‘Dona Anja’: o Brasil de 43 anos atrás é o mesmo de hoje

Um rádio de 1977. Foto: Reprodução / Youtube

O ano era 1977. A Lei Nelson Carneiro mobilizava a polarizada população brasileira. De um lado, os mais conservadores, filiados à Arena da ditadura, mais ligados à Igreja, que defendiam a tradição, família e propriedade. De outro, os mais liberais, à época ligados ao MDB, que defendiam o avanço democrático e também nos costumes.

Te lembra alguma coisa? Sim, lembra muito o Brasil atual, 43 anos depois. Continua polarizado, continua com pessoas (inclusive no poder) defendendo a ditadura militar versus outras que acreditam que a democracia é o melhor regime político possível, continua com a pauta de costumes fortíssima, hoje até com gente defendendo que uma criança de 10 anos seja obrigada a ter um filho do tio estuprador, inclusive, de novo, em nome da igreja (duvido que o papa Francisco coadune com algo assim, mas quem sou eu pra achar qualquer coisa sobre igreja).

Mas, naquele dezembro de 1977, a pauta da vez era o divórcio. A lei que eu citei aí em cima demorou décadas para conseguir ser criada e aprovada, ainda assim com concessões para que pudesse ganhar os votos mais conservadores.

O jornalista gaúcho Josué Guimarães acompanhou tudo de perto e, em vez de fazer uma reportagem tradicional, criou um folhetim, “Dona Anja” – publicado pela primeira vez em forma de livro em 1978 –, para descrever, num fundo fictício, o acontecimento mais importante daquele ano.

Um rádio de 1977. Foto: Reprodução / Youtube

Dona Anja, que está longe de ser a protagonista da história, é dona de um bordel. E, na noite em que o Congresso votava a Lei Nelson Carneiro, os figurões mais importantes da pequena cidade – o prefeito, o vereador da oposição, o presidente da Câmara, o delegado, o rei da soja, o professor e o médico (faltou um juiz) – vão até o bordel de Dona Anja para acompanhar a sessão pelo rádio.

E aí, nessas 208 páginas, se desenrola uma verdadeira sátira, cheia de sarcasmo, cinismo e escancarando a hipocrisia, sobre como os donos do poder defendiam a família e os bons costumes, fervorosamente posicionados contra o divórcio, enquanto se envolviam na libertinagem com as meninas de Dona Anja.

Eis o verdadeiro Brasil brasileiro. Aquele das duas caras, aquele dos poderosos com vidas paralelas, aquele do cinismo na vida política e na mesa da sala de jantar.

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Quarenta e três anos se passaram desde então, e o Brasil parece caminhar direto de volta para o passado. Não demora muito e estaremos todos (todas, melhor dizendo) andando de burca por aí, como alertei aqui no blog em dezembro do ano passado.

Lembram dos links que coloquei naquele post? Itamaraty contraria Constituição e prega religião como política de Estado (28.11.2019) / Damares cria canal para denunciar professores “contra a família” (20.11.2019) / Bolsonaro: família é homem e mulher porque está na Constituição e na Bíblia (10.8.2019) / Bolsonaro não é aquilo que queríamos, mas foi o que Deus deu, diz sacerdote (26.5.2019). De lá pra cá, muitos outros absurdos foram ditos e feitos aqui no Brasil, mas não vou me dar ao trabalho de procurar agora. Basta um Google e voilà!

Agora vejam um trechinho deste livro, um breve parágrafo com o falatório do prefeito Chico Salena, um dos personagens mais emblemáticos da história:

“Retornou ao seu lugar e disse: querem acabar com a religião, com a moral, com o espírito cívico, querem acabar com a consciência das pessoas, querem até mesmo acabar com a imagem de Deus que é coisa que a gente traz do berço; vejam aí um exemplo concreto, até esse pobre homem da porta da rua, que tem uma penca de filhos, parece que dez ou onze, achando que o divórcio pode resolver todos os problemas do homem e da mulher; é demais, francamente, acho que vamos acabar morrendo num outro dilúvio maior, mais arrasador, sem Arca de Noé e sem nenhum casal sendo salvo para a perpetuação da espécie sobre a face da terra” (p. 142)

Quantas vezes vocês já ouviram discurso parecido com este, só nesta breve “era Bolsonaro”? Sim, meus amigos. Basta trocar o divórcio (assunto relativamente já superado no Brasil de hoje) por aborto ou outra pauta do momento, e estaremos num pulo de volta a 43 anos atrás, com os mesmos argumentos. O curioso é conhecer melhor o personagem do prefeito Chico Salena nas páginas seguintes do livro, mas não vou estragar o suspense. Fará toda a diferença na sátira de Josué Guimarães.

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Fica a indicação para que todos leiam “Dona Anja” e se espantem com o tanto que nosso Brasil está regredindo – retrocesso que eu previ lá em 2016, pelo menos. Quarenta e três anos se passaram, mas quase nada mudou. E há muitos prefeitos Chico Salena firmes e fortes no poder ainda hoje.

 

Dona Anja
Josué Guimarães
Ed. L&PM
214 págs.
De R$ 7 a R$ 19,50

 


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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

4 comments

  1. Que feliz coincidência, Cristina!. Temos dois rádios exatamente iguais a este, deixados pelo meu pai. Ouço a Rádio PANAMERICANA até hoje na fazend1a. Aqui, é complicado, devido às lampadas de LED da nossa rua.

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  2. Sim, Cristina! Interessei-me apenas pelo rádio; pelo assunto não! Tudo de ruim que acontece hoje no Brasil começou com esta Lei. Se o o saudoso senador Nélson carneiro previsse isto, talvez nem a tivesse proposto,.

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  3. você não é jornalista, você é uma blogueira militante de rede social. Não falou nada sobre o livro, e politicamente foi mais rasa ainda. Espero que passado cinco anos, você tem mudado um pouquinho que seja.

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