Para Bolsonaro, assassinatos autorizados pela ditadura foram apenas ‘tapa no bumbum do filho’

Texto escrito por José de Souza Castro:

O deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ), capitão do Exército e candidato da extrema-direita às eleições presidenciais de outubro, comparou na manhã de hoje as execuções feitas durante a ditadura militar a um “tapa no bumbum do filho”.

A declaração foi feita em entrevista à Rádio Super Notícia, de Belo Horizonte, em que o candidato procurou desmerecer o documento escrito por um diretor da CIA, William Colby, em 1974, e revelado agora: “Voltaram à carga. Um capitão tá pra chegar lá. É o momento”, disse, referindo-se à possibilidade de ser eleito presidente da República em outubro.

“Quem nunca deu um tapa no bumbum do filho e depois se arrependeu? Acontece”, justificou Bolsonaro.

Não é o que pensa o Instituto Vladimir Herzog sobre o documento da CIA que revelou ter o general Ernesto Geisel aprovado a continuidade de uma política de execuções sumárias dos que ousavam se manifestar contra a ditadura militar. Para o instituto, essa comprovação torna urgente a revisão da Lei da Anistia, que perpetuou a impunidade.

Liberado somente agora pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, o documento afirma que Geisel teria orientado o então chefe do SNI (Serviço Nacional de Informações), general João Baptista Figueiredo, a autorizar pessoalmente os assassinatos. Em nota divulgada ontem, o Instituto Vladimir Herzog afirmou:

“Apesar de não haver nenhuma surpresa, essa é mais uma prova de que não houve porões da ditadura, e sim uma política de Estado de terror, desaparecimentos forçados e assassinatos”. Acrescenta que é dever do Estado “investigar, processar, julgar e reparar as gravíssimas e generalizadas violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura militar”.

E reforça:

“A anistia concedida a agentes públicos que ordenaram detenções ilegais e arbitrárias, torturas, execuções, desaparecimentos forçados e ocultação de cadáveres – como o documento do Departamento de Estado dos Estados Unidos atesta – é incompatível com o direito brasileiro e a ordem jurídica internacional, pois tais crimes, dadas a escala e a sistematicidade com que foram cometidos, constituem crimes contra a humanidade, imprescritíveis e não passíveis de anistia.”

Diante do documento da CIA, principal agência de espionagem dos EUA, “torna-se inaceitável”, acrescenta, “a explicação, que até hoje tem sido adotada pelas Forças Armadas, de que tais violações se constituíram em alguns poucos atos isolados ou excessos, gerados pelo voluntarismo de alguns militares”.

Ao ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira – um comunista sobrevivente da época das execuções e hoje membro destacado PSDB paulista –, o filho do jornalista Vladimir Herzog, Ivo Herzog, escreveu ontem pedindo que seja solicitada ao governo dos Estados Unidos a liberação completa dos registros realizados pela CIA. “Uma Nação precisa conhecer sua história oficialmente para ter políticas públicas que previnam que os erros do passado se repitam”, argumentou.

Herzog era diretor de jornalismo da TV Cultura quando foi preso, torturado e assassinado no dia 25 de outubro de 1975, nas dependências do DOI-Codi, dentro do quartel-general do II Exército, em São Paulo. Os torturadores tentaram, sem sucesso, fazer crer que ele havia se suicidado, enforcando-se em sua cela. Herzog se apresentara para se defender, depois de acusado de atuar em atividades “subversivas” do Partido Comunista Brasileiro.

Não há ainda resposta do Itamaraty a Ivo Herzog, mas o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, saiu à tarde em defesa das Forças Armadas:

“As Forças Armadas brasileiras são um ativo democrático que o país hoje tem e isso, evidentemente, não é tocado por uma reportagem. Chamo a atenção: não temos acesso a documentos oficiais e isso só poderá ocorrer, ou seja, um pronunciamento oficial, quando tivermos acesso direto a esses documentos”, disse o ministro em entrevista à imprensa.

Voltando ao capitão do Exército e candidato à Presidência da República que aparece bem nas pesquisas eleitorais. Na entrevista à rádio do prefeito de Betim, Vittorio Medioli, Jair Bolsonaro lembrou a Guerrilha do Araguaia massacrada pela ditadura militar:

“Se tivéssemos agido com humanismo ao tratar esse foco de guerrilha, teríamos no coração do Brasil uma Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). E graças aos militares daquela época, não temos”.

E completou:

“Esse pessoal que disse que matamos naquele momento, que desapareceu, caso estivesse vivo por um motivo qualquer, estaria preso acompanhando o Lula lá em Curitiba. Essas pessoas não têm qualquer amor à democracia e à liberdade. Eles querem o poder absoluto”.

Pergunta que não quer calar: E Bolsonaro, ele tem “qualquer amor à democracia e à liberdade”?

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2 comentários sobre “Para Bolsonaro, assassinatos autorizados pela ditadura foram apenas ‘tapa no bumbum do filho’

  1. Meu genro Beto, pai do Luiz, entrevistou para o G1 a irmã da última guerrilheira morta em outubro de 1974, no Araguaia, com autorização dos generais Geisel e Figueiredo, respectivamente penúltimo e último ditador da safra de 1964. O texto pode ser lido aqui (https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/irma-de-mineira-morta-no-governo-geisel-nao-acredita-que-restos-mortais-serao-encontrados.ghtml ) ou abaixo:

    “Irmã de mineira morta no governo Geisel não acredita que restos mortais serão encontrados
    Walkíria Afonso Costa foi a última guerrilheira morta pelo regime militar no Araguaia em outubro de 1974. ‘Não tenho mais onde procurar’, disse Valéria Costa Couto.

    Por Humberto Trajano, G1 MG, Belo Horizonte

    11/05/2018 20h33 Atualizado há 10 horas

    A irmã da guerrilheira Walkíria Afonso Costa, morta no Araguaia durante o governo Geisel no regime militar em 1974, disse ao G1 nesta sexta-feira (11) que não acredita na localização dos restos mortais de Walkíria.
    A professora de sociologia Valéria Costa Couto relembrou o drama da família pela ausência da irmã, e depois da confirmação da morte, as tentativas de localização dos restos mortais de Walkíria. ‘Não tenho mais onde procurar’, disse Valéria.

    Oitenta e nove pessoas morreram ou desapareceram no Brasil por motivos políticos, a partir de 1º de abril de 1974 e até o fim da ditadura, segundo levantamento do G1 com base nos registros da Comissão Nacional da Verdade (CNV). Foi a partir desta data que o general Ernesto Geisel, então presidente do Brasil, autorizou execução de opositores, segundo documento da CIA tornado público recentemente pelo governo americano.

    Walkíria está entre essas 89 vítimas. Segundo a irmã, ela saiu de Belo Horizonte, com o então companheiro Idalísio Soares Aranha Filho, em 1971. Os dois nunca mais voltaram para casa. Idalísio foi morto em 1972. Já Walkíria foi assassinada pelos militares em outubro de 1974, de acordo com a irmã. Ela foi a última guerrilheira assassinada na região do Araguaia, na divisa dos estados do Pará e Tocantins.

    Valéria contou que os guerrilheiros se reuniram no natal de 73 em um ponto da região, e que os militares mataram todos. “Somente três conseguiram se refugiar na mata. E ela [Walkíria] foi a última a ser localizada”, disse.
    Entre 1971 e 1979, a família ficou sem notícias de Walkíria. “Foi muito sofrimento, toda campainha que batia na minha casa minha mãe falava, é ela”. Valéria, a única e mais nova irmã de Walkíria, disse que teve que segurar a barra da família, e que não se envolveu diretamente como a irmã na luta contra a ditadura pois, “se fizesse isso meus pais morriam antes da hora”.

    Hoje, os pais já morreram. Em 2002, Valéria foi a região do Araguaia atrás de respostas e conseguiu colher depoimentos de moradores. O filho dela também já esteve no local. Ela lembrou que uma vez chegou a ser divulgado que um crânio, que seria de Walkíria havia sido localizado. Exames posteriores descartaram a possibilidade.

    Valéria disse que recebeu, mas não leu o documento revelado pela CIA nesta semana, mas afirmou que, para ela, Geiisel e Médice foram os dois presidentes “mais cruéis” do regime militar. Antes de morrer, o pai de Valéria deixou uma mensagem para ser colocada no túmulo de Walkíria quando os restos mortais fossem sepultados.

    “Pensam que me mataram? Ressuscitaram um ideal. Pensam que me enterraram? Plantaram uma semente”.”

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  2. Em editorial hoje, a Folha de S. Paulo procura se redimir por ter classificado de ditabranda a ditadura que matou muitos brasileiros nos governos Medici e Geisel. Agora, admite o jornalão paulista:

    “Embora assassinatos tenham sido cometidos durante seu governo, como o do metalúrgico Manoel Fiel Filho e o do jornalista Vladimir Herzog, Geisel entrou para a história como um oponente da linha-dura dos “porões da ditadura” e um dos responsáveis pelo processo de distensão do regime militar.

    O memorando que agora vem à luz traz elementos novos para esclarecer a dinâmica do governo autoritário naquela fase de transição e nos anos anteriores.

    É a primeira evidência documental a contrastar a versão —de resto frágil— de que as mortes de adversários do regime eram fruto de excessos nos subterrâneos das forças de segurança. O relato da agência americana indica que as ordens, na realidade, vinham de cima.”

    Vamos aguardar agora o artigo de Elio Gaspari, colunista do jornal e autor da trilogia sobre a ditadura em que fez rasgados elogios a Geisel…

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