Jornalista Eliane Brum relembra início da carreira em entrevista para o livro ‘A Vaga É Sua’

Eliane Brum em seu primeiro plantão de polícia, em 1988, quando estagiava no "Zero Hora". Foto: arquivo pessoal
Eliane Brum em seu primeiro plantão de polícia, em 1988, quando estagiava no "Zero Hora". Foto: arquivo pessoal

Continuando com o resgate que me propus a fazer neste mês dos jornalistas, hoje trago a entrevista que eu e a Ana Estela de Sousa Pinto fizemos com a jornalista Eliane Brum para nosso livro A Vaga é Sua, publicado em 2010 pela Publifolha.

Entrevista com Eliane Brum para o livro A Vaga É Sua (2010)

Você conseguiu o primeiro emprego depois de ter sido premiada na faculdade. Como fez para conseguir esse prêmio?

Legalmente não era permitido fazer estágio fora, então a gente fazia estágio na faculdade mesmo. E foi uma sorte para mim, porque eu já estava desistindo de ser jornalista – eu fazia história também e achava que não tinha nada a ver com jornalismo –, e aí eu peguei um professor chamado Marques Leonam no estágio, que tinha sido um grande repórter e era apaixonado por reportagem. Ele falava com tanta paixão e fazia tanta reportagem maravilhosa que acabei me apaixonando também. Pra disciplina dele eu tinha que fazer uma grande reportagem e fiz uma sobre as filas – todas as filas em que a gente entra desde que nasce até morrer.

Por coincidência, no meu último semestre de faculdade, teve a primeira edição de um prêmio que acontece até hoje, um concurso entre as faculdades de comunicação da região Sul do país. Uma amiga minha inscreveu essa matéria “Esperando na fila”.

A comissão julgadora chamava a gente pra discutir o trabalho. Ela era formada por publicitários e jornalistas. Os jornalistas disseram que aquilo que eu fazia não era jornalismo e os publicitários disseram que era. Por sorte, tinha mais publicitários que jornalistas e eu ganhei. O prêmio era um estágio na redação do “Zero Hora”. Eu me formei, fui fazer o estágio em julho de 1988, acabou o estágio de um mês e em seguida me chamaram – e fiquei 11 anos lá.

Como que era esse estágio na faculdade?

Ele dava aulas sobre reportagem e a gente tinha que fazer uma grande reportagem – era basicamente isso. Era um exercício, não chegava a ser publicado. Durava um semestre, eu ia me formar, mas não ia fazer jornalismo. Aí mudou tudo, mudou minha vida – é a diferença que faz um professor de verdade!

Você já estava desestimulada com a faculdade então?

Já tinha desistido mesmo. Achava que eu não servia, que eu era muito tímida, também não me interessava muito por ler jornal, gostava de literatura, achava jornal meio chato, e não me via fazendo aquelas coisas que me ensinaram. Eu sentia falta de gente nas coisas.

Eu dava muito mais importância à outra faculdade que eu fazia, que era de história, mas acabava fazendo disciplinas de filosofia, eu aprendia mais lá. Mas me formei em jornalismo, comecei a trabalhar e não terminei história.

Essa sua formação complementar em história te ajudou como jornalista?

O curso de história me deu mais base. Estudei história, filosofia, sociologia, antropologia. O curso de jornalismo era muito fraco, então consegui entender melhor as coisas. Acho que ajudou, mas o que mais me ajudou como jornalista foi a literatura mesmo. Foi ler, porque literatura fala muito sobre a vida. Acho que a gente tem que ler muito. O que me salvou na vida foi ler muito.

O que te estimulou, então, a seguir no jornalismo, foram as grandes reportagens?

Foi esse professor, que me mostrou o quanto era fascinante ser repórter, porque ele foi o primeiro repórter de verdade que eu conheci. Quando comecei a fazer reportagem e ele gostou do meu jeito, eu descobri que podia contar histórias reais do jeito que eu acreditava, pra mim foi muito fascinante porque eu adorava escrever.

E teve muita resistência no começo, comecei minha vida sempre ouvindo que o que eu fazia não era jornalismo, porque não tinha esse lide clássico e blábláblá.

No Zero Hora você também deve ter ouvido isso muito, né?

Quando comecei, fui chamada pra cobrir a eleição de 1988. E eu fazia textos curtos, eu tinha que descobrir coisas, e eu adoro fazer isso. Eu fazia várias pequenas historinhas da cobertura, então adorei fazer isso e gostaram das coisas que eu fazia.

Peguei um tempo ainda em que tinha copidesque, os textos da gente passavam sempre por uma equipe que formatava, então eu brigava muito com eles. Ia brigando, insistindo, até que consegui fazer a matéria do jeito que eu acreditava, que foi da inauguração do McDonald’s em Porto Alegre, um ano depois. Aí comecei a ter um pouco mais de espaço pra conseguir escrever do meu jeito, com as coisas que eu olhava.

Quais outras dificuldades que você enfrentou quando era foca?

O mais difícil quando tu é foca é começar a buscar tua voz. Quando tu começa, é estimulado a fazer o padrão, querem que tu faça o feijão-com-arroz. Se tu te submete a isso, nunca vai ter uma voz que é tua. A gente tem que procurar nosso jeito de contar história. Então foi mais isso, eu sofria muito quando meus prints eram reescritos, e no começo eu tinha muito pouco jeito de barganhar.

E qual era sua maior lacuna naquela época?

Eu fui aprender mesmo fazendo. E aí eu fiz uma coisa que eu acho que é uma dica boa: vi lá dentro da redação do Zero Hora qual era o repórter que fazia as coisas mais legais, que podia me ensinar, e eu me grudei nesse repórter, enchi o saco dele. Era o Carlos Wagner. Ele me ensinou muito, desde apuração, até como lidar, conseguir fazer as matérias passarem, como me mexer lá dentro da redação.

Como você se aproximou dele?

Eu ia lá e perguntava, quando tinha uma pauta ia lá e discutia com ele, se eu brigava com alguém ia conversar com ele. Fui aprendendo. Eu sabia que tinha que aprender, não só a fazer reportagem, mas também a me mexer. Ele me enchia o saco, todo dia que passava por mim dizia: “E aí, foquinha!”. Aí um dia fui bem desaforada com ele e ficamos amigos.

Além desses aprendizados, você chegou a fazer outro tipo de curso, ou intercâmbio?

Não.

Qual característica é fundamental que um foca tenha?

Tem que aprender a escutar. Tem que saber que é difícil, a vida não é fácil em lugar nenhum e muito menos numa redação. Não vai conseguir construir teu lugar de uma maneira rápida e fácil. É difícil, mas vale a pena.

Tem que ter na cabeça o que tu quer. Em todos os percalços, tem que sempre dar uma paradinha e pensar: por que sou repórter? Não perder esse foco do que tu quer. Não ir pra uma redação esperando que te deem as pautas.

E no exercício mesmo da reportagem o que faz diferença é escutar as pessoas. Hoje a gente vê cada vez mais jornalista atropelando as pessoas. Resistir em fazer as coisas por telefone, por email. A tecnologia é ótima, mas não mudou o jeito de fazer reportagem, a gente continua tendo que enxergar as pessoas, botar o pé na lama.

Em muitos lugares vai ser estimulado a fazer o padrão, a fazer as coisas por telefone pra fazer mais pauta por dia, e tu vai ter que brigar. Então tem que estar preparado. Só encontrando tua voz que tu vai fazer diferença.

Você, que sempre foi pessoa de texto, o que achou da estreia na TV na participação especial no programa Profissão Repórter, dia 15/12?

Eu gosto muito de me colocar em risco. Tudo o que é fácil é o caminho que já foi feito, o mais óbvio. Então eu gosto de fazer coisas diferentes – eu faço documentário, estou fazendo agora ficção, estou experimentando a internet.

Fazer TV foi, nesse sentido, uma experiência muito importante, muito bacana, porque completamente nova. Depois de 21 anos trabalhando em jornal e revista, poder sentir esse frio na barriga de fazer uma coisa nova, me sentir desafiada por algo que nunca fiz é muito legal. E, ao contrário das minhas previsões, que sou um pouco tímida, eu adorei. Quero fazer outras vezes.

Mas pensa em migrar algum dia?

Acho que posso fazer de tudo um pouco. Cada vez mais a tecnologia nos dá essa possibilidade de fazer várias coisas.

E não sentiu dificuldades ao migrar de um pro outro?

Acho que a reportagem a gente faz do mesmo jeito. Não vi diferença, me senti super à vontade, não tive dificuldades com o fazer da reportagem em si. O que tem que aprender mais em TV é que o trabalho é mais coletivo. Na revista eu tenho minhas pautas, escrevo minha matéria, penso em como serão as fotos, edito minhas matérias. É um trabalho bem individual.

Na TV é uma equipe grande, são vários editores, tem o diretor, várias pessoas envolvidas, e o resultado do trabalho é menos teu olhar individual e mais o olhar coletivo. Tem algumas perdas nesse processo, mas também ganha por ter essa multiplicidade de olhares. Isso que pra mim foi mais diferente.

E ao migrar depois de muitos anos do jornal pra revista, o que sentiu de diferença?

Aconselho todo mundo a começar em jornal, porque você pega um pique que não pega em revista e é importante pegar enquanto é jovem. É bacana tu saber que é capaz de fazer três pautas por dia, ter que escrever uma matéria de uma página em 20 minutos, isso me dá muita tranquilidade na revista. A revista tem um outro tempo das coisas e é bacana ter começado com essa agilidade.

***

Na segunda-feira (13) volto com a entrevista que fizemos com Eliane Cantanhêde 🙂

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

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