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A nadadora dentro de mim – parte 2

Um dos poucos registros que tenho como nadadora, aos 14 anos
Um dos poucos registros que tenho como nadadora, aos 14 anos

Como escrevi ontem, resolvi, depois de 13 anos longe das piscinas, voltar a nadar.

Foi uma decisão que levou quase quatro meses para se concretizar, mas saiu.

Anteontem, eu me decidi. Não tinha mais nem maiô, nem óculos, nem touca. Já me desfizera muito antes das nadadeiras, palmares, boia e prancha, que eu também tinha nos tempos de atleta. Peguei um biquíni maior que tenho e lá fui eu, a pé (como já relatei aqui também, não fiquei parada nesse tempo todo: aderi ainda com mais força às caminhadas e corridas), até o clube.

Lá chegando fui direto à loja, escolher os óculos. Levei uns 15 minutos escolhendo os modelos. Todos me pareciam incômodos e frouxos para a entrada de água. Mas acabei ficando com um. Depois comprei a touca, mais rapidamente.

Eram 11h41 quando saí da lojinha em direção à piscina. Procurei uma raia vaga, deixei a sacola perto do salva-vidas, ajustei os óculos pela milésima vez. Não voltei a olhar o relógio, e comecei a nadar o crawl.

***

Os primeiros 100 metros foram de graça. Flutuei com uma facilidade ainda boa, respirando a cada quatro braçadas, dando as viradas direitinho, num ritmo que eu já sabia ter (O.K., fiquei 13 anos sem nadar, mas no período cheguei a nadar esses 100 metrinhos em cachoeiras da vida).

Os 100 metros seguintes foram mais custosos. Minha respiração parecia errada: toda hora tinha a impressão de que entrava água no ouvido esquerdo. Alternei com o peito e o nado de costas (não arrisquei a borboleta, que era meu melhor estilo nos tempos de atleta, por ser o que mais força a tendinite do ombro).

Tive que começar a parar a cada 100 metros. Estava respirando como uma velha reumática lá pelos 350 metros. Parava na borda por alguns segundos, ajustava os óculos de novo, percebia que os nadadores das raias ao lado me observavam com curiosidade.

Minha meta era chegar aos 500 metros nesse “primeiro dia”. (Assim como o Helio Gurovitz fez, percebi depois). E cheguei. Com uma dor indescritível nos músculos do braço e das pernas, mas cheguei. (Indescritível mesmo, porque não chega a ser dor, é mais um aperto, uma coisa meio vaga e abrangente). Olhei para o relógio de novo: 12h02. Para o tanto de vezes que parei, fazer os 500 metros em menos de vinte minutos me pareceu satisfatório.

***

Durante o percurso, não deu muito tempo de mergulhar na minha alma, como eu fazia quando nadava 5 a 7 km por dia, na equipe de natação. Afinal, foi muito rápido, e gastei mais meu cérebro tentando relembrar a melhor técnica e prestando atenção nas braçadas e pernadas, que perderam o automatismo de antes. Mas já foi suficiente para eu relembrar diversas memórias que estavam escondidas, dos meus 13 a 15 anos. A melhor amiga da época, os outros colegas, as festas de 15 anos que eu odiava, minha vontade de continuar criança pra sempre, as competições.

Lembrei de uma competição que tinha se apagado da minha memória. O treinador havia dito que quem fizesse o melhor tempo em cada estilo competiria no revezamento de medley (os quatro nados), que seria a última prova da noite. Eu raramente conseguia os melhores tempos e, por isso, costumava ficar de fora desses revezamentos em equipe. Mas, naquela noite, na minha melhor fase como atleta, fiz um tempo excelente na borboleta, o melhor dentre as meninas da minha equipe. Fiquei cheia de expectativa porque poderia, finalmente, entrar na disputa pelo revezamento. Mas o técnico resolveu descumprir o que havia anunciado antes e me trocou pela colega que geralmente fazia os melhores tempos (embora não naquele dia). Ter sido preterida injustamente me deixou frustrada, principalmente por não ter sido a primeira vez.

Puf!, pipoca outra lembrança semiapagada: num dos treinos longos, meus favoritos (minha resistência sempre foi melhor pra longas distâncias que para os tiros), acabei chegando na frente de todas as meninas e até de alguns meninos. Mais uma vez, aquele era o auge do meu momento como atleta e eu estava muito empanhada em dar o melhor de mim. Mas as pessoas ficaram me troçando e o próprio técnico duvidou que eu não tivesse contado errado e tivesse chegado tão na frente dos outros.

Depois de episódios assim, passei a me preocupar só com meu próprio tempo, a nadar para mim. Eu queria estar cada vez melhor nas competições, mas não para ganhar uma medalha para a minha equipe, e sim para superar minha marca pessoal anterior. Como já escrevi certa vez, passei a levar essa filosofia em todas as áreas da minha vida.

***

Enfim, o saldo dessa primeira experiência foi: R$ 70 a menos no bolso (óculos + touca), corpo dolorido, sensação de que tenho muuuuito a melhorar, memórias do passados ressuscitadas. E a determinação de nadar outras vezes ainda.

Determinação que prosseguiu no dia seguinte (ou seja, ontem). E se mostrou acertada, porque evoluí muito na minha segunda tentativa.

(CONTINUA amanhã…)

Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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