Professor universitário precisa de mestrado? (parte 2)

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Ontem propus um debate sobre a pergunta deste post e contei o caso de dois professores idolatrados pelos estudantes de jornalismo da PUC Minas e que serão demitidos por não terem títulos de mestrado ou doutorado.

Também publiquei o depoimento do meu pai sobre um dos professores e a reflexão que ele fez sobre a necessidade de diploma para o bom exercício desta profissão.

Não leu? CLIQUE AQUI pra começar 😉

E eu prometi colocar hoje aqui a minha opinião sobre o assunto. Aí vai ela:

***

Quando estudei jornalismo na UFMG, entre 2003 e 2008, sentia falta de uma coisa muito simples: professores com conhecimentos práticos do funcionamento de uma Redação. Ok, era legal refletir sobre as questões inerentes à comunicação e sobre várias outras questões do campo das humanas (aproveitei a grade curricular flexível para fazer aulas de tudo um pouco: de ciências políticas, sociais, econômicas, direito, belas artes, estatística, cinema… Até pré-história eu estudei!). Achava massa ter um professor que era considerado um dos melhores especialistas do país em semiótica etc. Mas sentia falta demais de alguém que pudesse falar de verdade como era trabalhar em um jornal diário de circulação nacional, em uma revista de jornalismo investigativo, enfim, que pudesse dar conselhos práticos sobre a profissão (ainda bem que eu tinha meu pai! Mas e os outros alunos?!). Pra piorar, não havia jornal laboratório — enquanto estudei lá, foi criada a Rádio UFMG, que foi essencial na minha formação, mas só pude estagiar lá por oito meses, já no fim do curso.

Enquanto isso, ouvia relatos da minha irmã e de outros estudantes da PUC Minas e pensava como era bacana eles terem uma formação tão prática, tão voltada para o mercado, e terem um jornal tão tradicional como o Marco, para que os alunos pudessem treinar a fazer reportagem pra valer.

Ou seja, se me perguntassem, naquela época, se eu preferia que 100% dos meu professores fossem pós-doutores ou se abriria mão de 50% deles para ter aulas mais práticas com os caras mais feras das Redações, eu com certeza responderia a segunda opção.

Minha ressalva é que isso não vale para todo curso, mas posso bancar minha posição quando se trata de um curso mais técnico que teórico, como o jornalismo.

Tanto é assim que eu considero que os cinco meses em que fui trainee da “Folha de S.Paulo” foram mais úteis como aprendizado prático do jornalismo, para mim, do que os quatro anos de faculdade de Comunicação Social da UFMG. A equação da minha formação é basicamente a seguinte:

ensinamentos do meu pai
+
edição de blogs jornalísticos ao lado do meu pai
+
oito meses de estágio na rádio UFMG Educativa
+
cinco meses de trainee na “Folha”

Só depois dessa experiência eu passei a me considerar graduada em jornalismo, pronta pra exercer de verdade a profissão.

Quando resolvi sair da “Folha”, eu disse à Ana Estela, que foi editora de Treinamento do jornal por vários anos, que estava voltando para Beagá sem nada certo, sem novo trabalho, mas que correria atrás do meu sonho de um dia ser professora de jornalismo. E ela me respondeu: “Você será uma excelente professora!”.

Eu acho que seria mesmo uma boa professora, pelo menos no que diz respeito às aulas práticas — mas, para ser aceita em uma faculdade, mesmo para dar oficinas, tenho antes que fazer um mestrado, ingressar na carreira acadêmica, fazer pesquisas etc. Será que é mesmo necessário, para dar uma oficina de pauta, apuração e redação de reportagem, que a pessoa tenha um doutorado em algum assunto ultrateórico ou megaespecífico da comunicação? Você, como estudante de jornalismo, preferiria ter uma aula dessas com um Fernando Lacerda, um José de Souza Castro, com anos de experiência nas costas, ou com um cara de 30 anos de idade, doutor em comunicação, mas que nunca trabalhou com jornalismo na vida?

Bom, cada um é cada um, mas eu ainda prefiro mil vezes o que aprendi com meu pai e com a Ana Estela e com a Tacyana Arce (que hoje mergulhou fundo na vida acadêmica, mas foi minha “mestra” como editora na rádio). E, sem eles como meus professores, eu jamais me consideraria uma jornalista completa, com ou sem diploma.

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8 comentários sobre “Professor universitário precisa de mestrado? (parte 2)

  1. Cris, obrigado pela parte que me toca neste artigo. Fiz o que pude e hoje acho que a aluna saiu melhor que o mestre. Concordo com o seu ponto de vista. Eu não tive professores doutores na UFMG – ou, se tive, eles não ficavam por aí se chamando de professores doutores, como faz hoje uma colega minha de faculdade que se tornou sócia proprietária de uma dessas escolas superiores privadas que pululam por aí cheia de professores doutores, e por isso não sabia que eles eram doutores. Mas tive bons professores com ampla experiência em suas áreas, inclusive no jornalismo. Entre esses últimos, posso citar os jornalistas Jacques do Prado Brandão, Plínio Carneiro e José Mendonça. Tive também bons colegas que se tornaram bons jornalistas, como José Silvestre Gorgulho, Thais de Mendonça Jorge, Leonardo Mendonça Brito, José Alves de Lima, Elma Heloísa de Almeida, Maria Genoveva Ruisdias Fonseca, Roberto Drummond Mello Silva, Raquel Moraes de Mattos, Pedro Luiz Lobato, Eustáquio Trindade Neto e Amauri Fraga,

    Muito pudemos aprender, uns com outros. E principalmente na excelente biblioteca da Fafich, rica em livros sobre sociologia, filosofia, política, história e literatura. Muitos deles escritos por mestres e doutores brasileiros e estrangeiros, mas também por quem nunca fizera universidade, como Machado de Assis. Ou que foram bons jornalistas sem nunca terem estudado comunicação social, como Ruy Barbosa (que se considerava antes de tudo um jornalista, sabia? Nem eu, foi seu tio Antônio, um advogado e grande conhecedor desse colega baiano, quem me disse, nesta semana).

    Para o jornalista, mais que a faculdade e seus professores doutores, a melhor escola é a vida. Sobretudo a vida dos outros, pois é nela, geralmente, que, sabendo olhar e perguntar, é onde mais aprendemos a arte de viver e escrever.

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  2. Sou formada em Direito e super concordo com você.
    Alguns professores na faculdade abordavam a matéria de modo tão abstrato que ao final de um semestre, se me fizessem qualquer questão simplíssima sobre o assunto, eu não sabia responder.
    Sem contar que, para alunos da UFMG (meu caso e seu), há tantos e tantos e tantos professores substitutos recém egressos da graduação que chega a ser meio hipócrita essa exigência do mestrado e doutorado – de que adianta ter o corpo docente tão qualificado se quem de fato ministra aulas são os substitutos? (atenção: não estou criticando os professores substitutos que, acima de tudo, são heróis por assumirem inúmeras turmas e matérias com uma remuneração simbólica. Estou apenas mostrando a incoerência.)
    A propósito, você viu a coluna do Walcyr Carrasco na Época dessa semana? É exatamente sobre esse assunto!

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    • Olha só, não vi não! Coincidência ele ter escrito sobre isso! Vou lá ler AGORA 😉 Vc tocou num ponto importante: os excelentes professores substitutos que passam pela nossa vida universitária, deixam marcas e nem títulos costumam ter. Um dos meus professores favoritos do meu curso foi o Radamés, que era substituto das Ciências Sociais e, se não me engano, estava cursando o mestrado. Ou seja, tinha, até aquele momento, “apenas” a graduação — e, o mais importante, uma capacidade de transmitir conhecimento e um entusiasmo pelo que ele estava ensinando! 😀

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  3. Acho que a parte técnica ou teórica, qual seja mestrado, doutorado etc…para um Aspirante é muito importante, mas o traquejo real com a coisa, a hora de correr atrás e fazer a coisa acontecer , tem de vir da soma de fatores como: a aptidão natural que corre na veia do sujeito, o aprendizado adquirido, e a experiencia, de preferência referenciada por uma cobra já criada, juramentada e sacramentada, que muitas vezes, não tem títulos, mas é imprescindível para fazer a coisa funcionar e ensinar os meandros de como a coisa realmente funciona ?

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  4. Oi Kika! Gostaria de deixar a minha contribuição sobre este assunto que tenho acompanhado pelo seu blog. Eu acredito que o Jornalismo, como parte da Comunicação, precisa ter em sua grade elementos teóricos e técnicos, de forma equilibrada que permita o graduando sair da faculdade sabendo a técnica, mas que também possa pensar sobre esta técnica e, quem sabe, ir para um programa de pós-graduação (especialização, mestrado, doutorado, pós-doutorado).

    O que percebo hoje é que o jornalismo está mudando. Cursei a faculdade entre 2003/2007 e falo sem sombra de dúvida que aquela realidade que estudei ou vivenciei no mercado está completamente diferente da de hoje. Os veículos tradicionais estão cada vez mais enxutos, enquanto numa outra ponta, mais tímida, a Comunicação está mais empreendedora.

    Aos poucos, o Jornalista está se apoderando do Jornalismo, no sentido de que ele hoje não precisa só ir para assessoria de imprensa ou redação. Existem outras possibilidades profissionais, muitas delas ligadas ao empreendedorismo e à internet. Eu, por exemplo, se não estivesse me dedicando aos estudos, adoraria ter uma bolsa da Agência Pública para trabalhar a temática do Jornalismo Investigativo. Acho isso um barato!

    Vejo colegas jornalistas se unindo e criando experiências empreendedoras por meio de crowdfunding, da criação de blogs, sites, revistas, jornais de bairro, livros, livro-reportagem, cursos de curta duração, etc. Tem muita coisa que ainda não foi explorada ou que precisa ser melhor explorada!

    Desde 2011, atuo como professor de curso de extensão ligados a gestão e produção de conteúdo na web. Apesar de ser pós-graduado em “Rádio e TV” e graduando em “Comunicação e Saúde”, ainda não tenho mestrado e atuo como professor. Pretendo fazer mestrado, não só pelo título, mas sobretudo pelo conhecimento adquirido.

    Penso que por mais que tenhamos a tecnologia a nossa mão, o modo de fazer do jornalismo ainda não mudou. Ainda temos que ligar para a nossa fonte, apurar, entrevistar, investigar, editar, reportar, opinar, enfim, o que muda hoje é a plataforma.

    Me incomoda muito a visão dos veículos que ainda encaram a internet como rival, quando na verdade deveria ser um apoio importante para dar visibilidade ao trabalho jornalístico e, mais do que isso, que possamos cumprir com ética e discernimento a nossa função essencial que é prestar serviço à sociedade. Particularmente, fiquei com “vergonha alheia” de alguns veículos de comunicação na cobertura eleitoral. Mas, enfim…rs

    Como jornalista e professor, fiquei sensibilizado com o que os alunos da PUC fizeram. E este coordenador da PUC deveria repensar isso. O que adianta um professor com Mestrado e Doutorado se ele não tem prática ou não quer dar prática aos alunos? Um professor vale muito mais pelo seu repertório do que pelos seus títulos. Nesse sentido, a PUC deu um tiro no pé. Pena que as outras universidades de BH dormiram no ponto e não contratou esses professores…seria uma resposta importante ao mercado e ao mundo acadêmico.

    Ultimamente, estou muito pessimista com a nossa imprensa em BH. Pouquíssimos investimentos. sucateamento, salários defasados, muita agressão moral, verbal, e um foco quase que exclusivo a cobertura policial. Espero que isso mude um dia. Mas esta mudança tem que começar de nós, jornalistas, nos apropriando do Jornalismo e dizendo mais “NÃO” do que sim para o mercado.

    Desculpe o tamanho do comentário-post-desabafo. Só no final é que me dei conta do tamanho…rs

    Beijos.

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