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‘Dois Papas’: duas visões de mundo que, de forma improvável, se encontram

Vale a pena assistir na Netflix: DOIS PAPAS (The Two Popes)
Nota 9

De cara já aviso aos navegantes: não sei quase nada sobre a Igreja Católica, não acompanho o noticiário sobre o Vaticano, não tinha a mínima simpatia pelo papa Bento 16 e acho o papa Francisco um fofo. “Fofo”, foi isso mesmo que você leu. O que denota minha falta de embasamento histórico ou religioso para comentar mais do que isso acerca do Jorge Bergoglio.

Muito por isso mesmo, eu estava com bastante preguiça de ver este filme, que vem sendo tão aclamado em todo canto. Mas lá fui eu, cumprir minha missão de crítica do Oscar.

E o que encontrei foram diálogos riquíssimos e dois personagens absolutamente opostos, que conseguem se encontrar e virar verdadeiros amigos neste breve encontro.

O filme não existiria sem os quatro homens muito feras que estão por trás: antes de tudo, Jonathan Pryce, que, além de se parecer muito fisicamente com o papa Francisco, também é um baita ator. Eu já tinha visto o talento dele recentemente em “A Esposa“, mas ali ele acabou ofuscado pela atuação de Glenn Close. Aqui, ele atua no mesmo patamar de seu célebre colega Anthony Hopkins, que faz Ratzinger. Já começa ganhando na largada, já que todos nós somos muito mais fãs do argentino que do alemão. Mas Hopkins vai ganhando nossa empatia e simpatia ao longo do filme (algo que nunca pensei ser possível em se tratando de Ratzinger).

Os outros dois homens talentosos por trás de “Dois Papas” são o diretor brasileiro Fernando Meirelles, que acho que dispensa apresentações, e o roteirista com três indicações prévias ao Oscar Anthony McCarten, que fez outros três roteiros incríveis inspirados em fatos reais: “A Teoria de Tudo“, “O Destino de uma Nação” e “Bohemian Rhapsody“. Coincidência ou não, dei nota 10 para dois desses três filmes.

Mas também vale destacar a edição do filme, o figurino impecável e a trilha sonora, que encaixa hits como “Blackbird” (Beatles), “Dancing Queen” (Abba) e “Bésame Mucho” num assunto que deveria ser tão mais sisudo.

Aliás, muitas também são as piadas e outras formas leves de trabalhar o filme para que o assunto ficasse mais palatável. Mérito de Anthony McCarten, que declarou: “O que você sempre faz é especular. Espero que a especulação seja baseada em fatos e na verdade.” Afinal de contas, por maior que seja o trabalho de pesquisa histórica que ele tenha feito, não há como saber o que os dois papas conversaram entre quatro paredes – a menos que queiram contar ao público, o que não foi o caso.

Ao fim e ao cabo, o que interessa mais no filme não é a acurácia histórica. É muito mais o debate entre duas ideias opostas de vida, de igreja, de visão de mundo. E ver como é possível, ainda que improvável, que duas pessoas tão diferentes possam se entender. Que uma amizade possa brotar onde você só conseguiria ver conflito. Isso é animador para tempos tão polarizados como os que vivemos hoje.

(O filme também aborda as questões políticas do Vaticano e os escândalos de abusos sexuais que já surgiram por lá. Embora esses dois assuntos tenham ficado mais de lado.)

Outro ponto alto foi mostrar que papa Francisco está longe de ser uma unanimidade na Argentina, muito por conta de sua atuação durante a ditadura militar naquele país. Trazer esse lado histórico neste momento em que vivemos também é fundamental. E mostrar como nem todas as decisões são tão óbvias no momento em que a História está acontecendo. Mas é sempre é bem-vindo saber mudar, quando você está aberto às mudanças.

Enfim, são muitas as reflexões que este filmaço nos desperta, ao longo de duas horas de muito diálogo inteligente. Mas acho que uma das mais singelas, que qualquer um pode levar para a vida, é que qualquer um, até mesmo um papa, pode ser mais frugal e mais leve. Bom humor é essencial, simplicidade é necessária. E a Igreja Católica ainda está apenas tentando aprender isso – para seu próprio bem.

 

Assista ao trailer do filme:

 

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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

4 comentários em “‘Dois Papas’: duas visões de mundo que, de forma improvável, se encontram Deixe um comentário

  1. Não consigo elaborar tantos argumentos para analisar um filme rs mas eu daria 9,5 exatamente pela atuação do Jonathan Pryce.

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