Estou fora da guerra das eleições

Outro dia reproduzi aquele texto bem-humorado sobre espremedor de limões no blog do Brasil Post. O texto foi escrito no ano passado, então atualizei um trecho que falava do PIB brasileiro (com os 2,3% de crescimento de 2013) e publiquei. O tema principal do post era outro: como algumas pessoas se dispõem a pagar fortunas por coisas insignificantes como um espremedor de limões. Como falta noção a uma pequena camada da sociedade que tem dinheiro sobrando. Daí a explosão de “studios”, “ateliês” e coisas “gourmet”, que vendem o mesmo esmalte nas unhas, o mesmo pãozinho francês e o mesmo café de padaria, mas cobram o triplo do preço por causa da imagem, do marketing, ou de um design um pouco diferenciado.

Enfim, é um texto que posso reproduzir pelos próximos 20 anos e continuará atual, enquanto houver essa falta de noção. Mas não era um texto sobre política. Não falava sobre governo Dilma ou sobre candidato Aécio. E não é que um leitor pinçou uma frase lá do fim do texto, ignorou uma parte da frase e começou a bater boca pela internet, pra provar sua visão de que o governo Dilma tem uma economia desastrosa?

Não dá pra falar ou escrever sobre NADA nesses dias de guerra sem que o interlocutor transforme o texto em algo de cunho eleitoral. Sem que enxergue o vermelho ou o azul, e tripudie, caso ele esteja do outro lado do espectro das cores (ou das ideologias). Tenho visto amigos (amigos mesmo, não desconhecidos) se estapeando no Facebook, como se não houvesse amanhã. E, na hora de xingar o candidato alheio, as pessoas não poupam ofensas pesadas — mas não ofensas ao candidato, e sim a quem declara voto nele.

Gregorio Duvivier conta que a coisa está tão feia lá no Rio que outro dia, tarde da noite, andando a pé pelas ruas de seu bairro (o abastado Leblon, onde fica o apartamento de Aécio Neves), ele se viu perseguido por uma SUV imensa, cheia de adesivos do tucano, e teve que ouvir um agressivo “Volta pra Cuba!”. A que ponto chegamos: já não se pode mais andar a pé sem medo de ser agredido?! “Detalhe”: ele declarou voto em Luciana Genro no primeiro turno, não em Dilma.

Eu penso o seguinte: as pessoas têm o direito de votar em quem quiserem. Em Dilma, em Aécio, em branco, no nulo. Ou podem até mesmo não comparecer às urnas, nestes tempos de voto nem tão obrigatório assim (as abstenções chegaram a 20% no primeiro turno. Um quinto do país!). Na minha família tem dilmista, aecista e marineiro, só no núcleo familiar mesmo. E há que se respeitar a inteligência alheia, sabe? Se a pessoa raciocinou e concluiu que vai votar de tal jeito, é preciso se conformar. Ninguém é dono da verdade e não existe uma verdade soberana, que alguns detenham e outros sejam burros demais para captar. Existem ponderações e prioridades para cada eleitor.

Sobre isso, recomendo o texto brilhante que Antonio Prata publicou na “Folha” de ontem. Ele fala como o chapeiro vota diferente do dono da padaria, ambos fazendo uso de um voto racional. O chapeiro não é mais ignorante que o dono da padaria só por ser mais pobre (como acredita Fernando Henrique Cardoso, e até declara, sem nem corar as bochechas). Inteligência é algo que prescinde de anos de escolaridade ou de dinheiro no bolso: é uma questão de neurônios, de tico e teco. E deus é testemunha de que tem muita perua rica e playboy milionário que são burros como uma porta.

Eu acho que, nesses tempos de guerra, de fanatismo exacerbado, as pessoas precisam respirar fundo e se lembrar de um bordão que não me canso de repetir: todo fanatismo é burro. É saudável apresentar dados e informações, numa conversa com os parentes e amigos, que, quando não são fanáticos, podem até mesmo mudar de ideia quanto a um voto (deixar de votar nulo e escolher um dos dois, por exemplo). Não é saudável promover ataques, agredir, distorcer textos publicados ou ofender, como muitos têm feito.

Vi na internet e gostei, então vou usar para fechar este texto:

amareleicoes

Deixem a guerra para a baixaria das campanhas eleitorais, para os candidatos e suas declarações belicosas. A gente pode separar a razão da emoção e passar por essas últimas duas semanas sem tantos mortos e feridos.

P.S. Já decidi meu voto há tempos, mas não vou declarar neste post, para não correr o risco de toda a mensagem que passei se perder entre os comentários fanáticos, raivosos e belicosos que sem dúvida vão aparecer. De qualquer forma, antes do dia 26, vou fazer um post sobre as razões (não emoções, mas razões mesmo) do meu voto.

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