Três Anúncios Para um Crime: roteiro simples, personagens complexos

Para ver no cinema: TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri)
Nota 9

Gostei especialmente de duas coisas neste filme indicado a 7 categorias do Oscar: a simplicidade em torno da trama e os personagens que são todos, sem exceção, anti-heróis.

Explico. A história gira em torno de pouquíssimos personagens principais: três, para ser mais exata. Todos interpretados por atores tão feras que os três foram indicados ao Oscar: Frances McDormand, que veste a camisa de Mildred; Woody Harrelson, que é o chefe de polícia Willoughby; e Sam Rockwell, que faz Dixon, o personagem mais interessante de todos, que me lembrou um pouco o Lennie de “Ratos e Homens“, em termos de mente e coração. O restante é apenas figuração, inclusive o ótimo ator Lucas Hedges, que faz o filho de Mildred e já tinha brilhado, recentemente, no outro filmaço Manchester À Beira-Mar.

Aliás, foi bom ter lembrado desse filme. Assim como Três Anúncios para um Crime, também era um longa de roteiro poderoso, dramático, mas extremamente simples. Agora, estamos falando de uma mãe que viu a filha ser morta e, sete meses depois, ainda não foi vingada com a prisão do assassino. Decide, então, provocar as autoridades locais pagando três grandes outdoors numa estrada velha da cidade, questionando a ineficácia na solução do crime. Pronto, a premissa do filme é essa: mãe em luto, polícia ineficaz, autoridade questionada. Algo até corriqueiro nos noticiários brasileiros, né? Mas daí por diante, abrem-se várias portas da trama, com o desenrolar desse ato de rebeldia numa pequena cidade (fictícia) do Missouri que tem apreço especial pelo chefe de polícia, por razões que também vão aparecer ao longo do filme.

E aí entra o segundo quesito que mais me impressionou no filme. Começamos a história simpatizando com o ato corajoso de Mildred e questionando o policial. Mas, com o passar do tempo, todos os papéis se invertem, se confundem, e aqueles que detestamos num primeiro momento podem, logo em seguida, ganhar nossa simpatia/empatia — e vice-versa. Os personagens são todos anti-heróis, não há mocinhos e bandidos pré-definidos. Bem como na vida real, não é mesmo?

Para melhorar ainda mais esse conjunto de roteiro excelente, atuações impressionantes e  personagens incríveis, temos capricho em todo o resto: fotografia, trilha sonora, edição. Eu só tirei um pontinho por conta de algumas passagens com humor meio forçado, e até desnecessário nesse tipo de drama. Mas aí está um filme com boas chances de levar todos os prêmios da disputa, inclusive de melhor filme e melhores atuações — embora minha maior aposta seja a celebração desse roteiro original que é provavelmente o melhor do ano.

Assista ao trailer do filme:

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2 comentários sobre “Três Anúncios Para um Crime: roteiro simples, personagens complexos

  1. Às vezes penso ser este filme o retrato do Brasil atual, na maneira como lidamos com o ódio e a intolerância. Uma obra inteligente e densa, repleta de camadas onde se expõe o nosso anti-heroísmo de cada dia. Possui a falha de não sentir ou comprovar se o xerife é realmente querido na cidade, a não ser por diálogos expositivos. E que vontade desse diretor ser um Coen, hein?

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