eu gosto do Aécio [Neves]. Não tenho o menor apreço.”

Comparado com o desrespeito com que o entrevistado tratou a ex-presidente, destacada pela “Folha” no título da reportagem (“Tenho ‘birra homérica’ de Dilma, diz presidente da Andrade Gutierrez”), Ricardo Sena foi até gentil com Aécio Neves…

Não fosse o desejo de ”homenagear” Dilma, outras frases poderiam ter sido escolhidas para o título. Por exemplo:

“Sou da turma dos decepcionados” (ao ser perguntado se gosta do Temer).

“Você ficou pelado no meio da rua. Fomos pegos assim” (ao dizer que o principal erro da Andrade Gutierrez foi não ter percebido que o país havia mudado e continuou assinando contrato, para depois resolver).

“O Brasil está muito confuso” (ao afirmar que a empresa já pagou R$ 300 milhões do acordo de leniência em troca de “absolutamente nada”).

“Pública, pública é zero” (sobre as obras que a AG ainda toca).

“Esses pobres coitados dos estrangeiros vão se danar” (sobre os leilões de aeroportos).

“Trabalhar com o governo é muito perigoso”.

Sem dúvida. Mas foi trabalhando com governos que a Andrade Gutierrez cresceu muito. Desde o início. A empresa foi fundada em 1948 por Flávio Gutierrez e Gabriel Andrade, seu colega no curso de Engenharia da UFMG. Os dois convidaram Roberto Andrade, irmão de Gabriel e formado na mesma escola 10 anos antes. Roberto morava na capital do país, o Rio de Janeiro, onde tinha muitos amigos no meio político. Mais tarde, foi morar em Brasília para fazer o lobby da AG no governo militar.

Flávio Gutierrez e JK, em trator da empresa.

As primeiras obras da construtora foram contratadas pelo governo. Em 1952, Flávio Gutierrez foi fotografado com o governador Juscelino Kubitschek num trator da empresa. O deputado Maurício Andrade, irmão mais velho de Gabriel, era líder do governo na Assembleia Legislativa e arranjou para que a empresa do irmão fosse contratada para construir o campo de aviação de Bambuí. Com isso, a AG pôde comprar dois caminhões e o segundo trator. O primeiro foi o “Soberano”, cenário da foto de Flávio e JK. Nos governos de JK, em Minas e no Brasil, a empresa ganhou grande impulso.

E a escalada continuou. Já no governo João Goulart, a Andrade Gutierrez fez a terraplanagem para a construção da Refinaria Gabriel Passos (Regap), em Betim, planejada ainda no governo JK. Foram terraplanados dois milhões de metros quadrados, movimentando seis milhões de metros cúbicos de terra. Em seguida, foi contratada pela Petrobras para construir a barragem de Ibirité e garantir a água a ser utilizada pela Regap. Foi a primeira de muitas barragens, boa parte dela nos governos militares.

Em 1979, iniciou a construção, no Rio Grande do Norte, da barragem do Açu – a maior da história do Departamento Nacional de Obras contra a Seca (DNOCS), com 2.553 metros de comprimento e altura de até 41 metros acima do leito do rio Piranhas. Ela estava praticamente pronta, quando em dezembro de 1981 ocorreu escorregamento de aproximadamente 1,5 milhão de metros cúbicos de material do talude de montante. A perícia constatou que a falha era do projeto, não da execução. Depois do projeto refeito, a Andrade Gutierrez reiniciou os trabalhos e a barragem ficou pronta em 1983. Ufa!

Bons tempos. Percalços como este eram pouco noticiados e não sofriam processos do Ministério Público, como neste de 2007, quando sete pessoas morreram no acidente nas obras da Estação Pinheiros da Linha 4-Amarela, em São Paulo.

A AG foi pioneira na construção de linhas de metrô no Brasil. Trabalhou na Linha Norte-Sul do Metrô da capital paulista, o primeiro do país. Em pouco tempo, suas obras se espalhavam por vários Estados. Em 1972, iniciou a construção de uma rodovia asfaltada de 900 quilômetros para ligar Manaus a Porto Velho. E concluiu-a em 1976.

Finda a ditadura, a filha mais velha de Flávio, Ângela Gutierrez, foi nomeada pelo governador Newton Cardoso, do PMDB, secretária de Cultura. Newton era amigo de Tancredo Neves.

Com o pai, Ângela Gutierrez juntou durante anos um acervo de 2.200 peças que doou para o Museu de Artes e Ofícios, inaugurado em dezembro de 2005, no governo Aécio Neves. Está instalado no prédio da antiga estação ferroviária, no Centro de Belo Horizonte, numa área de 9.000 metros quadrados.

Integrante do Conselho de Administração da AG, Ângela estava, em 2013, na lista da Forbes como uma das 21 mulheres bilionárias do Brasil. Sua fortuna era calculada em R$ 2,8 bilhões.

Ao contrário do que sugere a entrevista de Ricardo Sena, os fundadores da Andrade Gutierrez sempre souberam como é bom trabalhar para o governo.

Qualquer governo.

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