O moleque, a pirralha, o garoto e o velho — passarinhos das ruas

(Foto: CMC)

O post de ontem me inspirou a escrever a crônica ficcional abaixo, dando uma de Moacyr Scliar bem menos talentosa.

Reforço que a história de Brenda foi só inspiração, mas o texto abaixo é totalmente fictício, um exercício de imaginação, sem qualquer julgamento de valor sobre figuras reais.

***

O moleque fugiu.

E agora? Moleque pequeno, com bochechas gordas rosadas, olhinhos de cachorro faminto, sempre ajuda a convencer os ricaços a liberar o dinheiro.

E eu gostava do moleque. Conversava com ele, ensinava as coisas da vida. Deixei ele bicar minha cachaça quando fez 9 anos. Como eu bicava a espuminha da cerveja do meu velho.

Catava os piolhos, dava um jeito de deixar ele sempre limpo, sem doença. E era livre, livre, como passarinho, como eu sou, dono da rua.

E tinha lá os amiguinhos dele, nunca proibi. Tinha o totó. E minha proteção, porque sei melhor que ninguém como lidar com os canalhas da polícia, os canalhas da prefeitura e aqueles jatos d’água fria infernais.

Mas moleque fugiu. Vou sentir falta dele.

***

A pirralha não para de chorar.

Me lembra o moleque, quando o encontrei, perdido na rua.

Ela também estava perdida, toda aquela multidão gritando, aquela confusão, não se leva bebê pra um lugar daqueles.

Nem precisei correr. Sorri pra pirralha, ofereci a mão, e ela veio. As bochechas ainda mais rosadas que as do moleque. Linda mesmo.

Será uma boa filha.

Só esse chororô que tem que parar. Deve ser a roupinha que moleque usava, deve ter pegado piolho velho.

***

Duas semanas com pirralhinha e eu já gosto dela. Acho até que ela também gosta de mim, porque não chora tanto. Peguei uma coberta nova das carolas só pra ela, limpinha. Vai aprender a virar passarinha. Vai pedir dinheiro, vai pagar a cachaça, vai ser livre como o velho dela.

Sem multidão gritando pra ela. Que deus não mora nas ruas.

***

Imbecil! O que aquele garoto pensa que é? Criei ele como meu filho, aquele órfão lazarento. Pensa que não reconheci? Me viu de longe, a pirralha com o dedinho estendido, sociável como só ela, e veio tirar satisfação.

“Esta não. Ela é minha vizinha. A mãe dela está desesperada!”, posso ouvir as palavras, ver a mão segurando firme o bracinho dela.

“Que sabe de mim hoje, garoto? Essa é minha filha, você tá confundindo.”

“Não esqueço tua cara, velho. Não vai ficar pegando filha dos outros, vou te denunciar.”

“Que denunciar o quê, garoto? Bandeou pro lado dos canalhas? O que te ensinei? Eu não roubo criança, você sabe disso. Pego só os órfãozinhos, como você.”

“Essa não é órfã, ela tem família. Machucou ela?”

“Está doido, rapaz? Alguma vez encostei o dedo em você? Devia ter encostado, pra ficar mais agradecido.”

“Não vai explorar essa criança, velho. Vou chamar a polícia. Eu conheço a mãe dela, a foto dela tá na cidade toda. Corre agora, senão vou ficar com ela e ainda te botar na cadeia.”

Corri. Deixa a bichinha com a família dela, naquelas grades em que o garoto se meteu, cumpridor de ordens. Não aprendeu nada mesmo. É um imbecil ingrato, isso sim. Seis anos na minha asa e agora vindo me ameaçar.

Vou voar, vou sumir, que passarinho perdido é o que não falta, pra eu ajudar a libertar.

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