‘Anos de chumbo’, de Chico Buarque: uma sociedade adoecida

Óleo sobre tela,160 × 160 cm, sem título, de 2008, feito por Solange Pessoa, artista que vive e trabalha em Belo Horizonte. Esta arte ilustra a capa do livro 'Anos de Chumbo e Outros Contos', de Chico Buarque.
Óleo sobre tela,160 × 160 cm, sem título, de 2008, feito por Solange Pessoa, artista que vive e trabalha em Belo Horizonte. Esta arte ilustra a capa do livro 'Anos de Chumbo e Outros Contos', de Chico Buarque.

Quando falamos em “anos de chumbo“, imediatamente pensamos no período mais tenso e sangrento da ditadura militar brasileira, entre o decreto AI-5, em 1968, e o fim do governo Médici.

Mas, ao abrir este primeiro livro de contos de Chico Buarque, nos deparamos com o conto “Meu Tio”, que parece se passar bem mais recentemente. Seu protagonista, o tio, é tipo aqueles milicianos bolsonaristas da pior espécie, que acham que podem fazer o que quiserem balançando umas notas de cem ou mostrando o cano de um revólver.

A história é narrada em primeira pessoa por uma adolescente, que parece completamente alheia aos diversos crimes que desfilam à sua frente, inclusive contra ela própria. Me fez lembrar do livro “Festa no Covil“, com a crueldade filtrada pelo olhar da inocência.

Pelo menos outros dois contos também são narrados em primeira pessoa por crianças, também envoltas em ambientes violentos: “Os primos de Campos” e o que dá nome ao livro, “Anos de Chumbo”, este sim se passando lá pelo início dos anos 70.

De novo, temos a crueldade descrita com uma naturalidade de quem sempre viveu o crime sem se atentar para ele. Ou de quem ouviu sobre torturas como quem conta sobre um formulário a ser preenchido na burocracia do escritório.

Já os outros contos fogem – mas não completamente – a esse clima “de chumbo”. Tratam, entre outros temas, de amor, de obsessão, de loucura. O cenário quase sempre é o Rio de Janeiro, embora “O sítio” fique lá pelas matas da Serra da Mantiqueira e “O passaporte” se passe a maior parte dentro de um avião.

Este último conto, aliás, foi meu favorito. Eu o enquadraria no gênero de humor, e provavelmente é o mais leve de todos os contos deste livro. Mas é um humor sarcástico, rascante, que também apresenta uma faceta perversa do ódio dos dias atuais. Esse ódio bolsonarista que faz com que se odeie gratuitamente um artista só por, sei lá, ele defender a democracia.

Ao mesmo tempo, é um conto que nos faz pensar em como não sabemos de nada, em como não conhecemos ninguém, em como, como diz o velho e sábio ditado, “as aparências enganam“. Daí porque as coisas precisam ser apuradas antes de se fazer a tal “justiça com as próprias mãos” – ou antes de se divulgar uma informação qualquer, que pode ser mentirosa.

Jornalistas e juristas têm isso em comum: é preciso apuração, investigação, ponderação e a escuta do contraditório antes de se formar um juízo de valor, seja ele para a publicação de uma reportagem ou para uma condenação.

Mas enfim, pra variar, estou digredindo.

Só queria frisar que um conto curto, de 22 páginas pequenas, em formato 18,5 x 12,5, com letra de fonte bem grande, um projeto gráfico cheio de respiros e espaçamentos – enfim, um conto que a gente lê em uma sentada – já faz pensar nessa porção de coisas, ao mesmo tempo em que sorrimos de lado por conhecermos pessoas que fariam o mesmo que os personagens, pelo humor fino da escrita do autor, pelo prazer de ler sua prosa direta, sem firulas, fácil de absorver.

Outra coisa que vale dizer, e isso sobre todas as historietas, é que elas começam de um jeito e terminam de outro completamente inesperado. Chico Buarque dá uma volta no enredo, uma torção, que torna os fins imprevisíveis, ainda que verossímeis. Ainda que, em alguns casos, nem tenham cara de fim, deixando amplo espaço para divagarmos sobre o que aconteceu depois, como se cada conto fosse um esboço de um romance maior.

Por fim, destaco o cinismo dos temas e abordagens. A sociedade brasileira inteira parece meio adoecida neste livro, em todos os seus oito contos. De jeitos e por motivos diversos. É como se os anos de chumbo nunca tivessem nos deixado, mesmo nos cômodos mais íntimos de nossas casas.

E talvez não tenham mesmo, não é verdade?

 

Capa do livro Anos de Chumbo e Outros Contos, de Chico Buarque.

Anos de Chumbo e outros contos
Chico Buarque
Ed. Companhia das Letras
168 páginas
R$ 35,99 na Amazon (capa dura)

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

3 comments

  1. Ridículo que pra vocês democracia apenas é atacar quem é de direita, pra vocês o único pensamento correto é o de vocês. Realmente um desserviço à sua análise completamente parcial

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