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A saga para encontrar um espremedor de limões (e a falta de noção dos brasileiros)

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Eu só queria um espremedor de limões. Desses manuais mesmo, sabem? Põe meio limão no meio, aperta a alavanca e sai o suco pelos buraquinhos. Joga o bagaço no lixo e recomeça-se o processo. Uma mera alavanca.

Vou ao supermercado. Seção de utilidades domésticas. Ebulidor, pegador de escargot, descascador de camarão… opa! Será que estou no mercado certo? Tem até um adorável jogo de saleiro e paliteiro feito de bambu e vendido a módicos… R$ 80!?

cris 002Começo a achar que fui parar no programa “Mulheres Ricas”. Lá não encontro meu espremedor de limões.

Tento a mesma busca em cinco diferentes supermercados: Mart Plus (duas lojas diferentes), Super Nosso, Wal Mart, Extra e Lojas Americanas. Neca. Encontro as “utilidades” mais inúteis do mundo, as quais nunca nem sequer pensei em ter para viver (pra que um “mexedor de sucos” todo enfeitado se eu tenho uma boa e velha colher?), mas nada de achar meu espremedor de limões.

Um surto me faz entrar numa dessas lojas em que se vende colherinha de café por R$ 15.  Pensei: Oras, aqui tem tudo, e não é possível que o espremedor seja tão caro assim. Às vezes eu pago um pouco mais do que estava querendo, mas será de melhor qualidade, etc etc.

Eis que encontro o espremedor. Meio plástico (ou acrílico), verde-limão, meio aço-inox. Marca X (nunca ouvi falar, de todo modo). Chutem o preço? Quase caí para trás quando li a etiqueta:

— R$ 114 por um espremedor de limões?!

Saí fugida dali. As pessoas enlouqueceram, é só o que consigo pensar.

Aí, já na rua, junto com os demais “sãos” do mundo, ouço falar de chá-de-fraldas com buffet que custou R$ 20 mil. Festinha para crianças de 1 ano ao preço de R$ 50 mil. E lembro do passeio surreal que fiz pelo shopping de luxo JK Iguatemi, em São Paulo, para uma reportagem, em que vi uma maleta de madeira ser anunciada na etiqueta por R$ 300 mil. Isso mesmo, contei os zeros. Um apartamento ou uma mala?

O problema não é um espremedor de limões ser vendido a R$ 114. O problema é que, se ele é vendido a esse preço, há quem o compre. Falta noção a algumas pessoas, que têm dinheiro sobrando.

Segundo a “Forbes”, o Brasil bateu seu recorde de bilionários. A economia brasileira tem ido melhor que a do resto do mundo mesmo (embora isso não signifique que ela ande bem das pernas, com crescimento de 0,9% em um ano). Mesmo com redução de miseráveis e ascensão da “classe C”, a desigualdade continua gritante. No Brasil de 2013, há 46 bilionários e mais de 16 milhões na miséria. E há os que vivem entre a miséria e os bilhões, um caldo de 174 milhões de pessoas, que podem optar por gastar R$ 114 num espremedor de limões ou gastar esse dinheiro em algo mais útil.

Meu sonho é que, em algum dia, o Brasil descubra um jeito de crescer ao mesmo tempo em que a desigualdade diminui e a noção de seus habitantes é recuperada.

PS. Achei meu espremedor no mercadão de BH, a R$ 5.

Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

6 comentários em “A saga para encontrar um espremedor de limões (e a falta de noção dos brasileiros) Deixe um comentário

  1. “O problema é que, se ele é vendido a esse preço, há quem o compre. ” Pensei exatamente a mesma coisa quando li o preço cobrado por um espremedor de limões. Tem louco pra tudo mesmo. Por isso eu gosto do mercadinho da esquina e das lojinhas “tem de tudo” no comércio local.

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    • Também adoro essas lojinhas! Tem uma que nasceu lojinha e hoje já é bem grandona, e fica no ponto mais nobre de BH, em plena praça da Savassi — mas continua cobrando preços justos e vendendo essas utilidades domésticas (reais) bem baratinho. Chama-se Gujoreba. No Natal, me dei de presente uma churrasqueira de fogão de lá. Vem esmaltada (fácil de lavar), e foi uma das melhores aquisições domésticas da minha vida, porque eu sempre quis fazer churrasco em casa. Já fiz dezenas, quase todo fim de semana, desde então (e durante a semana também, quando dá tempo). Custou uns R$ 80 — no dia eu achei meio caro, mas é bem menos do que o espremedor de limões, e bem mais justo, para o produto.

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  2. Prezada Cristina, quando uma economia cresce, apresentando essa distribuição tão anômala, não tenha dúvida, há sérios problemas estruturais, criados por esdrúxulas exceções ao caótico ordenamento jurídico, mormente no capítulo da legislação tributária. Por outro lado, quando há quem venda maletas à R$ 300 mil e espremedor de limão à R$ 114,00, é porque tem gente que as compram; as primeiras estão indo para o rol dos bilionários, as segundas estão jogando fora o que de graça receberam ou tiraram (Lei natural: o recuro vai com a mesma facilidade com que vem).

    Abraços, Cristina.

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