O oficial e o espião

dantasdreyfus

Texto escrito por José de Souza Castro:

Ganhei de presente da minha mulher, há alguns dias, o novo livro de Robert Harris, o escritor inglês que antes já escrevera oito best-sellers: “An officer and a spy”, publicado neste ano pela Alfred A. Knopf, de Nova York.

O livro já foi traduzido para o português e publicado pela Editorial Presença, uma das maiores editoras de Portugal. “O Oficial e o Espião” pode ser comprado pela internet por 17,90 euros. Se preferir ler em inglês, o exemplar capa dura, como o meu, é vendido pela Amazon por US$ 17,68. É um bom investimento. São mais de 400 páginas, e nenhuma delas vai desperdiçar o seu tempo.

Antes de escrever a história que abalou a França na última década do século 19 – o caso Dreyfus – o autor leu uma dezena de livros a respeito e os maiores jornais franceses da época, disponíveis no site da Bibliothèque Nationale de France, além do arquivo digital do jornal Times, de Londres, que cobriu muito bem o caso.

Não leu, porém, Ruy Barbosa, que estava em Londres quando escreveu, em 1895, contundente artigo criticando a condenação do capitão Dreyfus. Mas leu e reproduziu em seu romance “J’Accuse!”, o artigo de Émile Zola publicado no jornal L’Aurore, de Paris, em janeiro de 1898, que deu nome aos culpados pela injustiça.

Robert Harris empregou a técnica da novela para contar a história verdadeira do caso Dreyfus, talvez o maior escândalo político e de desvio da justiça na história, conforme o autor. O leitor agradece.

É difícil dizer qual o mais interessante: o próprio caso do capitão judeu injustiçado pelo exército e pela justiça de seu país, ou a saga do major Georges Picquart em busca da verdade e, por isso, severamente castigado por seus pares – e pela justiça.

Durante a leitura, lembrei-me de outros casos mais recentes e mais próximos de nós. Há alguns anos, escrevi sobre um deles, num livro disponível apenas na internet (“Injustiçados – o caso Portilho”).

E lembrei-me de outro caso não resolvido ainda pela justiça brasileira ao ler nesta semana, no Observatório da Imprensa, comentário ao artigo de Carlos Brickmann sobre a mexida na Wikipédia das biografias de Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg, a partir da Internet sem-fio do Palácio do Planalto. O comentário de um leitor, Marcos Faria, remete a artigo do jornalista Bob Fernandes, que pode ser lido AQUI. Intitulado “Os intestinos do Brasil”, o artigo foi publicado no dia 9 de julho de 2008. Parágrafo de abertura:

“A Polícia Federal trabalhou duramente para que Daniel Dantas fosse preso. A Polícia Federal não queria, de forma alguma, que Daniel Dantas fosse preso. A Polícia Federal fez tudo para que Daniel Dantas fosse preso. A Polícia Federal fez tudo para que Daniel Dantas não fosse preso.”

Últimas linhas do texto:

“Seis da manhã, 8 de julho [de 2008]. Avenida Viera Souto, Ipanema, Rio de Janeiro. Daniel Dantas está preso.

Furacão na mídia, por todo o dia. À noite nos telejornais e no dia seguinte, este 9 de julho, a repercussão.

Gilmar Mendes, o presidente do STF, ataca a “espetacularização das prisões, incompatível com o Estado de Direito”, critica duramente o pedido de prisão, negado, contra a repórter da Folha de S. Paulo:

-…isso faz inveja ao regime soviético…

Frases soltas no ar.

Miriam Leitão, a comentarista econômica, também está no ar. Na rádio CBN, Miriam conversa com Carlos Alberto Sardenberg.

Meio dia e quarenta. Miriam diz não ter entendido direito porque Daniel Dantas foi preso. Afinal, constata, as acusações são inconsistentes, “coisas do passado”, e é preciso que a Polícia Federal explique melhor por que fez essa operação “com tamanho estardalhaço…”

Miriam se vai. Sardenberg chama os comerciais, não percebe que o microfone está aberto, e deixa escapar:

-…ela tá esquisita, não?”

Quem mexeu nas biografias de Miriam Leitão e Sardenberg na Wikipédia teve como uma de suas referências esse texto escrito há seis anos. Na época, parece que esse finalzinho passou despercebido. Bem ao contrário de “J’Accuse”, de Zola. E, assim espero, de “An Officer and a Spy”, de Harris.

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