Crônica sobre um garoto baleado pela PM

Charge do gênio Angeli

Charge do gênio Angeli

Acompanhem comigo esta história.

O garoto tem 15 anos. Mora no bairro Nova Vista, leste de Beagá. Nunca sai de casa sem avisar, é daquele tipo que nem vai à padaria sozinho. Pelo que disse seu pai à repórter Cínthia Ramalho, ele é, portanto, um menino sossegado, comportado.

Eram 19h de quinta-feira e ele teve que sair. Motivo: ia buscar a irmã mais nova, que estava na casa de uma coleguinha. Passou 19h30, 20h, 20h30, 21h, e nada de ele chegar. A família foi ficando cada vez mais preocupada. Até que, às 21h40, policiais militares foram até a casa dar uma notícia “um pouco” desagradável: seus colegas de Batalhão tinham “confundido” o garoto com um bandido e atirado nele.

A versão da polícia é meio nebulosa: viram o garoto em “atitude suspeita” (naquele tipo de suspeitice que intriga Luís Fernando Veríssimo e me intriga também). Chegaram abordando ele (provavelmente com aquela delicadeza típica). Gritaram: “Mãos ao alto!” O garoto, alegam os PMs, não só não obedeceu como ficou mexendo na cintura, o que os fez pensar que estaria pegando um revólver. E atiraram.

Ah, bom.

Ocorre que, na versão da criança a seu pai, ele ficou morto de medo daqueles três homens apontando uma arma pra ele. Não entendeu o que queriam e ficou sem reação. E eu acredito na versão do garoto.

Claro, caberá à Corregedoria investigar a atitude do nervoso policial, que pode responder por lesão corporal e já perdeu a arma. Mas eu me pergunto: que policial é esse que não sabe distinguir um bandido perigoso, munido de arma, de uma criança assustada, desarmada e tremendo de medo? Que treinamento nossos policiais estão recebendo?

Imagino que, quando perceberam que o garoto não só não tinha arma nenhuma, como nenhum objeto ilícito que justificasse que fosse sequer abordado, os policiais devem ter percebido a cagada que fizeram.

Felizmente, o tiro pegou de raspão, e o garoto se recupera em segurança. Não foi desta vez que um erro crasso de abordagem policial, corriqueiro na periferia da cidade, resultou em consequência fatal. Mas, mesmo assim, imagino que nosso garoto –aquele que, de tão comportado, nem costuma sair de casa sozinho — terá um trauma suficientemente grande para lidar. E, em solidariedade a ele, praticamente perdi a vontade de sair de casa também.

***

PS.: Hoje houve outro episódio de despreparo da polícia, ao agir com truculência em cima de torcedores brasileiros e argentinos, que estavam apenas se divertindo, na porta do Mineirão, sem causar qualquer tumulto, conforme relato dos repórteres Luciene Câmara e Daniel Ottoni. E assim seguimos, cada dia mais necessitados de uma Ponte.

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