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De idosos, anciãos e velhos-jovens

“Elsa & Fred”, um filme para inspirar jovens, velhos e velhos jovens 😀

O Ruy Castro estava especialmente inspirado em sua coluna da última sexta, na “Folha”:

Passou de 60

Foi em 1970. Meu colega Alvaro Cotrim, Alvarus, caricaturista, colaborador da histórica “Careta” e amigo de J. Carlos, entrou tiririca na Redação da revista em que trabalhávamos, na avenida Presidente Vargas. Acabara de ler a manchete de um jornal pendurado na banca: “Ancião é mordido no nariz por seu papagaio”. Seguia-se a notícia: “Fulano de Tal, português, 65 anos…”.

Em plena era beatle, Alvarus era um egresso da belle époque. Tinha bastos bigodes retorcidos, como os do barão do Rio Branco, usava gravata-borboleta e cheirava a talco francês. Mas sua indignação era justa. O homem tinha 65 anos, sua exata idade, e fora chamado de ancião. “Quer dizer que, apesar de nunca ter sido mordido por um papagaio, também sou ancião?”, esbravejou Alvarus. Logo ele, que só pensava em mulher.

Hoje, o politicamente correto impediria que se usasse essa palavra. Mas a que a substituiu não ajuda muito: idoso. E está o tempo todo na mídia. “Idoso assaltado sobrevive quatro dias, nu, em matagal no entorno de Brasília”, saiu outro dia. O idoso tinha 61 anos. Significa que, se eu próprio, aos 64, for encontrado nu num matagal em Brás de Pina, subúrbio carioca, também entrarei na categoria de idoso?

Ou: “PF prende idoso com fitas e vídeos de pedofilia no Paraná”. O gajo tinha 60 anos. Ou: “Idoso engasga com asa de frango na Bahia e morre” -62. Ou: “Bombeiros resgatam idoso que subiu em árvore no Rio e não conseguiu descer” -63. Enfim, tanto quanto os jovens e os homens de meia-idade, os chamados idosos vivem se metendo em encrencas pelo Brasil. Mas não se veem manchetes como “Homem de meia-idade é flagrado assaltando pipoqueiro em SP”.

Segundo o IBGE, passou de 60 já é idoso. Com direito a andar de graça em ônibus, pagar meia-entrada no teatro e o dobro do preço no plano de saúde.

Como Ruy Castro, sempre estranhei essas qualificações dos personagens pela imprensa, do idoso ao deficiente, do negro ao coreano. Por outro lado, já bem disse meu pai outro dia que, se “idoso” e “ancião” são palavras feias, muito piores são as expressões eufemísticas “melhor idade” ou “terceira idade”. Os idosos e os anciãos ao menos inspiram sabedoria, denotam toda a experiência acumulada, porém são palavras que não disfarçam o rabugento e cruel “velho”. Melhor é, portanto, tratarmos a todos como seres humanos, sem entrar nessas picuinhas do tempo — mesmo porque ele corre diferente para cada pessoa e o que não faltam são velhos de 20 anos ou adolescentes com mais de 70 (inda mais em tempos de Viagra…).

Dedico esta bela coluna aos meus pais, os idosos mais jovens que conheço, assíduos frequentadores da internet, praticantes de exercícios físicos que muito contemporâneo meu não consegue nem começar, donos de cabeças inteligentes e de corpos enxutos e rostos bonitos. Que se juntem à mesa de chopp da turma do parente distante, o Ruy-também-Castro, contra a classificação inclemente do IBGE e dos jornais e tevês.

Eu apoio! (E espero um dia alcançá-los em idade e em vivência, em seu amplo sentido.)

Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

4 comentários em “De idosos, anciãos e velhos-jovens Deixe um comentário

  1. Ora, ora, Cris. Você me deixa encabulado, quando me descreve com essa juventude toda… Mas apoio sua campanha contra essa qualificação de idoso, sempre que se noticia algo envolvendo alguém de mais de 60 anos. É uma bobagem de nossas redações que começou há não muito tempo. É contemporânea daquela que afirma: “Não corre risco de morte”. Na verdade, muitos acidentados, esfaqueados e baleados não correm risco de vida, como se dizia quando eu era jovem. Como é verdade também, ainda hoje, que todos nós, em qualquer idade, corremos risco de morte, por mais saudáveis que aparentemos. A mardita chega sem avisar, quando anda numa fase boazinha. Numa fase má, mais costumeira, manda o aviso e nos deixa penando – idosos ou não – por muito tempo numa cama de hospital. Coisas da vida, como dizia Kurt Vonnegut em “Slaughterhouse-Five”, a respeito de uma época em que a morte chegava voando, embarcada em bombardeiros americanos que despejavam bombas para arrasar Dresden, numa Alemanha já derrotada. Mas por que estou dizendo isso? Coisas da idade, acho.

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    • Minha descrição está certíssima! São poucos os que conseguem ir à chácara e passar o dia inteiro capinando, rastelando, podando, tirando coisas com o carrinho de mão, arrancando erva de passarinho e fazendo tantos outros trabalhos braçais pesados, toda semana. Isso sem falar na caminhada ou corrida quase diárias. Fora o trabalho intelectual.

      Todos deveriam fazer essa campanha, inclusive porque, muitos se esquecem, os mais sortudos um dia também chegarão a esta tal de “melhor idade”. Se não forem buscados pela Morte antes…

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  2. Meu pai também é “idoso” (tem 68 anos), mas eu nunca penso nele dessa maneira. Ele é tremendamente ativo, dirige (eu tenho um pouco de fobia, tirei a carta e parei de tentar…), trabalha e lê muito, assiste a mil jogos, anda constantemente de trem e vai a cidades e estados diferentes com boa frequência… E eu, com 25 anos, sou bem mais velho que ele: passei o final de semana sentado numa cadeira lendo Kafka e só saí para ver com a minha mãe um pedaço do Silvio Santos! Adormeço bem mais facilmente, também (momento confessional, desculpe).

    Sobre essa coluna do Ruy Castro, no dia seguinte um leitor muito pontual falou nas cartas que além desses rótulos há o “aposentado”: a pessoa perde até a profissão, mesmo se ainda trabalha! É despersonalizar completamente as pessoas, bem esquisito.

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