A polêmica dos médicos estrangeiros – parte 3 (a resposta de duas médicas)

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Por enquanto recebi duas respostas de médicas sobre o debate que vem sendo travado aqui no blog. Uma favorável, de um modo geral, à proposta do governo federal, e outra contrária. Tenho a promessa de outros dois médicos para esta semana ainda e, assim que chegarem os textos deles, acrescento aqui. Seguem as duas primeiras respostas abaixo:

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Depoimento de Patrícia Rezende de Castro:

“Sou contra a vinda de médicos estrangeiros da maneira como está sendo realizada. Acredito que o problema da saúde no Brasil vai muito além do que a simples falta de profissionais. A vinda de médicos estrangeiros não resolveria os sérios problemas de infra-estrutura, a falta de leitos e medicamentos e a péssima qualidade de trabalho oferecida a esses profissionais. Qualquer médico, por melhor que seja, não consegue desempenhar seu papel se não tiver as mínimas condições de trabalho (uma equipe de saúde, leitos disponíveis, medicamentos, acesso à interconsulta com especialistas, acesso a exames propedêuticos…). Sem esses requisitos básicos, o médico torna-se um simples expectante das mazelas que acomete nossa população. Isso sem entrar no mérito da qualidade desses profissionais estrangeiros… E quem garante que esses médicos irão permanecer nas áreas mais necessitadas e não virão para os grandes centros, perpetuando assim o problema da centralização desses profissionais no Sudeste e a carência desses no interior? Não é difícil perceber que essa proposta do governo, assim como milhares de outras, é apenas paliativa, um verdadeiro ‘tapa buraco’.”

Patrícia concluiu a graduação em Medicina pela UFMG em julho de 2012 e, atualmente, estuda para residência e trabalha em uma clínica de medicina do trabalho. Sua vida acadêmica foi integralmente no SUS.

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Depoimento de Ana Christ:

“Sou médica, formada pela UERJ, em 2007. Trabalhei no PSF (Programa Saúde da Família) e posso dizer que foi uma das experiências profissionais mais gratificantes que tive até hoje. Vi os indicadores de saúde da minha região melhorarem enormemente com medidas simples, como reuniões semanais para educação em saúde, visitas domiciliares, ações preventivas na comunidade, etc. Honestamente, não senti falta de grandes recursos tecnológicos para fazer meu trabalho. Tenho que admitir que demorava, quando eu precisava encaminhar um paciente ao especialista (dermatologia chegava a demorar quase um ano, por exemplo) e isso é nitidamente preocupante, mas a MAIORIA dos problemas de saúde dos meus pacientes, minha equipe (que incluía eu, uma enfermeira, duas auxiliares de enfermagem e cinco agentes comunitárias) conseguíamos resolver.
O que quero dizer com isso? Bem, o que quero dizer é que saúde pública não se faz investindo apenas em hospitais. Saúde pública se faz investindo em Atenção Primária e com medidas simples, implementadas facilmente por uma equipe de Saúde da Família. É claro que precisamos, sim, de bons hospitais e bons especialistas, mas se a Atenção Primária funcionar bem, a requisição da Atenção Secundária (especialistas) e Terciárias (hospitais) é consequentemente menor, esvaziando os hospitais e melhorando a qualidade do atendimento de quem realmente precisa de atendimento especializado.

Precisamos valorizar o Médico de Família e, infelizmente, nossas faculdades de medicina não o fazem. Nós, médicos, somos treinados para a superespecialização e poucos querem trabalhar na Atenção Primária, pois é uma área que não dá “status”. Acredito que se seguirmos esse caminho estaremos bem próximos aos caos na Saúde Pública, que vivem hoje os EUA, por exemplo.

Portanto, acredito na importação dos médicos (com revalidação de diplomas, que fique bem claro) como medida paliativa e acredito, mais ainda, na valorização do Programa de Saúde da Família na base da cadeia, ou seja, investindo na formação de bons médicos de família, desde a graduação em medicina, para que esses profissionais se sintam suficientemente valorizados para trabalharem na Atenção Primária, ao invés de quererem se super-especializar. Eu, mesma, saí do PSF e me tornei psiquiatra. Hoje, trabalho no SUS e tento trabalhar ao lado dos médicos de família, discutindo as demandas em psiquiatria dos seus pacientes, evitando encaminhamentos desnecessários ao especialista.

Quanto ao aumento do tempo de graduação de 6 para 8 anos, ainda não formei uma opinião definitiva. A princípio, me parece positivo que os médicos tenham uma formação voltada para a realidade do SUS e que valorizem o atendimento na atenção básica, mas ainda faltam dados de como isso será feito, como, por exemplo, como funcionará o “CRM provisório”, ou como será a supervisão dos alunos. Realmente, ainda é cedo para me posicionar.”

Ana é graduada em medicina pela UERJ e fez especialização em psiquiatria pelo HSPE. Já trabalhou no PSF, na cidade de São Paulo, e atualmente trabalha no SUS, pela Prefeitura de São Bernardo do Campo (SP) e em seu consultório particular.

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Você também é médico, já atuou na periferia e no interior, conhece a fundo os problemas da categoria e da saúde pública? Por favor, contribua também! Peça a seus colegas e parentes médicos para darem sua opinião! Pode enviar seu texto aí nos comentários ou para meu email, e eu acrescento ao post!

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2 comentários sobre “A polêmica dos médicos estrangeiros – parte 3 (a resposta de duas médicas)

  1. Gostei da opinião da doutora Ana Christ – e concordo com ela. Está em consonância sobre aquela matéria que li sobre as especializações dos médicos, deixando de lado a parte “clínica” e baseando apenas nos exames.

    Com essa discussão algumas iniciativas boas começam a ganhar visibilidade. Existe um programa chamado “Voluntários do sertão”, que promove caravanas com médicos de várias especialidades e promovem pequenas e breves cirurgias nas cidades mais pobres. O programa existe há 13 anos e ouvi uma médica citá-lo em emissora de rádio local. Uma “googlada” e encontrei isso:

    http://globotv.globo.com/rede-bahia/batv-salvador/v/caravana-voluntarios-do-sertao-realiza-atendimento-medico-gratuito-em-anage/2551417/

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    • Pois é, o melhor lado de todos esses debates políticos que estão surgindo desde que a população começou a ganhar alguma consciência política é que trazem à tona várias coisas de que nunca tínhamos ouvido falar antes, boas e ruins. Quando o que estava escondido, por interesse ou desinformação, ganha a luz do dia, todos saem ganhando.

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