Relembrando Robespierre (ou: Como os bancos ficaram mais fortes depois da crise)

Texto de José de Souza Castro:

Pobres bancos. É o que vem à mente quando se lê por aí sobre a crise financeira que ameaça a Europa. Quanto engano! Pobre dos pobres, isso sim. Porque os ricos estão cada vez mais ricos, os pobres sempre mais pobres. É o que se deduz do artigo do professor Daniel Raventós, da Faculdade de Economia e Empresa da Universidade de Barcelona, na Espanha, publicado nesta semana pelo Sinpermiso.

A citação que o autor faz de Robespierre é esclarecedora: “Toda especulação mercantil que se faz às expensas da vida de meus semelhantes não é negócio, é bandidagem e fratricídio. (…) Por que não devem as leis deter a mão homicida do monopolista, do mesmo modo que o fazem com o assassino comum?”

No caso em exame, as leis protegem os especuladores financeiros, os bancos. Em setembro de 2008, o governo dos Estados Unidos aprovou um plano geral de resgate aos bancos, conhecido como TARP (Troubled Asset Relief Program), estimado em 700 bilhões de dólares. Os mesmos senadores que votaram essa lei extremamente generosa para os bancos em dificuldade por causa de empréstimos insensatos que fizeram antes, se negaram em seguida a aprovar uma proposta de ajuda aos 800 mil norte-americanos que ficaram sem trabalho em razão da crise.

A justificativa para o resgate financeiro aos bancos foi que era preciso restabelecer o fluxo de crédito para que a economia se recuperasse. Mas o que aconteceu foi que os bancos restringiram ainda mais os créditos a empresas e pessoas físicas, mas emprestaram muito àqueles governos que aceitaram suas condições: cortar os gastos sociais, reduzir custos com as demissões de trabalhadores e rebaixar os salários.

Consequência: os trabalhadores ficaram mais pobres e os banqueiros mais fortes. “Os grandes bancos são cerca de 20% maiores que antes da crise e controlam uma parte da nossa economia maior que nunca”, escreveu no New York Times, em março de 2011, o ex-inspetor geral do TARP, Neil M. Barofsky. “Assumem de forma razoável que o governo os resgatará de novo se for necessário.”

Acréscimo meu: nada indica que a situação será diferente na atual crise europeia. Vai prosseguir até que a população tome novamente a Bastilha – e um novo Robespierre acabe guilhotinado, para recomeçar tudo como antes.

O artigo em espanhol pode ser lido AQUI.

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