O construtor e o lobista

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Texto escrito por José de Souza Castro:

 

A. falou:

– Acho que vou à falência.

– Isso é ruim – comentou B., sem o menor sinal de simpatia. – Como foi que aconteceu?

– Fui contratado para edificar o novo edifício da escola na Rua 94.

– O orçamento não cobre as despesas? – perguntou B..

– Não é nada com o orçamento.

– Dificuldades com os operários?

– Não. Dificuldades com os fiscais.

– Como assim?

– Perseguem-me o tempo todo. Fazem-me desmanchar o trabalho assim que principio.

– Por quê? Você não segue as especificações?

– Claro que sigo, mas não se trata disso. É uma questão de hostilidade latente. Agarram-se a qualquer ninharia para me embaraçar, atrasando e fazendo parar o trabalho.

B. fez ouvir um murmúrio de simpatia. Seus olhos, especulativos e duros, conservavam-se fixos em A.

– Reclamei do inspetor – continuou este último – e ele me disse: “Por que não vai falar com B.?”

– Não gosto disso – observou B..

Mas A. não lhe deu atenção. E continuou:

– Um amigo meu disse a mesma coisa: “Ora, seu tolo, vá ver B.” E aqui estou eu.

– Que quer que eu faça?

– Chame os seus sabujos.

– Não são meus sabujos.

– Não quis dizer isso.

– Mas disse.

Houve um minuto de silêncio.

– Quanto vai ganhar nesse negócio? – perguntou afinal, B..

– Se me deixarem em paz, devo tirar aí uns 5 milhões de lucro.

– Pena que as coisas não estejam lhe correndo bem – disse B. – Quero uma fórmula das especificações e uma declaração sua a respeito do gênero de dificuldades que está encontrando. Se eu vir que está sendo tratado injustamente, exigirei uma investigação severa e não creio que o tornem a incomodar. Mas preciso de dinheiro, é lógico.

– Lógico – concordou A. secamente.

– Garanto-lhe que depois que principiarmos a trabalhar juntos, os fiscais o deixarão em paz. Trate apenas de fazer um bom trabalho e não se preocupe com o resto. Não leve as medidas demasiado a sério e use na massa só o cimento estritamente necessário.

– A única coisa que quero é ter um bom começo em minha carreira.

– Você o terá – prometeu-lhe B.. – Faça-me um adiantamento de 200 mil amanhã, pague 500 mil dos dois primeiros pagamentos que receber e mais 5% do pagamento final. Depois falaremos sobre o próximo trabalho. Ouvi dizer que está planejando entrar na concorrência para a construção da passagem de nível da Avenida T.

*

Paro por aqui a transcrição dessa obra de ficção. Quem a escreveu não suspeitava de nenhum lobista do PT, PMDB, PSDB, DEM ou de qualquer outro partido brasileiro.

Pois o texto nem sequer foi escrito nestes tempos de Lava Jato.

O autor chama-se Erle Stanley Gardner. Advogado criminalista norte-americano, falecido em 1970, aos 82 anos, ele escreveu mais de 150 romances policiais protagonizados por Perry Mason e vários outros advogados e detetives que, vira e mexe, se viam envolvidos em crimes de corrupção.

O trecho transcrito acima, eu o encontrei na página 12 de “O caso da ‘boa’ do calendário”, publicado no Brasil pela Tecnoprint em 1960, dois anos após seu lançamento nos Estados Unidos com o título “The Case of The Calendar Girl”.

Não faria sentido, nessa transcrição, a meu ver, chamar o lobista B. de Meredith Barden, como fez Garden. Do mesmo modo, o construtor George Ansley. E fugiria da realidade de nosso mercado atual, passados 58 anos, os 50 mil dólares que A. esperava lucrar. Ou os 2 mil dólares da primeira parcela da propina e os 5 mil dos pagamentos seguintes pedidos pelo corruptor B.

No mais, notam-se similitudes entre os modos de agir de nossos corruptores reais e os da ficção norte-americana. Eu diria que a corrupção não varia fundamentalmente, independente do lugar, do tempo e da língua falada. Não é pior no Brasil do que na maioria dos países. Já era um problema no Egito, por ocasião das obras das pirâmides, e em Roma, na construção do Coliseu. E prosseguiu invicta pelos séculos e milênios, ultrapassando aqui os governos Lula e Dilma – e, certamente, o governo Temer e os que virão a seguir.

Apesar do juiz Moro… Que simplesmente reforça a corrupção – quando, acolitado pelo Ministério Público, a Polícia Federal e o STF, age seletivamente no seu combate.

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