- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
Como prometi no post de ontem, quando estávamos comemorando o Dia do Jornalista, a partir de hoje, até o fim deste mês, vou fazer mais um resgate especial em homenagem a esta profissão tão combalida (já foi combativa, agora é combalida mesmo) 😀
Desta vez, nada de vídeos que eu gravava quando trabalhava na Editoria de Treinamento da “Folha de S.Paulo”. Não. O que resolvi trazer foram trechos do primeiro livro que lancei, em 2010: “A Vaga é Sua“, escrito em coautoria com a Ana Estela de Sousa Pinto, editado por Oscar Pilagallo e publicado pela Publifolha.
Dia desses eu estava relendo esse livrinho que ajudei a escrever com tanto carinho, lá no início da minha carreira de jornalista. Muita coisa que escrevemos ali acabou ficando datada, porque várias práticas do jornalismo, e muito da tecnologia e das relações no ambiente corporativo se alteraram completamente nesse período.
Mas ali tem também algumas preciosidades, como as entrevistas que fizemos com 16 jornalistas renomados, que relembraram os começos de suas próprias histórias.
São elas que vou resgatar aqui, na ordem:
- Bob Fernandes
- Boris Casoy
- Eliane Brum
- Eliane Cantanhêde
- Fábio Seixas
- Guilherme Roseguini
- José Hamilton Ribeiro
- Juca Kfouri
- Laura Capriglione
- Laurentino Gomes
- Marcelo Tas
- Marcio Aith
- Maria Cristina Fernandes
- Milton Jung
- Ricardo Feltrin
- Xico Sá
Acredito que este livro já tenha saído de circulação há tempos, então, ao fazer este resgate, penso estar contribuindo para que muitas coisas valiosas que reunimos ali continuem podendo alcançar os estudantes de jornalismo e jornalistas de hoje.
Começo hoje, portanto, com a entrevista com Bob Fernandes:
Entrevista com Bob Fernandes para o livro A Vaga É Sua (2010)
Já conseguiu exercer a reportagem ainda na faculdade?
Comecei a trabalhar ainda estudando, na Comunicação da UFBA. Tive dois estágios, quase que ao mesmo tempo. Um era cobrindo artes e espetáculos na assessoria de imprensa da reitoria, emprego que servia para pagar a bolsa de estudos do governo.
E também comecei a trabalhar como estagiário na Rádio Jornal do Brasil, sucursal de Salvador. Estava no segundo ano quando comecei e fiquei por um ano. Fui profissionalizado na rádio JB ainda estudante. Depois trabalhei na sucursal Bahia/Sergipe da revista Veja – dos dois anos e meio que trabalhei lá, fiquei um ano e meio como estagiário, antes de me formar, embora recebesse como profissional, assim como na Rádio JB.
Como estagiário, fazia as mesmas coisas que um repórter efetivo?
Absolutamente tudo, inclusive plantão. Comecei a estagiar na Rádio JB, de ótimo radiojornalismo, o melhor do Brasil à época, dirigida no Rio de Janeiro pelo Procópio Mineiro e pela Ana Maria Machado, hoje da Academia Brasileira de Letras. Os textos seguiam para o Rio via malote e ela corrigia, fazia observações à mão.
Então foi grande o aprendizado?
Enorme. A sucursal unificada do JB, jornal e rádio, era muito forte, com profissionais muito bons. Estevam Dulci e Vitor Hugo Soares, os dois que chefiavam a redação da rádio e jornal, eram excelentes.
Como você conseguiu esse estágio na JB logo no começo da faculdade e sem experiência nenhuma?
A rádio ficava num bairro muito distante, Pernambués. Soube da rádio, era muito antenado, peguei um ônibus, fui até lá, bati no portão, e assim foi, na cara dura. Não tinha nem inaugurado.
A rádio tinha locutores que liam os boletins redigidos por nós. A primeira notícia foi sobre a morte de um frade do mosteiro de São Bento, muito importante à época porque dava abrigo a refugiados da ditadura, e foi a primeira notícia importante do dia em que a rádio entrou no ar e foi minha. Então já entrei trabalhando desde o começo, tanto que com três meses de estágio me profissionalizaram.
Teve algum processo de seleção?
Não sei se existiam outros candidatos, não existiam “processos de seleção” como os de hoje. Na Veja, onde o Noblat era diretor da Sucursal, teve. Éramos dois repórteres para disputar uma vaga.
E esse teste durou quanto tempo?
Dei sorte. Fiz uma matéria legal logo na primeira noite e outra com uns 15 dias e a disputa pela vaga que deveria durar dois meses se resolveu em duas semanas. Dei sorte e o cara deu azar.
No dia que fui trabalhar na rádio JB, o primeiro dia que fui trabalhar, logo às 7h da manhã, a rádio entrando no ar, morreu o frade muito importante do Mosteiro de São Bento e eu apurei essa notícia, dei sorte logo no primeiro dia.
E na Veja foi mais louco ainda porque o Luís Carlos Prestes estava chegando no Brasil e foi fazer uma palestra em Salvador. Eu, vindo do Rio onde morei um ano, soube da vaga e fui falar com o Noblat, a quem não conhecia, no mesmo dia, início da noite. Ele disse: “Vou ver a chegada do Prestes e a palestra, vamos conversar amanhã. Você fica tomando conta da sucursal agora à noite e no caso de uma grande emergência você me avisa amanhã cedo”. Logo que ele saiu, começou o Jornal Nacional local, e estourou a notícia de que tinha fugido da cadeia o Comissário Quadros, ex-chefe do esquadrão da morte lá.
Eu imediatamente peguei o telefone e falei com o Augusto Nunes, que era editor nacional da Veja. Expliquei quem eu era, qual era minha situação ali e disse: “Se você quiser, eu mando logo hoje”. Ele respondeu: “Se você conseguir…”, ele ficou até meio “assim” [creio que achou estranha a situação]. Peguei o material que tinha no arquivo da Veja/Bahia sobre esse personagem, liguei pros meus amigos na sucursal do JB e eles mandaram por telex o farto material que tinham sobre o Comissário, personagem lendário na Bahia à época.
Lembre-se de que não existia Google, era tudo arquivo. Juntei com a informação básica que apurei naquela noite junto à Secretaria de Segurança, consolidei o material e mandei.
No final da manhã seguinte o Noblat me deu parabéns e disse: “Fica tomando conta da sucursal pra mim que vou almoçar” (além da teletipista e motorista, éramos nós dois e o fotógrafo Luciano Andrade). Quando ele voltou, perguntou: “O que é isso aqui, o que está escrito neste envelope?”. Eu respondi: “Olha, tá dizendo aqui que é um convite pra inauguração de um clube na ilha de Itaparica, um tal de Méditerranée…”. Disse o Noblat: “Isso eu já entendi, eu quero saber por que o convite está no seu nome, se você nem começou a trabalhar aqui.” “Bem, Noblat, eu tava tomando conta da casa na hora do almoço, o cara ligou, perguntou meu nome e aí eu disse…” Aí ele falou: “Você é muito espertinho, então agora vai ter que cobrir a história do lançamento desse clube e, se você for bem, tudo bem, se não for, azar seu”.
Aí eu fui, foi uma maravilhosa festa de três ou quatro dias, fiz uma matéria legal, comecei muito bem. O meu concorrente, por algum motivo, não deu certo na matéria de estreia, que ele foi fazer com o Noblat na mesma Ilha de Itaparica… Era a cobertura de uma festa, do Culto aos Egungun, tidos no Candomblé como os espíritos, os ancestrais de pessoas importantes.
O fator sorte contou então?
Sorte conta quando você está preparado pra ela. Você tem que ter sorte, mas também tem que saber, de alguma forma, o que deve, tem que fazer. Se você não tiver outras qualificações, a sorte não adianta nada.
Qual era sua principal lacuna naquela época?
A inexperiência. Mas, felizmente, ao contrário de tanta gente hoje em dia, eu ouvia muito as pessoas mais experientes. Nunca tive nenhum problema de mostrar meu texto pros outros, perguntar o que achavam, como faço até hoje.
E outra sorte que tive é que quase sempre trabalhei com profissionais de altíssimo nível desde o começo, tanto na reitoria, quanto depois, na rádio JB, depois na Veja, sempre dei sorte de trabalhar com profissionais muito competentes.
Se for contratar alguém com sua inexperiência daquela época, qual característica a pessoa tem que ter?
Basicamente, eu tenho que vislumbrar, constatar – e isso não é fácil – que a pessoa tem talentos. Já contratei pessoas logo na primeira conversa porque tinham vivacidade, criatividade e, fundamental, uma extraordinária “determinação”, característica imprescindível no jornalismo. Nem sempre funciona, mas às vezes, raras vezes, você percebe a luz, a chama, logo no primeiro contato.
Você já trabalhou em todo tipo de plataforma – rádio, TV, revista, jornal, site –, quais diferenças e dificuldades você sentiu para migrar de uma para a outra?
A diferença é a técnica de cada meio. Claro que tem diferença, claro que tudo tem um aprendizado, mas o nuclear, o cerne, é o mesmo. Você tem que mudar a linguagem, no sentido mais amplo de linguagem, se adaptar, eventualmente é um aprendizado para muito melhor.
Nunca senti dificuldade de adaptação, a dificuldade é para apreender e aprender a linguagem nova. Eu não usaria nem a palavra “dificuldade”, porque o legal é você ter a oportunidade de aprender coisas novas.
Aí a versão resumida em papel da entrevista:
Amanhã volto com a entrevista que fizemos com Boris Casoy 🙂
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