‘Mudbound’: um roteiro que demora e engrenar, mas vira um filmaço

Para ver no cinema: MUDBOUND (Lágrimas sobre o Mississippi)
Nota 7

A sinopse de Mudbound no IMDB é a seguinte: “Dois homens retornam para casa da Segunda Guerra Mundial para trabalhar em uma fazenda na zona rural do Mississippi, onde lutam contra o racismo e tentam seguir com suas vidas depois da guerra.”

Se o filme fosse só essa história, eu daria nota 9 para ele. Porque depois que o negro Ronsel e o branco Jamie retornam da guerra para uma das regiões mais racistas dos Estados Unidos, e estabelecem um companheirismo e amizade de ex-combatentes da guerra, Mudbound vira um filmaço. O problema é que acho que demora mais de uma hora para que o filme chegue a esse ponto da história. Antes disso a gente fica meio sem saber se a história será sobre a mulher submissa ao marido, por exemplo. É como se a diretora Dee Rees estivesse meio perdida sobre o enfoque que gostaria de dar.

Tirei três pontos de Mudbound por conta dessa demora inicial para engatar a história. Alguém poderia alegar que os personagens estavam sendo construídos nesse meio-tempo, ou o contexto histórico. Mas, ainda que isso seja mesmo verdade, o roteiro é desnecessariamente lento na primeira metade do filme. Mesmo assim, foi premiado com a indicação ao Oscar de melhor roteiro adaptado.

As outras três indicações são pela belíssima fotografia (que perdeu para Blade Runner 2049 no prêmio da associação de fotógrafos), pela canção “Mighty River” e pela atuação de Mary J. Blige como melhor atriz coadjuvante. Pessoalmente, achei que ela merece muito menos a nomeação do que os dois atores principais do filme, Jason MitchellGarrett Hedlund.

Tenho a impressão que o prêmio que Mudbound mais merece é de melhor fotografia. E sabiam que esta é a primeira vez que uma mulher é indicada nesta categoria, na história do Oscar? Palmas para a diretora de fotografia Rachel Morrison, que já assinou 44 trabalhos, inclusive com o filme Pantera Negra, em cartaz nos cinemas agora.

Mas, já que falei tão negativamente do percurso do roteiro, gostaria de destacar um recurso muito interessante que apareceu no filme, e que só muito raramente aparece nos roteiros de cinema: os múltiplos narradores. Praticamente todos os personagens do filme, em determinado momento, assumem o papel de narrador. É um recurso um pouco capcioso, porque pode reforçar aquela ideia de que o filme está perdido, de que não se sabe qual enfoque quer dar. Por outro lado, é um jeito de nos fazer conhecer um pouco mais os personagens que, aparentemente, seriam só secundários na trama. De dizer: todos eles são importantes, todos são protagonistas. Inclusive os negros e as mulheres, em tempos de racismo e machismo até institucionalizados, como eram nos anos 1940.

Ainda assim, reitero que isso tira bastante a força daquela sinopse que, por si só, já seria muito interessante, digna de um filme inteiro. Negros e brancos lutaram juntos nas Forças Armadas, lado a lado, durante a Grande Guerra. Na Europa, os negros conheceram uma vida de possibilidades sem racismo, perceberam que eram ovacionados tanto quanto seus colegas combatentes loiros. Mas, quando voltavam para casa, tinham que sair pela porta dos fundos da mesma forma que antes, com ou sem medalhas no peito. Esse tipo de incoerência deve ter contribuído e muito para os movimentos que surgiram uma década depois, com Rosa Parks e Martin Luther King Jr. fazendo história pelos direitos civis dos negros. Isso já não seria uma história e tanto?

Assista ao trailer do filme:

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