Bastidores de uma Redação de jornal: como é o dia de um repórter-fotográfico?

Alguns dos repórteres-fotográficos da Folha de S.Paulo ouvidos por mim em 2010 para o blog Novo em Folha: Alan Marques, Mastrângelo Reino, Moacyr Lopes Junior e Joel Silva.
Alguns dos repórteres-fotográficos da Folha de S.Paulo ouvidos por mim em 2010 para o blog Novo em Folha: Alan Marques, Mastrângelo Reino, Moacyr Lopes Junior e Joel Silva.

Chegou ao fim, meus amigos. Hoje é o último dia deste resgate que venho fazendo desde setembro aqui no blog, mostrando os bastidores de uma redação de jornal.

Foram 15 posts, originalmente produzidos por mim para o blog Novo em Folha, da “Folha de S.Paulo”, e publicados em 2010:

5 repórteres-fotográficos contam sua rotina de trabalho

Neste último post, o décimo-quinto, trago depoimentos de cinco fotógrafos que trabalhavam na “Folha” naquela época, que respondem como é a rotina de um repórter-fotográfico. São eles:

  • Alan Marques
  • Rafael Andrade
  • Mastrângelo Reino
  • Moacyr Lopes Junior
  • Joel Silva

Ao contrário dos vídeos, que eu tinha guardado no meu computador até hoje, esses depoimentos eu só pude resgatar por causa do maravilhoso site Web Archive.

Divirtam-se:

Alan Marques, que era repórter-fotográfico da sucursal de Brasília:

“O dia do fotógrafo começa cedo em Brasília e acaba tarde porque segue a agenda da política local. Aquela história que na Capital Federal ninguém trabalha é mito e posso dar o exemplo dos jornalistas daqui, que têm a carga horária diária de 12 horas.

Algumas vezes o repórter-fotográfico vai para uma pauta que é a mais importante do dia e rala muito, mas não rende. Outras vezes, uma foto que seria banal e levou apenas um minuto para ser feita vira a imagem de destaque do dia.

Sextas e segundas-feiras são os dias que a gente foge da agenda política da cidade e trabalha nas pautas especiais e nas de fim de semana. No último dia 18, eu já havia feito quatro pautas especiais e passei na residência oficial da Presidência da República, na Granja do Torto, para conferir a decoração da festa junina, que o presidente Lula daria no sábado, 19.

Era uma pauta sem muita importância e que a gente chama de “fria”. Ao descer do carro para fotografar as bandeirinhas e os santinhos que enfeitavam a entrada da Granja do Torto, vi uma figura com uma roupa simples, mas que com ar sério conferia a qualidade da decoração. Para minha surpresa, era a primeira-dama, Marisa Letícia, que estava ali para ver se os preparativos para a festas estavam bem feitos. Uma assessora correu em minha direção e pediu para não fotografar porque a primeira-dama não estava arrumada para fotos. Consegui fazer umas seis fotos antes que as duas entrassem na Granja do Torto.

A pauta que parecia não ter importância foi a foto que publiquei no dia seguinte, porque era muito difícil ver Marisa Letícia tão sem maquiagem.

Marisa Letícia em foto de Alan Marques publicada na Folha de S.Paulo

Na noite seguinte, a primeira-dama, Marisa Letícia, e o presidente Lula deram a festa junina e abriram para que eu e mais outros três fotógrafos registrássemos a procissão de Santo Antônio, que o casal faz anualmente antes do início do arraial. Lá estava a primeira-dama arrumada de caipira ao lado do presidente. Ela veio para minha direção e me entregou um pãozinho de Santo Antônio e foi embora com os outros convidados. Esta foto não vi em lugar nenhum.”

Marisa Letícia e Lula em foto de Alan Marques publicada na Folha de S.Paulo

Marisa Letícia e Lula em foto de Alan Marques publicada na Folha de S.Paulo
BRASÍLA, DF, BRASIL, 19.06.2010, às 22h30 – PODER- O presidente Lula segura estandarte de Santo Antônio ao lado da primeira-dama Marisa Letícia durante procissão religiosa na festa Junina realizada na residência da Granja do Torto. O casal fez o último Arraial do Torto do governo e teve como convidados ministros, políticos, amigos e familiares. Alan Marques/ Folhapress

Rafael Andrade, que era repórter-fotográfico da sucursal do Rio:

“O dia a dia na sucursal Rio é bem variado. Por mês, às vezes chegamos a fazer mais de 50 pautas, trabalhando no mínimo 22 dias – quatro semanas mais um fim de semana. Isso dá numa média aproximada de duas a três pautas por dia, mas tem dias em que fazemos quatro e dias em que fazemos uma.

Às vezes acontece de uma pauta – como o recente encontro de chefes de estado da Aliança de Civilizações da ONU, ou a cobertura das chuvas no Rio, ou a tragédia em Angra, ou a queda do avião da Air France, ou a simples agenda no Rio de um candidato a presidente – te consumir um dia inteiro, às vezes 10, 12 ou até mais horas.

Ontem [22/6], por exemplo, cobri a Marina Silva em agenda em Petrópolis. Na cidade, que fica na região serrana, Marina daria coletiva, seguida de caminhada no centro, seguida de evento em hotel.

A agenda começaria às 13h30. Para chegar lá nesse horário, cheguei à Folha às 10 da manhã – sairíamos às 11h. A Marina atrasou e o primeiro evento só começou por volta de 14h30. Às 16h, ela faria corpo a corpo no centro. Ela só deixou o hotel às 16h30. Não foi direto para o calçadão, antes fez aparição numa TV evangélica de Petrópolis. Só foi caminhar no centro por volta de 18h. Uma hora depois foi para o último evento do dia – que estava marcado para as 18h. Ficou lá até perto de 20h, quando se encerrava a agenda e nosso trabalho.

Durante o último evento, que era mais controlável – ela falando numa mesa para militantes do PV, transmiti o que tinha de melhor, que era a caminhada no calçadão e o encontro com eleitores nas ruas de Petrópolis. Ao final do último evento, transmiti mais algumas fotos dela discursando e aguardei ela deixar o local.

Marina Silva em foto de Rafael Andrade publicada na Folha de S.Paulo

Retornamos ao Rio depois da pauta, chegando aqui por volta de 22h. Ou seja, mesmo chegando mais tarde na sucursal, ainda consegui trabalhar 12 horas ontem. E aí vem uma eleição presidencial…”


Mastrângelo Reino, que era repórter-fotográfico de São Paulo e fazia a cobertura para a coluna da Monica Bergamo:

“Faço em média duas pautas para a coluna por dia, e isso leva umas quatro horas, depois vou para a minha casa e edito o material e mando ainda durante a noite, já que as fotos precisam estar nas mãos do pessoal da coluna logo cedo para poderem diagramar a página.

As pautas geralmente são festas badaladas e cheia de celebridades e por isso nem sempre é muito tranquilo, já que sempre tem vários outros fotógrafos e fãs disputando o mesmo espaço que eu. Quanto mais pessoas eu conhecer, melhor. Quando não conheço, procuro no “São Google”, ou a assessoria ou os outros fotógrafos me ajudam com isso.

A coluna leva uma linha não só de colunismo social, ela vai além disso, e aí precisamos ter fotos boas sobre eventos políticos, etc.

Fotos de Mastrângelo Reina para a coluna da Monica Bergamo, na Folha de S.Paulo

Sempre procuro chegar antes nas pautas para poder tentar fazer um retratão para o abre da página, e quando isso rola, tem que ser feito muito rápido.

A Redação às vezes me pauta para pautas do dia, e aí pauta outra pessoa para fazer a coluna. Essas outras pautas são de diversas editorias, pode ser o alagamento do Jardim Pantanal, um retrato de um empresário, treino ou jogo de futebol, manifestações etc.”

Foto de Mastrângelo Reina para a Folha de S.Paulo Foto de Mastrângelo Reina para a Folha de S.Paulo Foto de Mastrângelo Reina para a Folha de S.Paulo Foto de Mastrângelo Reina para a Folha de S.Paulo


Moacyr Lopes Junior, que era repórter-fotográfico de São Paulo, sobre como era o plantão de sábado:

“Sábado, em meu plantão do final de semana, fui pautado para acompanhar, pela manhã, a convenção do PTB, num hotel na zona sul de São Paulo, onde o candidato à Presidente pelo PSDB, José Serra, participaria do encontro de anúncio de sua candidatura.

Trânsito tranquilo, eu e o sr. Marivaldo, motorista da Folha, chegamos às 9h e já encontramos dois fotógrafos na porta do hotel.

A convenção estava marcada para as 10 horas. Chegaram correligionários, políticos, repórteres e nada do candidato Serra.

Eu reconheci um segurança no lobby e fiquei de olho nele – é bom saber identificar quem são os seguranças e assessores porque, mesmo quando não querem falar, um gesto, uma movimentação entregam os passos de seus protegidos. O segurança continuava tranquilo, de vez em quando checava o celular, e em seguida espiava a TV, que mostrava um jogo da Copa na recepção do hotel.

Passava das 11 horas quando foi iniciada a convenção com discursos e homenagens. Todos os jornalistas subiram para a reunião e eu preferi ficar distante, observando o segurança que continuava aguardando o candidato. Mais uma checada no celular e o segurança recebe um telefonema, resolve sentar: foi minha dica para entender que o candidato iria atrasar ainda mais, então fui para os discursos, desisti de tentar uma foto exclusiva.

O difícil de uma cobertura fotográfica é a disputa de espaço com tantos “fotógrafos” com suas câmeras de celulares. Eles entram na frente, esticam o braço, gritam, pedem atenção, modificam a espontaneidade da cena. Tá cada dia mais difícil.

Não pensaram num lugar para os fotógrafos e cinegrafistas, nos amontoamos no chão.

Alguns políticos discursaram longamente, meu horário para a transmissão das fotos estava no gargalo, tinha que mandar até 12h30, avisei o editor da Fotografia que o candidato estava atrasado e ele ficou preocupado com o horário, me disse o formato da foto. Quando o Serra entra na sala com mais de uma hora de atraso, o jeito foi resolver o fechamento com uma imagem contextualizada do encontro, ou seja, a proximidade dos dois partidos. Assim que aconteceu a cena, no mesmo local, embaixo da mesa da cerimônia, liguei meu computador, editei quatro fotos, legendei e transmiti para a Redação o mais rápido possível. Deu certo.

Foto de José Serra feita por Moacyr Lopes Jr. para a Folha de S.Paulo

É assim, quase sempre dramático, um fechamento de jornal. Parece que não vai dar tempo e o fotojornalista tem a responsabilidade de registrar o fato com precisão e fidelidade sem perder o horário do fechamento porque, afinal, foto boa é foto na página.”


Joel Silva, repórter-fotográfico de São Paulo, contou por telefone como estava sendo a cobertura da Copa, na África

Rotina

Aqui a gente acorda por volta das 8h e vai dormir por volta das 2h da madrugada, todos os dias.

Cobertura

Às vezes deixo o esporte – os treinos e jogos – e vou fazer outras pautas paralelas, para tentar contar um pouco como é a África. Já estive em favelas, em bares… A rotina na Copa não é só esporte.

Foto de Joel Silva para a Folha de S.Paulo

Dificuldades

Uma das maiores dificuldades é ter que estar sempre atento com segurança, ainda mais que a gente anda com equipamento caro. Outros jornalistas da Folha tiveram o cofre do hotel arrombado. Eu fui assaltado dentro do avião, na vinda pra cá. Roubaram o laptop no bagageiro.

Além disso, temos dificuldade de locomoção. Aqui não existe táxi, os táxis são vans. Ontem um colega foi assaltado pelo motorista. Perguntou quanto ficou a corrida e o cara tirou a faca e disse: “Tudo o que você tiver”. Sempre tem que alugar carro. A Folha alugou carro pra gente.

E é muito frio.

Pautas por dia

Varia. Ontem fiz duas. Hoje fiz o treino e um jogo. Sempre umas duas ou três pautas por dia. No dia do jogo do Brasil, a gente só faz o jogo. Tenho que ir ao estádio pegar colete, credencial e um tíquete com a posição no campo. Isso demanda tempo.

Foto de Joel Silva para a Folha de S.Paulo

Multimídia

Estou fazendo cobertura multimídia. Já enviei mais de cinco vídeos para a Folha.com. Eu faço tudo: capto as imagens, vou para o hotel, faço a edição e mando para o Brasil.”


 

Assim encerro mais este resgate histórico, pessoal. Espero que tenham gostado e que seja útil não só para estudantes de jornalismo, jornalistas e amantes desta profissão, mas para todos que queiram saber um pouquinho de como era a nossa história há 15 anos 🙂

Com este post, não tenho mais séries para resgatar, mas ainda tenho alguns vídeos bacanas do Novo em Folha guardados no meu computador, que vou trazer para o blog de vez em quando. Até a próxima! 😉

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

2 comments

  1. Fotógrafo de jornal trabalha muito mesmo. Lembrou o Mazico, do Jornal do Brasil, sobre quem escrevi aqui, e Toninho Lara e Marcelo Prates, do Globo, com quem trabalhei. O último morreu há dias, depois de uma vida agitada, como se vê ao pesquisar sobre ele no Google. Boa série de reportagens, Cris.

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