Vale ver: Pecadores (Sinners)
2025 | 2h17 de duração | Classificação: 16 anos | nota 9
- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
Ultimamente não tenho gostado muito de assistir a filmes de terror. Por isso, quando vi o trailer de “Pecadores”, por mais que eu tenha ficado impressionada com as imagens e a trilha sonora, não me animei a ir ao cinema assistir.
Mas eis que, meses depois da estreia, “Pecadores” recebe 16 indicações ao Oscar e se torna o filme com mais indicações da história, batendo o recorde anterior, de 14, que era de A Malvada (1950), Titanic (1997) e La La Land (2016).
Dezesseis indicações é coisa pra burro. Não dá pra ignorar.
E a verdade é que gostei. Muito. Os primeiros 40 minutos da história, aliás, não têm qualquer elemento sobrenatural. Ficamos conhecendo os gêmeos Fumaça e Fuligem (ambos interpretados pelo ótimo Michael B. Jordan, que brilha nas duas personalidades tão diferentes) e seu primo Sammie, interpretado pelo estreante Miles Caton (que tem um vozeirão).

Eles estão no Mississippi, em 1932, um dos lugares e períodos mais racistas dos Estados Unidos, uma época em que a Ku Klux Klan chegou a ter 4 milhões de membros.
Vemos os primos retornarem de Chicago cheios da grana, comprarem uma velha serraria de um líder da KKK e mobilizarem várias pessoas para abrir um clube de blues no lugar ainda naquela noite.
Entre os mobilizados estão o bluesman Delta Slim, interpretado pelo veterano Delroy Lindo, e o próprio Sammie. Os dois são responsáveis por algumas das melhores músicas que ouvimos ao longo do filme – e olha que o que não falta são blues incríveis nesta trilha sonora. Um deles, I Lied to You, criado para o filme, também acabou indicado ao Oscar:
É só já na chegada da metade do filme que o sobrenatural começa a tomar conta de vez. No começo lamentei, porque aquele parecia ser um ótimo drama de época sobre a história racista norte-americana, contada do ponto de vista dos negros. Vale dizer que 90% do elenco é negro (como, aliás, também vimos em Pantera Negra, do mesmo diretor e roteirista, Ryan Coogler).
Mas depois entrei no clima, assim como já tinha feito em outros ótimos filmes de terror, como A Chave Mestra (2005) e Corra! (2017). E, mesmo quando descobri que os monstros da vez eram vampiros (!), achei a história toda muito boa.

Aliás, reli agora a resenha que escrevi sobre Corra! e descobri que, na época, eu fiz uma pesquisa sobre a quantidade de filmes de terror indicados à categoria principal do Oscar e eram pouquíssimos. Escrevi o seguinte:
- Nenhum filme de terror foi indicado a “melhor filme” nos primeiros 40 anos de existência do Oscar. E estamos falando de um período que teve clássicos como Bebê de Rosemary, Frankenstein, Drácula e Psicose.
- O Exorcista, de 1973, foi o primeiro filme de terror indicado a “melhor filme”. Mas não levou.
- O Silêncio dos Inocentes, de 1991, foi o primeiro e único filme de terror, até hoje, a levar o prêmio principal.
- Antes de “Corra!”, o último terror que tinha sido indicado à estatueta mais importante foi “Sexto Sentido”, de 1999. Sim! Quase 20 anos sem indicações!
Bom, aí veio Corra! concorrendo em 2018 e depois só A Substância, após mais sete anos. E agora Pecadores não só é indicado como bate recordes históricos. O mundo dá voltas, não é mesmo? 😉
A questão é que gêneros são só formas de narrativa. E podemos sim abordar temas sérios em gêneros mais ligados ao entretenimento. Assim como podemos inserir leveza e até humor dentro de temas seriíssimos (um exemplo? Jojo Rabbit). Para alguns, inclusive, Pecadores nem é um filme de terror. Delroy Lindo, por exemplo, interpretou a história como uma metáfora para algo bem mais profundo.

Em entrevista, ele disse o seguinte:
“Tenho que dizer, nunca vi o filme como terror. Não o vi como um filme de terror. Quando li o roteiro, interpretei a história como sendo sobre o que acontece quando uma comunidade é infiltrada e se volta contra si mesma (…) quando essa comunidade começa a exercer violência interna. Nesse sentido, é uma história muito contemporânea. E é uma história com a qual nós, como pessoas negras, lutamos, porque boa parte da violência que ocorre em nossas comunidades é infligida por nós mesmos. (…) Uma senhora veio aqui e disse que o filme a fez pensar sobre liberdade. (…) Eu adoro isso porque o que isso afirma e confirma para mim é que este filme, esta história, é realmente sobre algo maior do que o gênero em que se insere. É muito mais do que isso e aborda questões mais profundas.”
É isso, ele disse tudo. No final das contas, o que importa pra gente, do lado de cá da tela, não é o gênero do filme, mas é estar diante de boas histórias, bem contadas, tanto do ponto de vista do roteiro quanto da forma.
Pecadores tem isso tudo: não só o roteiro é bom e o elenco é todo excelente (com três atores indicados), mas também o som, o figurino, a direção de arte, a maquiagem, os efeitos visuais, a montagem, a trilha sonora, a fotografia… Será que sobrou alguma categoria à qual o filme não tenha sido indicado? Bom, só aquelas nas quais ele não pode entrar, como animação, documentário e filme internacional. Um feito realmente inédito e impressionante.
Não é raro que filmes com muitas indicações acabem levando poucas estatuetas para casa. O Irlandês, Trapaça e Gangues de Nova York, por exemplo, receberam dez indicações cada e ficaram a ver navios, com zero prêmios. Mas não acho que será o caso de Pecadores – nem seria justo se algo assim acontecesse a este filme (convenhamos: O Irlandês e Trapaça são bem mais ou menos!).
Vamos ver se este terror será capaz de fazer história e bater recorde também no número de premiações, superando as 11 estatuetas que Titanic, Senhor dos Anéis e Ben-Hur ganharam em suas épocas.
***
P.S. Não deixem de ver o pós-créditos. É essencial para a mensagem do filme e ainda tem a participação especial de ninguém menos que a lenda viva Buddy Guy.
Pecadores foi indicado a 16 Oscars em 2026:
- Melhor elenco
- Melhor fotografia
- Melhor maquiagem
- Melhor trilha sonora
- Melhor canção original (I lied to you)
- Melhor som
- Melhor efeito visual
- Melhor direção de arte
- Melhor figurino
- Melhor montagem
- Melhor ator principal (Michael B. Jordan)
- Melhor ator coadjuvante (Delroy Lindo)
- Melhor atriz coadjuvante (Wunmi Mosaku)
- Melhor roteiro original
- Melhor direção (Ryan Coogler)
- Melhor filme do ano
Assista ao trailer de Pecadores:
Outros filmes para quem gosta de blues já resenhados aqui no blog:
- A voz suprema do blues
- Cadillac Records
- Elvis
- Uma Noite em Miami…
- Selma
- 12 anos de escravidão
- Estrelas além do tempo
- On the road
- O Lobo de Wall Street
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