
Há 33 dias, quando um torcedor corintiano lançou um sinalizador contra a torcida da Bolívia, em uma partida da Libertadores, e matou um adolescente de 14 anos daquele país, defendi que houvesse uma punição bem dura, ao clube e aos responsáveis, para evitar esse tipo de tragédia no futuro e servir de lição a outras torcidas organizadas (que mais parecem gangues) do país.
Desde então, o Corinthians já foi obrigado a manter as portas fechadas em um jogo no Pacaembu, o que representou prejuízo de R$ 1,3 milhão, recebeu uma multa extra de R$ 200 mil, ainda está proibido de ter torcida em jogos fora de casa por 18 meses e participou de amistoso cuja renda foi revertida para a família da vítima.
Considerando que a falha de fiscalização para a entrada de uma arma no estádio não é de responsabilidade exclusiva do clube, mas também dos organizadores, acho que a punição já está mais do que suficiente.
No que diz respeito à esfera criminal, temos que um outro adolescente, de 17 anos, assumiu ter lançado o sinalizador contra a torcida adversária. Temos um vídeo em câmera lenta, divulgado por uma TV boliviana, mostrando que apenas uma pessoa lançou o sinalizador. Vemos que, no máximo, houve outros que ajudaram aquela pessoa a fugir — o que pode ser uma ação de cúmplice, mas também pode ser apenas uma forma de evitar um linchamento de alguém que também é adolescente, que pode ter disparado por acidente, que pode mil coisas. Todas essas possibilidades devem ser analisadas durante um julgamento.
A questão é que, há 33 dias, 12 pessoas — nenhum deles sendo o jovem que assumiu a culpa pelo homicídio — continuam presas na Bolívia, tendo os pedidos de liberdade negados dia após o outro.
O que justifica essa prisão de mais de um mês de 12 pessoas, sendo que apenas uma efetivamente acionou a arma? Ultrapassamos a seara da punição ao clube e à torcida, da lição e da investigação de homicídio. O que temos ali passa a ser um sequestro internacional de 12 brasileiros.
Quem defende essa tese é alguém muito mais qualificada que eu: uma advogada criminalista que é professora livre-docente de direito penal na USP. Em texto publicado na “Folha” de hoje, cheio de pontos de exclamação, ela clama que o governo brasileiro intervenha, inclusive política e diplomaticamente, para libertar 12 pessoas inocentes que estão confinadas, sabe-se lá em que condições, num país que, no momento, tem todos os motivos do mundo para odiar corintianos e brasileiros em geral.
Eu já nem lembrava mais desse episódio. Passaram-se trinta e três dias, afinal (frise-se por extenso). Mas é justamente por esse tempo transcorrido absurdo que torna-se importante um texto como o da professora Janaína Conceição Paschoal. São 33 dias de prisão irregular de 12 brasileiros. Não nos esqueçamos mais, portanto. Voltemos com o assunto à pauta. Quanto mais o tempo passa, mais grave ele se torna, ao contrário de outras notícias que caem no limbo da velhice.
CLIQUEM AQUI para ler o texto de Janaína.
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