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O vômito entalado o dia todo no meu cérebro borbulhante

Fonte: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=613354542015671&set=a.339807592703702.90174.165121586838971&type=1&theater
Fonte:  Propósitto Soluções Visuais

Fico imaginando a cena*. Alckmin, recém-chegado de Paris, se reúne com o comandante-geral da PM, coronel Benedito Roberto Meira, e o secretário de segurança pública, Fernando Grella Vieira, para discutir os protestos e bater o martelo. Na véspera, ele prometera endurecer contra os “vândalos”. O governador estala os dedos, alongando os braços. Pega os jornais, entra na internet. Sente que a opinião pública e da mídia está contra os manifestantes. As TVs destacam a minoria que comete vandalismos e depreda ônibus, dezenas deles, além de agências bancárias e vitrines de lojas. “Pode descer o sarrafo no próximo protesto”, decide, por fim. “Fala pra polícia tomar o controle das ruas. Podem usar tudo, tá tudo liberado, desde que esses moleques não fechem a Paulista de novo.” [Aviso aos leitores desavisados: as aspas são parte da minha imaginação]

***

Às 19 horas e 10 minutos da quinta-feira, dia 13 de junho, após a ressaca dos namorados, a ordem é cumprida. A Rota chega atirando. Joga bomba em carros, em grávidas e em pessoas ajoelhadas, bate em engravatados, submete casais que tomavam seu chopp atrasado. Não discrimina os manifestantes dos que apenas estavam na hora errada e no lugar errado. Ao perceberem jornalistas filmando, fotografando e escrevendo o ataque generalizado, partiram voluntariamente para cima deles. Atropelaram uns, atiraram em outros.

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Se eu estivesse lá ainda, teria ido pra rua cobrir, como já fui a tantas manifestações. Teria ido sem nenhum equipamento de proteção e teria ficado dando sopa, no auge da adrenalina, conversando com deus e o mundo, fotografando tudo com o celular, andando pra lá e pra cá. Teria levado um tiro de borracha, inalado gás de pimenta ou talvez levado um cassetete desavisado. Poderia ter ficado cega, como o colega da Futura Press. E não apenas por culpa da minha miopia e certa lerdeza, mas também porque jornalistas foram alvo proposital de policiais militares.

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Vira guerra. A brecha está aberta para que alguns revidem, com paus e pedras. Sobram mais de 100 feridos. Mais de 200 detidos, até por portar vinagre ou por aprender com guerrilheiros turcos (!?). No balanço oficial da SSP, no entanto, apenas policiais se feriram.

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(Na guerra, jornalistas fazem a cobertura protegidos por capacetes e coletes à prova de balas, dentre outros aparatos. Afinal, não estão ali como parte do conflito, mas como profissionais que são pagos e felizmente existem para divulgar o que testemunham ao mundo democrático. Passaram a usar esses equipamentos também para subir nos morros cariocas durante as guerras do tráfico. Após a morte do jornalista Tim Lopes, entidades como a Abraji passaram a defender e recomendar esse tipo de proteção. Mas na guerra das tarifas de ônibus, não se via jornalista protegido. Sofreram “acidentes” de trabalho dos mais graves e me pergunto se aqueles que perderam a visão ou tiveram outro prejuízo grave serão indenizados pelos veículos que os mandaram a campo, assim como pelo Estado.)

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Agora, a opinião pública mudou. Muito graças a esses jornalistas incansáveis que estavam no front – mas também ao poder de cobertura que os celulares dão a qualquer cidadão, ampliado pelas redes sociais –, todo mundo ficou sabendo o que aconteceu, mesmo em outros Estados e países. Todo mundo viu que a PM armada é que foi responsável pela confusão de quinta-feira, voluntariamente. A pauta se impôs, inescapável, nas capas de todos os jornais. A “Folha”, tão duramente criticada por chamar os brasileiros de vândalos e os turcos de manifestantes – para ficar em um exemplo –, estampou depois uma primeira página detalhada e explícita, mostrando a agressividade dos atos da polícia. Haddad recuou em suas declarações iniciais e disse que houve excesso da polícia. O ministro da Justiça, idem. A Polícia Militar se justificou com mentiras ou informações bem inverossímeis. Mas Alckmin, o chefe dessa polícia, saiu em defesa dela, dizendo que os vários feridos e os vários flagrantes de abusos foram “exceção”.

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O tiro do governador saiu pela culatra e o povo reagiu, horrorizado. Outros protestos, em solidariedade, passaram a ser combinados em todo o país e certamente vão ocorrer, em plena Copa da Fifa, para escancaro do mundo. Ninguém lembra mais que tudo começou por causa da tarifa de ônibus. Agora a pauta é o protesto pelo direito de protestar – garantido na Constituição –, ou seja, pela própria manutenção da democracia. A nova pauta é o osso entalado na garganta do trabalhador, estudante, jornalista, engravatado, idoso, desempregado, morador da favela mais que acostumado a ser desrespeitado por policial, e de tantos outros, que engoliram muito sapo nesses 20 anos de letargia e inércia pós-caras-pintadas do Collor, pós derrubada dos militares. A polícia militar, resquício da ditadura, é o osso da vez. Às vezes entalada até na garganta da própria polícia.

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PS. Queria que algum baita repórter descubra e nos conte como e quando foi, exatamente, a ordem para que a PM partisse pra cima dos não-fardados e dos jornalistas e acendesse o estopim. Enquanto isso não vem, me reservo no direito sagrado de imaginar.

Leia também: 10 observações sobre os protestos contra as tarifas de ônibus

Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

4 comentários em “O vômito entalado o dia todo no meu cérebro borbulhante Deixe um comentário

  1. Não duvido que as coisas tenham acontecido de forma muito parecida ao seu relato imaginativo, Cris. E que “fofo” o governador Alckmin no twitter falando em “coibir atos de violência” – todos viram de onde partiram tais atos no dia 13 de Junho. E todos viram graças aos jornalistas incansáveis e heroicos que lá estavam e também às pessoas que compartilharam relatos, vídeos e fotos lá mesmo na região da Paulista.

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