Idoso é o &%$#@&!

Até Seu Madruga seria chamado de "idoso" nos tempos chatíssimos de hoje.

Até Seu Madruga seria chamado de “idoso” nos tempos chatíssimos de hoje.

Jornalista, especialmente de impresso, tem um problema grave chamado limite de espaço. É por isso que uma das máximas da edição de jornais é “título bom é o que cabe”. Fez caber, já é um avanço.

“Idoso” é uma palavra ótima, porque é curta e dá a dimensão da idade da pessoa. Pelo Estatuto do Idoso, é aquele com mais de 6o anos. Outras leis definem benefícios a partir dos 65.

Acontece que, na realidade em que vivemos, um sujeito de 60, 70 e, muitas vezes, até 80 anos, está longe de ser um idoso. Tanto de se identificar como tal, quanto de ter visto assim pelo restante da sociedade.

E imagina como é ser identificado, reduzido até, a uma palavra com a qual você não se identifica? Dona Etelvina, aquela que morreu tentando salvar uma flor, foi reduzida a uma idosa. Nada mais. Havia outros adjetivos possíveis: aposentada, portuguesa, sexagenária (eca). Ou um substantivo simples: mulher. Próprio: Etelvina. Provisório e adequado no caso: vítima. Esses não ofendem, nem tampouco reduzem, justamente por serem simples, diretos, sem qualquer conotação negativa ou positiva.

Meus pais já têm mais de 60 anos (não posso dizer quantos, para não me xingarem aqui, rs) e ficaram indignados com o tratamento dado a Etelvina, a idosa. Comentário do meu pai: “São esses jovens, nas Redações, que ficam reduzindo as pessoas a uma palavra, sem saber o tanto de gente que estão desagradando” (algo assim. Minha memória é muito pior que a dos meus pais, então coloquei entre aspas mais por atrevimento que por certeza do que foi dito).

Os manuais de Redação já aboliram o “dona”, o “senhora”, o “esposa” e até palavras absolutamente corriqueiras como “viatura”. Está em boa hora de pararem de usar o “idoso”, que não demora a entrar no limbo linguístico dos anciãos.

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O Ruy Castro estava especialmente inspirado em sua coluna da última sexta, na “Folha”:

Passou de 60

Foi em 1970. Meu colega Alvaro Cotrim, Alvarus, caricaturista, colaborador da histórica “Careta” e amigo de J. Carlos, entrou tiririca na Redação da revista em que trabalhávamos, na avenida Presidente Vargas. Acabara de ler a manchete de um jornal pendurado na banca: “Ancião é mordido no nariz por seu papagaio”. Seguia-se a notícia: “Fulano de Tal, português, 65 anos…”.

Em plena era beatle, Alvarus era um egresso da belle époque. Tinha bastos bigodes retorcidos, como os do barão do Rio Branco, usava gravata-borboleta e cheirava a talco francês. Mas sua indignação era justa. O homem tinha 65 anos, sua exata idade, e fora chamado de ancião. “Quer dizer que, apesar de nunca ter sido mordido por um papagaio, também sou ancião?”, esbravejou Alvarus. Logo ele, que só pensava em mulher.

Hoje, o politicamente correto impediria que se usasse essa palavra. Mas a que a substituiu não ajuda muito: idoso. E está o tempo todo na mídia. “Idoso assaltado sobrevive quatro dias, nu, em matagal no entorno de Brasília”, saiu outro dia. O idoso tinha 61 anos. Significa que, se eu próprio, aos 64, for encontrado nu num matagal em Brás de Pina, subúrbio carioca, também entrarei na categoria de idoso?

Ou: “PF prende idoso com fitas e vídeos de pedofilia no Paraná”. O gajo tinha 60 anos. Ou: “Idoso engasga com asa de frango na Bahia e morre” -62. Ou: “Bombeiros resgatam idoso que subiu em árvore no Rio e não conseguiu descer” -63. Enfim, tanto quanto os jovens e os homens de meia-idade, os chamados idosos vivem se metendo em encrencas pelo Brasil. Mas não se veem manchetes como “Homem de meia-idade é flagrado assaltando pipoqueiro em SP”.

Segundo o IBGE, passou de 60 já é idoso. Com direito a andar de graça em ônibus, pagar meia-entrada no teatro e o dobro do preço no plano de saúde.

Como Ruy Castro, sempre estranhei essas qualificações dos personagens pela imprensa, do idoso ao deficiente, do negro ao coreano. Por outro lado, já bem disse meu pai outro dia que, se “idoso” e “ancião” são palavras feias, muito piores são as expressões eufemísticas “melhor idade” ou “terceira idade”. Os idosos e os anciãos ao menos inspiram sabedoria, denotam toda a experiência acumulada, porém são palavras que não disfarçam o rabugento e cruel “velho”. Melhor é, portanto, tratarmos a todos como seres humanos, sem entrar nessas picuinhas do tempo — mesmo porque ele corre diferente para cada pessoa e o que não faltam são velhos de 20 anos ou adolescentes com mais de 70 (inda mais em tempos de Viagra…).

Dedico esta bela coluna aos meus pais, os idosos mais jovens que conheço, assíduos frequentadores da internet, praticantes de exercícios físicos que muito contemporâneo meu não consegue nem começar, donos de cabeças inteligentes e de corpos enxutos e rostos bonitos. Que se juntem à mesa de chopp da turma do parente distante, o Ruy-também-Castro, contra a classificação inclemente do IBGE e dos jornais e tevês.

Eu apoio! (E espero um dia alcançá-los em idade e em vivência, em seu amplo sentido.)