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‘A Voz Suprema do Blues’: um título metafórico para compensar a frustração

Para ver na Netflix: A VOZ SUPREMA DO BLUES (Ma Rainey’s Black Bottom)
Nota 7

É bom saberem, logo de cara, que o filme é mais sobre Levee (Boseman) e outras “vozes do blues” do que sobre Ma Rainey.

Vou direto ao ponto: fiquei frustrada com este filme e sei exatamente por quê. Mas, até o final deste texto, vocês entenderão (espero) a nota 7 que resolvi dar a ele.

Sou uma grande fã de blues, como os leitores deste blog sabem bem (vocês podem ouvir meu programa dedicado a Ma Rainey no episódio 29 da barbearia). Ao ver um filme que se chamava “Ma Rainey’s Black Bottom” e que foi traduzido como “A Voz Suprema do Blues”, me desculpem, mas imaginei um filme mais biográfico sobre a mãe do blues. Imaginei também que Viola Davis ocuparia mais do que meros 20 e poucos minutos na tela.

Isso foi o que imaginei. Como os leitores mais assíduos também saberão, evito ler muito sobre um filme antes de assistir a ele. Gosto de ir saboreando as cenas de surpresa, e deixo para tentar descobrir mais coisas sobre o filme depois, porque não tem nada mais irritante do que um spoiler. Até os trailers eu tenho evitado. Portanto, só me resta imaginar.

Mas o que encontrei, afinal? Um filme que parece bem mais comprido do que é, por causa dos seus longuíssimos diálogos (quase sempre monólogos), e quase nenhuma história de Ma Rainey, teoricamente a protagonista. Eis que o real protagonista é um personagem fictício: Levee Green, interpretado pelo excepcional Chadwick Boseman, que já levou o Globo de Ouro póstumo pelo papel e também é forte candidato ao Oscar de melhor ator. (Ele morreu em agosto passado, de câncer, e estava em tratamento durante as gravações deste filme, sem que seus colegas soubessem. Foi seu último trabalho.)

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Enquanto eu ia assistindo, me deu uma forte sensação de já ter visto outro filme com estrutura parecida com esta. Preso a um mesmo cenário o tempo inteiro, que aqui é um estúdio. Com monólogos que às vezes lembram sermões religiosos. E inclusive pelos personagens, anti-heróis que despertam pouca simpatia em seu furor justificado. Ao ver Denzel Washington como produtor nos créditos finais, matei a charada: trata-se de um roteiro parecidíssimo com o de “Um Limite Entre Nós“, estrelado por Denzel e por Viola. Depois, quando fui ler mais sobre o filme, descobri que as duas histórias são baseadas em peças teatrais escritas por uma mesma pessoa, August Wilson.

Imagino que esses discursos demorados e aprisionados num mesmo cenário façam muito mais sentido na Broadway, mas, no cinema, o efeito que causou em mim, nas duas vezes, foi de um roteiro que desperdiçou boas histórias. Nem as belas atuações dos atores nem a fotografia pungente em tons de laranja, nem o figurino e design de produção impecáveis são capazes de compensar um roteiro ruim. Não é à toa que o filme foi indicado a cinco categorias do Oscar, mas ficou de fora de melhor roteiro adaptado, melhor direção ou melhor filme.

Viola Davis impecável durante os 20 e poucos minutos em que aparece no filme.

É importante destacar que “Um Limite Entre Nós” fez muito menos sentido na minha cabeça do que este, e só reservei àquele uma pequena nota 2. Agora, se formos ver este filme já sabendo que não é um “Cadillac Records” com Ma Rainey, já sabendo que não mostra o lado interessante de como os negros conseguiram se fortalecer em plena segregação racial, mas sim vários discursos tristes sobre toda a dor derivada do ódio racial, aí a decepção por não encontrar o que é oferecido diminui e podemos admirar a poesia – cheia de sangue nos olhos – que nos é entregue no lugar.

O título traduzido “A Voz Suprema do Blues” passa a fazer mais sentido que o original, porque deixa de ser sobre o vozeirão de Gertrude Ma Rainey e passa a ser uma metáfora sobre todas as vozes ecoadas nas canções de blues. Sobre todos aqueles diálogos-meio-monólogos que explicam o que aqueles caras viveram, o que sentem e por que culminam no ato de desespero final.

A voz suprema do blues é esta, descrita pela dona da mais potente voz:

“O blues ajuda você a sair da cama pela manhã. Você se levanta sabendo que não está sozinho. Existe algo mais no mundo. Algo foi adicionado por essa música. Este é um mundo vazio sem blues.”

Com essa nova perspectiva, pude terminar esta resenha dizendo que: sim, este filme me frustrou, na medida em que não me proporcionou o que eu esperava ver. Mas depois substituiu as expectativas por boa poesia, capaz até de compensar os erros repetidos desde a peça teatral anterior. E aí vai minha nota 7.

 

Assista ao trailer do filme:

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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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