Stefan Salej: ‘Do pobre, nobre e podre’

Fotos: Pixabay

Texto escrito por Stefan Salej*

“A frase de Hamlet, na peça teatral do inglês William Shakespeare de mesmo título, “há algo podre no Reino da Dinamarca”, pode ser mais uma vez repetida para os momentos de hoje no Brasil: há algo de podre neste país. O mais recente escândalo da “carne fraca”, ou seja, carne podre que pobre come, adiciona mais um capítulo à novela de podridão e corrupções que vivemos no país. A cada momento aparece um escândalo, os políticos de todos os partidos ficam mais enlameados, e as condenações cada vez mais longe. Ninguém sabe onde isso vai parar e quando vai parar. E a razão é simples: a podridão é de tal tamanho que o país precisa de um renascimento, surgir das cinzas como Fênix para recomeçar. É uma transição dolorosa na qual a parte mais triste é que, mesmo com um processo como a Lava Jato, em curso há três anos, parece que ninguém se assusta e que não mudam os hábitos, sejam nas empresas, na administração pública ou entre políticos. Se para um respeitado deputado que vira ministro, um simples superintendente do Ministério da Agricultura no seu Estado é chamado de Grande Chefe, então a escala de valores está de cabeça para baixo e quem manda mesmo e vale alguma coisa na hierarquia do poder é o Grande chefe e não o tal do deputado.

A operação da Carne Fraca traz muitas lições. Continuar lendo

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Brasil perde por ano US$ 23 bi com fluxo ilegal de dinheiro, e a Fiesp não vê

Os brasileiros pagam muuuuitos patos, mas a Fiesp é conivente com todos eles. Foto: Lucio Bernardo Jr./ Câmara dos Deputados

Os brasileiros pagam muuuuitos patos, mas a Fiesp é conivente com todos eles. Foto: Lucio Bernardo Jr./ Câmara dos Deputados

Texto escrito por José de Souza Castro:

A primeira coisa a se notar: o relatório da Global Financial Integrity (GFI) datado de dezembro de 2015 só chegou nesta semana ao conhecimento da imprensa brasileira – mais especificamente, do jornal “Valor”. Título do relatório dessa consultoria internacional sediada em Washington, capital dos Estados Unidos: “Illicit Financial Flows from Developing Countries: 2004-2013”.

Ao contrário do que acreditam nossos editores, interessa sim, aos brasileiros, saber como sai anualmente do país, ilegalmente, um valor em dólares muito superior a tudo o que os investigadores da Lava Jato afirmam terem sido desviados da Petrobras e de outras estatais federais desde 2003, quando o PT chegou ao poder.

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Um estranho no ninho do peleguismo empresarial brasileiro

Stefan Salej

Texto escrito por José de Souza Castro:

Depois de mais de dois anos sem o ver, reencontrei Stefan Salej no Palácio das Artes no dia 30 de junho de 2003. Tínhamos ido ao lançamento de “As Sete Portas da Comunicação Pública”, livro escrito pelo jornalista Maurício Lara, que fora meu colega na sucursal mineira do Jornal do Brasil e assessor de imprensa de Salej na presidência do Sebrae Minas.

Agora, primeiro ano do governo Lula, Mauricio era assessor da Secretaria de Comunicação do Governo e Gestão Estratégica da Presidência da República. Eu estava desempregado. Tinha sido demitido naquele mesmo mês da Rádio Alvorada, onde havia sido o coordenador de jornalismo desde 1995. Nas horas vagas, para complementar o salário, fazia frila. Assim, durante cinco anos, editei o jornal Indústria de Minas, da Fiemg.

Dois anos antes desse encontro, encerrei minha participação naquele jornal. No começo de 2003, Salej concluíra seus sete anos na presidência da Fiemg.

Foi olhando para o que Salej e eu tínhamos em mãos – o livro autografado de Maurício Lara – que tive a ideia: por que não escrever a biografia de Salej, com destaque para as mudanças que ele fez tanto no Sebrae como na Federação das Indústrias?

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É possível resistir ao fiscal corrupto

Texto escrito por José de Souza Castro:

Li nesta segunda-feira (6) dois artigos interessantes sobre corrupção. O primeiro, do sociólogo Emir Sader, publicado na Rede Brasil Atual. O segundo me foi enviado, por e-mail, pelo empresário e cientista político Stefan Salej. Que foi presidente da Federação das Indústrias de Minas na época em que editei o jornal mensal da Fiemg.

Sader defende que “o objetivo da direita é desqualificar o Estado e a esquerda, que valoriza o Estado como instrumento de transformação democrática da sociedade”, quando se dá tanto destaque à corrupção na Petrobras, enquanto se esconde casos como o envio de dinheiro para contas secretas do HSBC na Suíça e o da operação Zelotes, da Polícia Federal.

Há uma diferença de tratamento pela imprensa, porque há diferenças entre os casos. O primeiro envolve a maior empresa estatal brasileira e os outros implicam empresas privadas. Acrescenta o sociólogo: “Tentam demonstrar que a fonte de corrupção é o Estado e todas as suas instâncias e tentáculos – parlamentos, ministérios, empresas estatais etc; enquanto que as remessas para o exterior e o suborno de fiscais da Receita são casos de sonegação privada, com um montante incomparavelmente maior do que os primeiros.” O artigo pode ser lido AQUI.

Já o artigo escrito por Salej, intitulado “Dos  fiscais honestos e dos corruptos”, vale ser transcrito na íntegra:

“Numa empresa de porte médio, bem sucedida no mercado nacional  e internacional, altamente conceituada e sediada nas Alterosas, aconteceu um episódio muitos anos atrás bem exemplar para os dias de  hoje.

O contador, que possuía curso de contabilidade da Faculdade de Ciências Econômicas  da UFMG, avisa ao diretor da empresa que um fiscal estadual estava na sala de reuniões querendo falar com ele. O fiscal,  que examinava os documentos da empresa há algumas semanas, terminou o seu serviço e foi curto  e grosso com o diretor: a multa é de tantos milhões, eu tenho pela lei uma participação na multa, mas como o dinheiro demora a chegar e eu estou reformando a casa, prefiro que vocês me paguem parte desse  prêmio que o estado me dá  e vamos esquecer a multa que estou aplicando. O fiscal, de sandália havaiana, de camiseta, bem à vontade para explicar o que propunha.

O diretor se levantou, saiu da sala, voltou com algumas chaves e as entregou ao fiscal dizendo que estava tudo certo e que no dia seguinte, às 5h30, poderia vir para receber a sua parte. O fiscal pergunta: à tarde, não é? Não, este é o horário que a gente começa a trabalhar aqui todo dia. O senhor pode vir e, com a multa que está  nos aplicando injustamente, só para ganhar a sua comissão, pode assumir a empresa. O fiscal tentou negociar e no final se despediu dizendo que ia receber “o dele” de qualquer maneira, mas que o diretor e a empresa iriam se arrepender para o resto da vida.

O processo rolou anos e anos, foi julgado pelo Conselho dos Contribuintes do Estado de Minas e os empresários ainda ouviram dos representantes do fisco que eram a podridão da sociedade. E o fisco perdeu, mas a empresa teve também perdas enormes.

Quantos casos de extorsão você conhece em todos os níveis? Não há empresário neste país que não tenha sido extorquido pelo menos uma vez na vida. O escândalo que esta sendo levantado agora pelo Polícia Federal  no nível da Receita Federal, é  pequeno perto do que rola pelos estados e municípios nessa área. Pelo menos, a Polícia Federal levantou isso, enquanto as polícias estaduais e procuradorias nas sua maioria ficam silenciosas em relação ao assunto.

Mas, a regra de fiscais corruptos não é  regra. A absoluta, e reafirmo, absoluta maioria  dos servidores públicos no Brasil é honesta. O empresário precisa resistir, denunciar e pôr para correr quem o chantageia. Precisa conhecer as leis e usá-las a seu favor e não se abater com a primeira chantagem que aparentemente facilita a vida. Mas dificulta o sucesso, a sobrevivência. Porque chantageado uma vez, chantageado sempre. Honestidade tem preço, mas vale a pena.”

Conheço Stefan Salej desde a década de 1970, quando iniciei no jornalismo, por causa da atuação dele em entidades empresariais. E na empresa que ele fundou com dois amigos, a Tecnowatt, e que em 1986 já se tornara uma das cinco empresas no mundo com tecnologia para fabricar células fotorresistivas, utilizando relés fotoelétricos. Mas que acabou sendo vendida em dezembro de 2003 para um grupo espanhol, como milhares de outras indústrias brasileiras que até conseguiam se opor aos fiscais corruptos, porém não tiveram como resistir à onda da globalização da nossa economia.

O artigo de Salej é coerente com sua trajetória. Num dos editoriais que ele escrevia para o jornal da Fiemg, no começo deste milênio, afirmou: “Pagar impostos é obrigação de todos os cidadãos, assim como de todas as empresas.” E acrescentou:

“A grande maioria paga seus impostos em dia e os sonegadores nunca foram estimulados ou bem vistos em nosso meio. Se há sonegadores, que sejam identificados e se aplique a lei contra eles, mas não se pode, indiscriminadamente, ameaçar toda a classe empresarial. (…) Minas mantém posição de destaque na economia brasileira porque o empresariado confiou no Estado, investiu em produtividade e criou empregos. Aqui existem empresas centenárias e exemplos de responsabilidade social para o país inteiro. O empresário mineiro é um patrimônio valioso deste Estado, assim como o seu povo. Portanto, viva o empresário mineiro! E abaixo os sonegadores, corruptos e incompetentes, seja de que lado estiverem.”

É isso aí.

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Os médicos e a blogueira — o fator Cuba

Recebi o depoimento, que reproduzo abaixo, de alguém que não pode ser acusado de comunista (nesses tempos de Nova Guerra Fria que vivemos no Brasil): o ex-presidente da Federação das Indústria do Estado de Minas Gerais, Stefan Bogdan Salej.

“Quando tive uma aguda crise de saúde na visita oficial que fiz a Caracas na função de enviado especial da Eslovênia para América Latina e Caribe e Presidente do Grupo para América Latina e Caribe do Conselho da União Européia, levaram-me, em vez de para um hospital, para o Palácio Presidencial Miramar. Lá fui tratado por um médico do Presidente Chávez, um cubano.
Quando voltei para a Europa com uma verdadeira gambiarra no corpo porque não tinha nem isso e nem aquilo no ambulatório chaveta, o médico europeu disse que fui, do ponto de vista clínico, muito bem tratado. E os diplomatas cubanos em Bruxelas me colocaram imediatamente a par de todo o tratamento, felizes de que fui tratado por um conterrâneo deles.
Em dois anos que participei de reuniões da UE sobre a América Latina, e a maioria tratava de Cuba, não houve reunião de que os cubanos não soubessem em tempo real o que havia sido discutido pelos europeus. Em detalhes, o que falava quem. Nenhuma varredura conseguiu descobrir o vazamento. A diplomacia cubana era pertinaz, persistente, educada e inflexível. E apresentava o país como eterna vítima do imperialismo mundial. Mas, mais importante, era o uso com perfeição de sua posição geoestratégica e a mensagem de que a sua independência era importante para todos e em especial para a América Latina.
Os cubanos sabem o que querem e sabem quão importante para a independência deles é o bom relacionamento com o Brasil.
Depois de terem cutucado a onça com vara curta quando forçaram a condecoração de Che Guevara por Jânio Quadros e treinaram os guerrilheiros brasileiros, mudaram o disco e permitiram que uma tabacaria brasileira de origem anglo-americana se tornasse símbolo de resistência ao bloqueio americano, funcionando como brasileira na ilha. Permitiram que empreiteiros brasileiros, com generosos empréstimos, construíssem magníficas obras, e até permitiram a vinda da blogueira oposicionista ao Brasil.
A política externa cubana é coerente e tem objetivo e visão. E tem flexibilidade. Acabou a ajuda militar a Angola, forma-se um exército de dentistas, oculistas e outros médicos e manda-os para o mundo. Aliás, essa abertura, usando mão de obra qualificada para obter divisas, começou com o Marechal Tito, na década de setenta, quando a Alemanha precisou de mão de obra qualificada e a Iugoslávia mandou milhares de emigrantes. Mas não ficaram com as famílias amarradas e a absoluta maioria ficou na Alemanha.
E nesta história de vinda de médicos cubanos, é, do ponto de vista logístico, formidável um país dispor de 4.000 mil profissionais prontos, da noite para o dia, sem que seu sistema de saúde sofra qualquer alteração.”

Para mim, afora a questão do corporativismo médico, defendido pelos CRMs e sindicatos da categoria, e afora uma certa xenofobia e racismo em geral, na recepção dos médicos estrangeiros (como a “jornalista” que disse que as médicas cubanas mais pareciam empregadas domésticas e os jovens vaiando os médicos no Ceará aos gritos de “ESCRAVO! ESCRAVO!”), há, ainda, o fator Cuba.

Sim, porque os médicos cubanos estão sendo muito mais hostilizados do que os espanhóis, portugueses, argentinos e outros que já chegaram por essas paragens, atendendo à proposta (que não é de todo má) do “Mais Médicos”.

Os médicos acham um absurdo o governo criar um programa para alocar pessoas para trabalhar onde não querem (e não querem não só por ser um lugar “sem estrutura”, como alegam, mas também pelo direito, legítimo, que eles têm de quererem ficar perto da família, nos grandes centros, onde há supostamente mais conforto, embora os hospitais também estejam aos cacarecos, como em todo o sistema público e privado de saúde no Brasil). Beleza, têm todo o direito de achar e de protestar contra isso, mas o alvo não deveria ser o governo, em vez dos colegas estrangeiros?

Para mim, uma das razões para toda essa mobilização é o fato de Cuba, ainda hoje, mais de 50 anos após sua revolução, despertar paixões — de amor e de ódio –, em especial nos vizinhos latino-americanos.

Se não fosse isso, o que explicaria mobilização semelhante, mas partindo dos ditos “de esquerda”, contra uma blogueira cubana que apenas tinha vindo ao Brasil para expor, livremente, suas ideias, como espera-se que qualquer pessoa possa fazer num país democrático?

São motivos, propósitos, contextos e grupos diferentes que se mobilizaram no caso de Yoani Sánchez e agora, dos médicos cubanos. Mas os dois casos têm dois fatores em comum: a paixão pró e contra Cuba e a falta de educação, em geral, dos brasileiros, que ainda não se afeiçoaram à ideia de que uma democracia só é real quando as pessoas podem se expressar livremente, mesmo que defendendo uma posição contrária à nossa — e deveríamos lutar, se queremos uma democracia mais forte, justamente pelo direito de os outros gritarem as ideias contrárias às que defendemos.

Sobre isso, um rapaz, que não conheço, postou uma frase maravilhosa, que vai direto ao ponto, e que já foi compartilhada, até o momento em que escrevo, por mais de 73 mil pessoas no Facebook. Fecho este post com ela:

placacuba

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