Colapso de Eike envergonha Dilma?

eikeforbes

Texto escrito por José de Souza Castro:

O “Financial Times”, de Londres, diz que o colapso de Eike Batista envergonha a presidente Dilma Rousseff. Será?

A “Revista de Jornalismo ESPM”, edição brasileira da Columbia Journalism Review, publicou na edição do primeiro trimestre deste ano reportagem assinada por Sergio Leo, repórter especial do jornal “Valor Econômico”. Ele analisou a distância entre Dilma Rousseff e jornalistas. Como se não quisesse nada, escreveu: “O bilionário Eike Batista é um dos poucos com franco acesso a ela, segundo integrantes do governo com trânsito no Planalto”.

Pouco depois, no dia 6 de maio, a “Época”, revista do mesmo grupo editorial, publicou reportagem assinada por José Fucs e intitulada “Pobre Eike Batista”, com o seguinte bigode: “Como o bilionário perdeu parte de sua fortuna – e, com a credibilidade abalada, tenta se reerguer com a ajuda de bancos e empresas estatais.”

Ontem o site do “Valor Econômico” deu destaque à reportagem de Joe Leahy no “Financial Times”. Os três primeiros parágrafos:

“Deve haver momentos na carreira de qualquer político que os fazem estremecer quando eles se lembram deles mais tarde.

Para a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, um deles provavelmente é o dia de abril do ano passado, quando ela ajudou o empresário Eike Batista a comemorar o “primeiro óleo” do que são agora seus campos secos ao longo da costa do Rio de Janeiro.

A presidente brasileira disse uma série de coisas naquele dia, elogiando Eike Batista, que na época era ainda o homem mais rico do país, com uma fortuna estimada em mais de US$ 30 bilhões investidos em uma rede de empresas de petróleo, mineração, energia e logística – a maioria delas start-ups.”

Aos poucos, vai-se colando no PT – e, sobretudo, em Dilma e em Lula, os expoentes do partido – o fracasso retumbante do homem que até recentemente era apontado pela imprensa mundial como o homem mais rico do Brasil.

A história, porém, é bem anterior ao acesso do Partido dos Trabalhadores ao poder. Só para lembrar: em janeiro de 1991, Eike se casou com a modelo e atriz Luma de Oliveira, grávida do filho Thor, que ficou famoso ao atropelar com seu carrão, em março do ano passado, um operário sobre uma bicicleta, numa rodovia. Os dois se divorciaram em 2004. Antes disso, em 1998, Luma havia desfilado numa escola de samba vestindo uma coleira com o nome Eike. Ambos voltaram a se encontrar um ano após o divórcio no Programa do Faustão, da TV Globo. Eike tentou reaver o biquíni que a ex-mulher havia usado no ensaio da Playboy, em 2005. Mas quem havia arrematado o biquíni, também presente no programa, não cedeu, apesar dos apelos de Faustão.

Só para mostrar como a mídia, em suas várias vertentes, inflou Eike Batista. Lembro-me que, no começo da década de 1990, quando era repórter da sucursal de “O Globo”, em Belo Horizonte, liguei para a sede do jornal no Rio para saber se queriam notícia sobre o lançamento de um veículo produzido em Poços de Caldas pela empresa de Eike, com tecnologia francesa. Como eu não o conhecia, quis saber se era empresário sério. Sim, me disseram. A reportagem saiu com destaque.

Mais tarde, em dezembro de 2008, publiquei no Observatório da Imprensa artigo intitulado “Crise mundial tem seu lado bom”. Nele, informo que o governador Aécio Neves, do PSDB, assinou decreto, em março daquele ano, obrigando 752 proprietários de terras em 25 municípios mineiros a concederem, mediante indenizações, o direito à MMX, de Eike, de passar um mineroduto por suas terras. Na época, a mina em Conceição do Mato Dentro, de onde sairia o minério até o litoral do Rio de Janeiro, ainda não tinha Licença de Instalação. Mas o decreto era um passo importante para que a MMX, criada em 2002, vendesse seu direito de explorar aquela reserva de minério de ferro, descoberta décadas antes pela Vale do Rio Doce, por alguns bilhões de dólares. A Vale, por muitos anos, foi presidida pelo pai de Eike.

Não vejo tentativas, até agora, de colar fracassos e sucessos de Eike no provável candidato tucano à Presidência da República em 2014. Não sei se Aécio se envergonha do ainda bilionário empresário. Muito menos, se Dilma ou Lula estão envergonhados. Ou se há jornalistas que antes inflaram o ego dele, agora vexados com a situação atual. Talvez envergonhados estejam os investidores que acreditaram nas lorotas do empresário ou na possibilidade de que, em caso de fracasso, ele seria salvo pelo governo brasileiro.

Não sei se o será. Mas com Dilma envergonhada – ou enfurecida – fica mais difícil.

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21 comentários sobre “Colapso de Eike envergonha Dilma?

  1. Caro Castro,
    Uma coisa é jornalista bajulador dar holofote a empresário amigo; outra é governo amigo dar dinheiro público a empresário bajulador.

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    • Caro Ramalho, é o que suspeito: aos poucos vai-se colando em Dilma e Lula o fracasso de Eike.

      Gerson Camarotti dá sua contribuição, quando escreve em seu blog:

      “De forma reservada, interlocutores da presidente Dilma Rousseff já admitem que foi um erro a relação política do Palácio do Planalto com o empresário Eike Batista. Essa relação já existia de forma intensa desde o governo Lula. Ao Blog, esse interlocutor [uai, não são “interlocutores”?] lembrou que Eike virou um aliado preferencial do Planalto em 2009, quando ajudou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a desestabilizar o executivo Roger Agnelli, que na época ocupava presidência da Vale, a maior empresa privada do Brasil.”

      A presidente da República deve estar, mais uma vez, se indagando: quais interlocutores? Mas já foi pior. Na década de 1990, havia revista importante que escrevia, entre aspas, diálogos inteiros entre um presidente da República e seu ministro de confiança. Os dois sozinhos no gabinete do presidente. Nenhum dos dois minimamente interessados em tais diálogos, extremamente comprometedores para o governo, fossem publicados.

      Sempre pensei, em casos assim, que era mais fácil inventar – quando havia grande interesse na invenção – do que instalar um sistema clandestino de escuta dentro do gabinete presidencial. Mas, claro, eu estava errado… E agora também, por certo!

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  2. Caro Castro,

    Convivo diariamente e conheço de perto o trabalho do repórter, e posso lhe afiançar que a informação é confiável.

    Para mim, não é a mídia que “cola” o fracasso de Eike em Lula/Dilma. Foram os mandatários que, muito antes, “colaram” ao empresário prestígio e uma fortuna de dinheiro público (via empréstimos do BNDES, de recursos retirados do Tesouro, por sua vez alimentado com impostos). Inflado com dinheiro público, o grupo X atraiu capital privado.

    E, como mostrou a Cristina em seu comentário, levou junto boa parte (senão quase toda) a torcida da mídia, que também embarcou e alimentou a aposta furada, resultado também de uma sempre maléfica adesão ao governismo, somada, neste caso, a uma atávica simpatia pelo lulo-petismo. Em Minas, infelizmente ocorre o mesmo com o aecismo.

    Antes tarde do que nunca, importa é dizer que a bolha Eike é cria direta do governo petista e sua política de campeões nacionais, típico do capitalismo de Estado nos moldes chinês e russo, marcada por privilégios para os amigos, financiadores nas campanhas, financiados em mandatos.

    Financiada por ambos, parte da mídia pode ter alimentado, mas nem de longe gerado tal fenômeno. Turbinar um agente econômico se faz com poder e dinheiro; não com notícias e bajulação. (Vale aqui o alerta contra uma visão exagerada do poder da mídia, tão ao gosto de governos autoritários, sempre em busca do inimigo comum).

    Estrago feito, perde o governo (em investimento sem retorno), perdem acionistas e credores (numa recuperação judicial difícil de engatar), perde a sociedade (em postos de emprego fechados), perde a mídia (em credibilidade abalada).

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    • Renan, você pode discordar da posição do meu pai de que não se restringe ao PT a inflação em torno da bolha Eike, uma vez que outros governos, entre eles o PSDB de Aécio, o PMDB dos governos fluminenses, e outros tantos, já que o grupo X tem operações até em outros países, também embarcaram na bolha. Vê-se isso por reportagens de veículos estrangeiros, como “Financial Times”, também vangloriando o grupo X, há não tanto tempo atrás. Eu continuo achando uma posição libertadora que meu pai assume, fazendo os leitores refletirem sobre algo diferente da mesma batida de martelo que vêm lendo em outros veículos nas últimas semanas. Acho sempre incrível quando alguém me instiga a pensar um pouco diferente do que o consenso ou o óbvio.

      Mas dispenso seu “alerta” sobre o trabalho da imprensa para o meu pai. Nós dois ainda temos uma longa trilha jornalística pela frente para chegar só perto do caminho que ele já percorreu em 51 anos de profissão.

      Abs

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      • A Cris se irrita quando criticam o pai, mas nem sempre ela tem razão. Não tenho 51 anos de profissão, mas 41, e ainda tenho que aprender muito para ser um bom jornalista. Aceito as contribuições de Renan Ramalho, ex-colega da Cris na faculdade, e de quem mais se dispuser a me ajudar.

        Sobre o Eike, acho que ele não pode ser chutado como cachorro morto. Agora há pouco li no G1 este comunicado enviado ao xerife das bolsas de valores pela OSX, do grupo do empresário mineiro (que por sinal recebeu no ano passado, da Fiemg, uma poderosa entidade patronal muito ligada ao governo de Minas desde o começo do governo Aécio Neves, o título de Industrial do Ano):

        “”A OSX Construção Naval S.A. (“OSX CN”) e a Caixa Econômica Federal (“CAIXA”) concluíram o aditamento ao contrato do empréstimo-ponte destinado à implantação da Unidade de Construção Naval do Açu (“UCN Açu”), no valor de R$ 461,4 milhões por 12 meses a partir de seu vencimento original, ou seja, 19 de outubro de 2013. O contrato de garantia desse empréstimo, firmado com o Banco Santander S.A. (“Santander”), também foi aditado pelo mesmo prazo”, diz o comunicado.”

        Como se dizia antigamente, mas que ainda está valendo mais do que nunca: “Quem tem padrinho não morre pagão.”

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      • Mas a “Folha” crava hoje que a OSX também pedirá recuperação judicial amanhã, mesmo com o rolamento da dívida.
        De qualquer forma, nada impede que tanto OSX quanto OGX acabem saindo bem da recuperação judicial.
        Outro dia noticiamos que um dos dez maiores credores da OGX é a Petrobras — sua concorrente, quem diria. Fora ela, há ainda ministérios, Caixa e BNDES, dentre os órgãos públicos (embora os investidores privados ainda sejam o grosso dos credores). Sendo assim, o governo, realmente, não vai querer ver a falência do grupo de Eike. Já o governo mineiro pode ficar mais aliviado, já que a parte dos empreendimentos da MMX no Estado já foi vendida há tempos para a Anglo American (que, pelo que puxo de memória, também teve prejuízo com eles).

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  3. O Rio de Janeiro, no entanto, está sentido bastante os efeitos da derrocada do EB: a reforma do Hotel Glória parou e o que ficou por lá foi um esqueleto horroroso. O projeto Marina da Glória vai deixar como legado uma enorme área do Aterro do Flamengo fechada ao público, completamente descaracterizada. O projeto de despoluição da Lagoa parou na aquisição de uma balsa para a Comlurb. A verba anual para as UPPs já foi suspensa. O prédio do Flamengo, que ia virar um hotel, está completamente vazio e sem futuro – possivelmente será invadido. Isso sem falar nas obras do superporto de Açu, lá perto de Campos, que estão paradas. Mas nesse caso nem dá para discutir: a relação de EB e Sérgio Cabral nunca foi muito republicana…

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  4. Sinceramente, peço perdão se causei irritação. É realmente uma pena que a distância me impeça de debater tema tão interessante de perto. Veriam que minhas discordâncias, frequentemente equivocadas e passageiras, são, na verdade, fruto de uma inquietação com a qual meus mais estimados professores e mestres já se acostumaram. É, digamos, minha maneira dialética de aprender.

    Desnecessário dizer (mas reitero) que conheço o trabalho de vocês, os admiro e respeito desde sempre (neste blog e em outros veículos), principalmente pela postura crítica, corajosa e honesta frente ao aecismo.

    De volta ao assunto, creio que estamos de acordo: considero importantíssimo recuperar do passado e trazer novamente à tona a ajuda dos governos, todos eles, ao grupo X. Fica o pedido de um leitor: gostaria de ver mais dessas informações nesse espaço.

    (Meu ponto – no fundo, absolutamente irrelevante diante do problema maior – é que comparado às benesses oficiais, a torcida da mídia é, ainda que importante, secundária, até porque vem à reboque das primeiras, na minha visão – repito, frequentemente equivocada).

    Como bem mostra a notada OSX à CVM, quem tem amigos no poder, tem o mundo. Não me surpreenderia se, eventualmente recuperado, Eike fosse redimido e alçado como herói pela mídia.

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    • Também não me surpreenderia, nem mesmo que ele realmente conseguisse se recuperar. Além de “amigos” nos governos, acho impressionante a quantidade de amigos que ele tem no setor privado, entre grandes investidores. Isso sempre me impressionou.

      Certo, Renan. Realmente, é difícil captar o tom de uma conversa quando ela é virtual, por escrito, e não ao vivo. abs

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