O anarquista que enxerga

multidao

O anarquista, que votará nulo (questão de princípios, como gosta de dizer), faz sinal para o táxi. Estava atrasado demais para esperar pelo ônibus. Logo que entra, o taxista dispara: “E aí, vai votar em quem?”. Dá de ombros, enquanto o taxista começa a vomitar um borbulhão de informações que tinha lido no jornal gratuito distribuído no semáforo, enquanto escutava o comentarista da rádio, tucano, fazer críticas ao escândalo da vez. “Então em quem o sr. vai votar?”, devolve o anarquista. “Ainda não sei”, responde, com sinceridade, o confuso indeciso.

Dali a 12 quarteirões, o anarquista desce na porta do shopping. Encontra-se com a mãe, que não via há 5 meses, e dá um abraço apertado nela. Eles tinham combinado aquele encontro três dias atrás, e ele esperava ansioso para conversar com ela e contar sobre o emprego novo. Sentam-se na mesa do restaurante. Pedem o cardápio e ela dispara: “Já decidiu em quem vai votar, filho?” “O de sempre, mãe, vou anular”, responde, meio irritado por este ter sido o primeiro tema da conversa.

O garçom, petista roxo, se aproxima para anotar o pedido, interrompendo a conversa e dando a chance para o anarquista enfiar outro assunto no lugar.

Depois do lanche, os dois vão ao cinema. Cruzam com 13 tucanos, 7 petistas, 5 indecisos e 2 votos nulos no corredor do shopping, num trajeto de apenas 200 metros desde o restaurante. A moça da bilheteria, que vai votar branco, entrega as duas entradas, inteiras. O caixa da lanchonete, que foi convencido a votar no candidato tucano, devolve o troco, enquanto outro atendente, que votou na Marina mas agora vai de PSDB, estende a pipoca com um pouco de manteiga. Na sala do cinema, filme argentino com Ricardo Darín, há 37 petistas, 23 tucanos, 9 indecisos e 12 que votarão nulo. Enquanto o trailer ainda está rodando, o anarquista percebe que pelo menos um terço da sala está conectada no celular. 90% no Facebook, lendo ou espalhando boatos sobre os candidatos rivais, os outros 10% fazendo outras coisas neste imenso universo da web.

Pelo menos duas dessas pessoas estão trocando insultos na página de Facebook de um portal de notícias, sem nem passar por suas cabeças que, ali no mundo real, estão a apenas oito poltronas de distância. O filme começa, as luzinhas das telas de celular vão se apagando, como se alguém estivesse soprando velinhas.

Nas duas horas da sessão, ninguém pensa em eleições. Na saída, mãe e filho se despedem — ele, aliviado por ter escapado do assunto da semana, mais uma vez.

Resolve ir para casa a pé. Uma caminhada para fechar esta tarde de folga. Para na faixa de pedestres e uma SUV enorme, cheia de adesivos tucanos, para pra ele na faixa. Acena para o vidro escuro, sem enxergar o motorista, e atravessa. Mais adiante, vê um síndico, que tinha votado em Luciana Genro e agora faz campanha para o PT, orientando a faxineira de seu prédio, também petista, embora menos convicta, a usar a vassoura para limpar a calçada, em vez de gastar água da mangueira. Fica satisfeito, menos desperdício.

Nos 12 quarteirões até sua casa, cruza com 67 outros petistas, 63 tucanos, 11 indecisos e 8 votos nulos. Vai vencendo o morro enquanto observa aqueles rostos, admirado por conseguir enxergar o voto de cada um, estampado na testa. Só aí se dá conta: taxista, garçom, faxineira, mãe, motorista da SUV, caixa da bilheteria e todo o público do cinema se cruzam a todo momento, nesta grande cidade, e sempre conviveram bem. E um dos motivos é que nenhum deles consegue enxergar o voto do outro, como o anarquista, estranhamente, pode. E continuarão vivendo — e convivendo — pelos próximos anos, mesmo muitos depois do domingo, 26 de outubro. Perdidos e embaralhados num caldeirão de preferências ideológicas e partidárias e futebolísticas e religiosas, num poço de visões de mundo diferentes, divergentes e até antagônicas, mas comprando bilhetes para o filme, assistindo lado a lado, servindo a bandeja de café ou parando na faixa de pedestres para o outro atravessar.

O anarquista pensa que isso é uma anarquia danada e, satisfeito, abre a porta de casa.

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