A batalha estava só começando

Não deixe de assistir: SELMA
Nota 9

selma

Sou suspeita para falar sobre um filme que trata de um assunto como os direitos iguais para todos os homens e mulheres de todas as cores, raças ou etnias. Esta é a luta com que mais me identifico, uma guerra que ainda não está totalmente vencida, apesar dos esforços de Martin Luther King e de o país mais poderoso do mundo já ter eleito seu Barack Obama.

Mas sempre me espanto com os absurdos que aconteciam nos Estados Unidos, especialmente no Sul do país, há tão pouco tempo atrás. Não estamos mais falando da escravidão de “12 Anos de Escravidão”, mas de um movimento que meus pais assistiram no noticiário! E, no entanto, mesmo sendo uma história tão recente, é verdade que naquela época os negros simplesmente não podiam votar, mesmo tendo uma lei nacional que lhes assegurava este direito. E isso um ano depois de King ter ganhado o Nobel da Paz, ou seja, de já ser um sujeito reconhecido e respeitado mundialmente — o que, convenhamos, abre muitas portas, em todos os sentidos. Sério, isso até hoje me espanta.

(Mas aí lembro que, até hoje, e não há cinquenta anos, há mais negros que brancos sendo assassinados e sendo presos, e penso que esta batalha está longe de chegar ao fim, tanto nos Estados Unidos como aqui, no Brasil.)

O filme conta esta história verídica daquela batalha específica de King para garantir o voto irrestrito de negros em todo o país, em todas as esferas. E ele escolhe Selma, uma cidadezinha no Estado do Alabama (um dos mais racistas e segregacionistas do país) para encampar essa batalha sem armas de fogo. Tudo na base dos discursos, das marchas, dos protestos pacíficos — e, claro, com muita ajuda da imprensa e da mídia, que foi uma ferramenta essencial para pressionar o presidente Lyndon B. Johnson e atrair o apoio da opinião pública e especificamente do público branco.

O excesso de discursos ao longo do filme me pareceria um problema em qualquer outro roteiro, menos neste. Afinal, estamos falando de um gênio da oratória, o pastor Martin Luther King. Este aí pode falar por quanto tempo quiser que, muito provavelmente, escolherá as melhores palavras. Uma coisa legal do filme é que mostra o lado mais íntimo do líder, seus momentos de fraqueza, de cansaço, de desânimo, e o quanto outras pessoas ao seu redor foram importantes para que ele seguisse em frente. Também é interessante mostrar a batalha política que era travada nos bastidores.

É um roteiro épico, emocionante e muito bem contado. Pena que não esteja concorrendo ao Oscar nesta categoria. Mas o conjunto da obra foi nomeado: Selma está na categoria dos melhores filmes, assim como esteve o “12 Anos de Escravidão“, vencedor do ano passado.

O filme também concorre na categoria de melhor música, com “Glory”, que pode ser ouvida AQUI. Vale dizer que a trilha inteira do filme é excepcional, cheia de blues e gospel de primeira categoria.

Enfim, é mais uma daquelas histórias tristes e intensas que precisam ser relembradas. Que não podem cair no esquecimento. Porque, como pensava King, ainda há muito a ser feito.

Veja o trailer:

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Mistério da física

Não deixe de assistir: INTERESTELAR (Interstellar)
Nota 7

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Assim como em outros filmes de Christopher Nolan, assisti a Interestelar esperando muita mágica, digamos assim. Desta vez, não foi a memória ou os sonhos, como nos filmes “Amnésia” e “A Origem“: o tempo foi a matéria-prima deste roteiro. E o Tempo é, justamente, um dos temas que mais me atraem no universo.

O roteiro foi baseado em preceitos da física, embora, é claro, tenha havido um punhado de elasticidade para comportar as ideias de Nolan. E, apesar disso, e de toda a loucura que cabe naquela cabeça, achei que o filme pecou (e perdeu 3 pontos da minha nota) por ter acabado com um final previsível e ter tido alguns clichês em se tratando de um filme sobre o tempo. Outro problema é que o filme tem quase 3 horas de duração e elas não são exatamente indispensáveis. Há várias cenas lentas demais, com diálogos muito exaustivos.

Por outro lado, é uma história muito bem amarrada, com direito a algum suspense e algumas surpresinhas no final. Ao contrário de “Gravidade“, que concorreu ao Oscar no ano passado e também se passava no espaço sideral, “Interestelar” tem história mesmo, não só técnica. Não só paisagens sensacionais, que não estamos acostumados a ver todos os dias, mas também um enredo, um começo, um meio e um fim. Com atuações razoáveis (não brilhantes) dos ótimos e premiadíssimos atores Matthew McConaugheyAnne HathawayMichael CaineJessica ChastainMatt Damon. (Nenhum deles concorre ao Oscar.)

O filme foi indicado por cinco categorias bastante técnicas (como tinha acontecido com “Gravidade”): mixagem de som, edição de som, efeitos visuais, música e também direção de arte. Deve levar as três primeiras.

No fim das contas, embora seja um filmaço, é um Nolan bem menos legal do que o que eu estava acostumada a assistir, que consegue ser, ao mesmo tempo, mágico e previsível. Como isso é possível? Mistérios da física…

Veja o trailer:

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Não há limites para o esforço humano

Não deixe de assistir: A TEORIA DE TUDO (The Theory Of Everything)
Nota 10

teoriadetudo

Seria necessária muita imaginação para um roteirista ou escritor qualquer criar um personagem tão extraordinário como é Stephen Hawking. Felizmente, ele é de carne e osso, o que torna tudo ainda mais fantástico.

A mesma imaginação seria exigida para se construir uma história de amor tão incrível e tocante quanto a vivida por Stephen e Jane. Mas ela existiu — e rendeu três filhos e três netos, além de uma amizade para a vida toda.

Nem os melhores médicos conseguiriam imaginar que o jovem diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica chegaria aos 73 anos. Na época, diziam que ele não viveria mais que dois anos. Mas faltava a eles imaginação tão fértil quanto a fornecida pela vida real.

E quem imaginaria um sujeito de 21 anos disposto a desafiar Albert Einstein e perseguir uma teoria da física que, até então, nunca tinha sido pensada? Que explicaria o surgimento do universo! Ninguém, mas é que não temos a mesma imaginação do gênio em questão.

Stephen, ao contrário de outros gênios (como o Turing, do filme “O Jogo da Imitação“), não tinha qualquer problema para se relacionar socialmente com as pessoas. Pelo contrário: era um fanfarrão. Tomava todas com os amigos, paquerava a menina bonita da festa e acabou se casando com ela. Para tornar tudo ainda mais fora do lugar, ele é um gênio extremamente bem-humorado, desses que fazem piada com tudo (aceitou até fazer uma ponta em “The Big Bang Theory“!), embora também seja capaz de proferir as frases mais profundas sobre nossa existência — inimaginável — no universo.

Tais como esta que entrou para a história:

There should be no boundaries to human endeavor. We are all different. However bad life may seem, there is always something you can do, and succeed at. While there’s life, there is hope.” (Não deve haver limites para o esforço humano. Nós somos todos diferentes. E por pior que a vida possa parecer, sempre há alguma coisa que você pode fazer, e ser bem-sucedido nela. Enquanto houver vida, há esperança.)

Stephen tem uma inteligência tão sem limites que é capaz de superar todas as limitações físicas que se impuseram em sua vida precocemente.

Para fazer este papel dificílimo, extraordinário, carismático e genial, seria preciso haver um ator além da nossa imaginação. E ele existe: Eddie Redmayne se esforçou tanto para cumprir esse papel, de maneira tão obsessiva, que chegou a ficar imóvel e encurvado até nos intervalos entre as cenas. Por fim, segundo os bastidores no site IMDB, um ortopedista disse que a coluna dele ficou torta de vez por causa da atuação! Mas o resultado valeu a pena: depois de assistir ao filme, o Stephen Hawking verdadeiro enviou um email ao diretor James Marsh dizendo que, em alguns momentos, ele achou que estivesse assistindo a si mesmo na tela.

(É como ele diz, não há limites para o esforço humano…)

Eddie concorre, obviamente, na categoria de melhor ator principal (que ele já abocanhou em prêmios importantes, como o Globo de Ouro e o Bafta, considerado o Oscar britânico). Se eu achava que Benedict Cumberbatch merecia esse prêmio, agora não acho mais. Ele também foi ótimo, mas Eddie não deixou pra ninguém. Foi além da imaginação. Já Felicity Jones cumpre o papel de Jane de forma exemplar, mas não extraordinária. O filme ainda concorre pelo roteiro delicado, sensível e emocionante, que me fez chorar em vários momentos. Pela música, que você pode ouvir AQUI. E na categoria principal, de melhor filme.

Se até Hawking disse que o filme é preciso, só nos resta torcer para que a academia não cometa nenhum erro de cálculo nesta premiação.

Veja o trailer:

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