
Pois bem, a esta altura acho que muitos de vocês já terão lido o texto que indiquei ontem.
Eu o li ainda em janeiro, de uma sentada, e lembro que, durante a leitura, experimentei várias sensações, ao lembrar da minha própria saga como aprendiz de nadadora, atleta de uma das maiores equipes de natação do país e, por fim, “aposentada” precocemente aos 15 anos, vítima de uma tendinite no ombro.
(Já contei tudo isso AQUI.)
Acima de tudo, me identifiquei com vários trechos do texto. Por exemplo:
“Há, enfim, o terceiro tipo de nadador. Ele não tem o talento natural do segundo nem a incompetência crassa do primeiro. Fez aulas, treinou um pouco e aprendeu – mas, por mais que tente melhorar suas braçadas e pernadas, jamais deslizará sobre a água como o gordinho descrito por Leanne. Deve seu aprendizado ao esforço, à insistência, à disciplina, sobretudo ao tempo. Pertencem a esse terceiro grupo a maioria daqueles que sabem nadar – entre eles, eu.”
“Três anos atrás (…), decidi voltar a nadar. Eu tinha parado havia uns 15 anos, pouco depois de começar a trabalhar numa redação.”
“Brinca comigo que é entediante ficar contando azulejos – algo absolutamente impossível para um míope como eu, mesmo com óculos de nadar de grau. Penso então em como nunca consegui um par de óculos decente – que não deixasse entrar água, não fizesse pressão em volta dos olhos e, bem, permitisse contar os azulejos…”
“A natação é famosa como “o esporte mais solitário do mundo”. (…) Na piscina, você fica olhando uma linha no fundo; em águas abertas, uma vastidão sombria e alucinante (…). “Em qualquer lugar, você está sozinho com seus pensamentos e sua dor, submerso por longos períodos” (…). “Tive um treinador, Kip, que dizia que os bons nadadores precisam ser inteligentes. Ele queria dizer que eles devem se sentir confortáveis em suas mentes; devem ser capazes de suportar, e até de desfrutar, longos períodos de conversação consigo mesmos.” Nadar também é uma atividade mental, penso. Impossível nadar sem pensar.”
Às vezes, assustadoramente, eu parecia estar lendo minha própria história. Só que escrita por um homem, de 45 anos, paulistano. Não interessa: nossas histórias como nadadores são muito parecidas.
Mas o texto de Hélio Gurovitz é bem mais profundo: além de relembrar a infância, ele faz reflexões sobre a natação (como esta do “esporte mais solitário do mundo”), conta como resolveu voltar a nadar depois de 15 anos fora das raias e — o mais legal, ao meu ver — como superou os diversos desafios de suas limitações físicas e foi melhorando, aos poucos, até conseguir a consagração pessoal de chegar em antepenúltimo lugar numa prova que nada valia, depois de percorrer 5 km em uma hora e cinquenta minutos.
Quando li essa história em primeira pessoa contada com tamanha franqueza e riqueza de detalhes sobre algo que fez parte tão profundamente da minha vida e da minha formação, senti um troço.
Sim, um troço. “Acho que quero voltar a nadar”, eu disse ao meu pai, fechando a revista (que, por sinal, resolvi guardar).
Ao mesmo tempo em que sentia um misto de saudade e nostalgia e de curiosidade sobre a terapia solitária que é a natação (e que conheci tão bem, em plena adolescência), senti bastante medo. De voltar a ter dor nos ombros, de me embrenhar no vício que todo treino propicia, sabe-se lá quais outros tantos medos.
Fiquei maturando a ideia nesses últimos quatro meses. Até que, ontem, resolvi tentar.
(CONTINUA amanhã…)





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