‘Um Artista do Mundo Flutuante’: confidências de um velho cheio de culpa

O velho e o novo, o passado e o presente. Japão do pós-guerra é tema do livro de Kazuo. Foto: David Edelstein / Unsplash
O velho e o novo, o passado e o presente. Japão do pós-guerra é tema do livro de Kazuo. Foto: David Edelstein / Unsplash

 

Este foi o sexto livro de Kazuo Ishiguro que li, já pesarosa por estar acabando os livros disponíveis em português deste autor tão incrível – se não me engano, só tem mais um depois deste que eu ainda não saboreei. O que me consola é que ele ainda está na ativa, e deve lançar mais histórias em algum momento do futuro (quem sabe sobre a pandemia? Para nos trazer uma perspectiva completamente diferente sobre isso que estamos vivendo?).

Leia também as resenhas de outros cinco livros de Kazuo Ishiguro:

Como das outras vezes, este livro traz uma narrativa não-linear, entrecortada pelas memórias de seu narrador-personagem, o artista Masuji Ono.

Desta vez, o livro se passa no Japão do pós-guerra, um país tentando se reconstruir após a rendição e após toda a destruição e as mortes da guerra. Mas não pense que este é um livro típico de guerra, com todas aquelas descrições de batalhas e afins. É muito mais um livro de memórias de um personagem que a gente fica boa parte do livro tentando decifrar o que fez de tão grave assim.

Daquele jeito típico das narrativas de Kazuo, vamos coletando as informações aos pouquinhos, num ir-e-vir de pensamentos que vão se encaixando aos poucos, mantendo o suspense por todo o livro. Ono parece arrependido das coisas que fez durante a guerra: mas que coisas são essas? Qual o grau de responsabilidade que ele tem? E ele parece ser um personagem tão simpático e de bom coração, mas teria sido capaz de causar danos e fazer coisas terríveis anos antes?

Ou é arrependimento, ou é culpa, ou remorso. Mas de quê?

Ficamos intrigados, com a pulga atrás da orelha, ao mesmo tempo em que ele vai se abrindo um pouco, relembrando a juventude, a infância, os primeiros passos na carreira, a mudança de rota no meio do caminho, o “bairro dos prazeres” que frequentava etc. Outras tantas informações passam só de raspão, e ficamos sem saber muito a fundo sobre elas, como a morte de duas pessoas próximas ao narrador.

Nem tudo parece muito certo, nem mesmo a própria contribuição que a arte de Ono teve para o Japão (para o bem ou para o mal). Isso porque é a memória dele que dita todas as explicações, e esta memória está sujeita às falhas que qualquer lembrança pode ter, ainda mais na velhice.

Dito tudo isso, este não foi meu livro favorito de Kazuo até o momento. Perto dos outros, foi o que menos me trouxe reflexões. Ainda assim, sempre fico encantada com a forma como ele conduz o texto, simples, elegante e íntima, como se o narrador estivesse batendo um papo conosco, seus velhos amigos. E este foi seu segundo livro – sinal de que foi se aprimorando com o tempo.

Que venha o próximo!

 

Um Artista do Mundo Flutuante
Kazuo Ishiguro
Tradução de José Rubens Siqueira
Editora Companhia das Letras, 2018
225 páginas
R$ 35

 

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

2 comments

  1. Esse eu li, Kika.
    Sua descrição é muito fiel.
    Gostei no livro da delicadeza do texto, parece um bordado, as vezes.

    Curtir

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