O Dia da Tia

Depois da Madrinha, a Tia.

A Tia que me deixou tantas lembranças.

Boa parte delas é associada a comidas. Comidas maravilhosas, que ela fazia com prazer.

Tinha o frango ensopado do almoço. E o café com muitos biscoitos. Tinha um queijo que ela derretia na chapa, até ficar bem torradinho e crocante, e que eu comia como se fosse a coisa mais gostosa do universo. Ah, e as pelinhas de frango…! Eram o paraíso. Também tinha bolos… e balas.

As balas merecem um capítulo à parte. Ficavam “escondidas” no armário, entre roupas, onde eu e meus primos “Debrinha” e Cássio íamos cometer alguns furtos ocasionais. Tenho certeza de que ficavam propositalmente mal escondidas para que pudéssemos ser justamente recompensados por nossas pequenas aventuras.

Aventurar-se por aquela casa era mágico, um deleite para todas as crianças, mas especialmente para uma que cresceu em apartamento, como eu. A começar pelo imenso dossel que protegia o sono dos pernilongos, fartos naquela cidade quente. E as cristaleiras antigas cujas partes giravam, parecendo estarem subindo, ou descendo — e assim aprendi o que é ilusão de ótica. E a máquina de costura grandona, cercada por vários tecidos.

A Tia estava sempre maquiada, bochechas vermelhas, colar, roupas coloridas, cabelo tingido. Vaidosa e elegante e bonita. Nas fotos, sua pose favorita era o perfil. Belo perfil, que destacava os olhos grandes, que as filhas herdaram.

E tinha um sotaque cantado, cantado mesmo, como até eu, mineira de Beagá, conseguia perceber. Não era um sotaque da roça, como os atores globais se esforçam para tentar reproduzir ao imitar os mineiros. Tinha um ritmo próprio, que outros primos e tios meus, da mesma região, também têm. O sotaque mais bonito do país, diga-se.

Sempre entremeado pelas notícias da família, porque a Tia era boa de papo e de prosa e estava sempre se preocupando com todos.

Porque não era nem sotaque, nem vaidade, nem garfo que descreviam a Tia, mas sua atitude sempre prestativa com todos os irmãos, filhos, netos, marido — sobrinhos. Com a mãe, que lá morou nos últimos meses de vida, e precisava da vigília constante da filha.

E sempre sorridente.

A última vez em que a vi foi num outro dia triste, o dia em que enviei a primeira carta a deus. Mas não foi a última vez em que falei com ela. Esta faz pouco dias, por telefone, e, apesar de estar prestes a passar por uma cirurgia delicada, lá estava a voz dela, cheia de sorrisos, confiante e animada, com aquela cantoria do sotaque da Tia.

Fico feliz por ter telefonado (apesar do meu pouco hábito de telefonar para as pessoas, tão raro que o Tio nem me reconheceu na hora). Porque é aquela cantoria que vai ficar na minha memória para sempre.

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