- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
Neste Dia dos Avós, quero indicar a leitura de um livro belíssimo de autoria da escritora Mariângela Haddad: “Minha Vó Sem Meu Vô“.
Mariângela Haddad é mineira de Ponte Nova. Artista plástica, escreve e ilustra livros infantis desde 1982 e ganhou o Prêmio Jabuti com este livro (segundo lugar na categoria Ilustração de Livro Infantil ou Juvenil, em 2016).
Mas, além de tudo isso, de ser esta artista multitalentos, ela também faz ótimas intervenções, ponderações e observações no nosso clube do livro 😉
Na última reunião do clube, no começo de julho, eu estava mais caladinha, tinha me decidido a não falar nada, porque sempre falo exageradamente em todos os encontros, e às vezes sinto que estou até incomodando os outros mais de 50 participantes, com tanto falatório.
Achei até bom: gostei de passar a maior parte do tempo na escuta do que os outros tinham a dizer, e menos preocupada com o que eu deveria falar.
Não adiantou muito minha convicção, porque o Rafael Mussolini, bibliotecário que faz a curadoria e moderação dos encontros, me entregou o microfone no fim dizendo que todas as vidraças da cidade se espatifariam se eu não participasse (uma brincadeira que tinha a ver com o livro da vez, “A segunda vinda de Hilda Bustamante”).
No final, a Mariângela chegou de mansinho, me chamou lá para onde ela estava sentada, e entregou este livro lindo para mim, dizendo: “Fala mais!”. Foi até o que ela escreveu na dedicatória que pedi:

Curioso é que o livro dela não tem uma palavra sequer, mas é eloquente até não poder mais.
“Minha vó sem meu vô” trata de temas difíceis e emocionantes, como a demência, a morte e o processo de luto. Mas é, acima de tudo, uma grande história de amor entre um casal de idosos, a vó e o vô do título.
Embora tenha ganhado o Jabuti na categoria de livros infantojuvenis, ele não é exatamente um livro para crianças. Inclusive a ficha catalográfica da edição da Miguilim o posiciona como “ficção brasileira” e “livro ilustrado”. Mas, até pelas únicas palavras presentes na obra (o título), podemos deduzir que o narrador é uma criança.
Como disse a autora em entrevista à Câmara Mineira do Livro:
“A partir do próprio título, percebemos que o narrador da história é uma criança, que nos relata esses momentos de dor de uma maneira ingênua e, em alguns momentos, divertida. Esse narrador não analisa a possível doença que acomete seu avô. Ele fala daquilo que testemunha: as birutices e a saída de cena do avô, a tristeza da avó, e a solução encontrada por ela para resolver o problema da solidão.”
Mas, de novo, não é necessariamente uma história para crianças. Na verdade, a grande sacada deste livro, sua graça e delicadeza, está no fato de que a história bate de formas diferentes em todo mundo, em pessoas de todas as idades. Inclusive nos avós, claro.
Até porque todos já viveram perdas, com maior ou menor intensidade. Mas é provável que os adultos (e especificamente os idosos) tenham vivido as perdas descritas no livro com maior frequência. Vejam o que a autora disse sobre isso na mesma entrevista:
“O livro fala de uma perda importante, a do avô, e por essa perda muitas crianças já passaram. (…) O leitor adulto talvez sinta com mais intensidade a emoção da história por estar mais perto de alguma situação semelhante. O leitor mais jovem faz associação com outras perdas, geralmente a de algum animal de estimação. Mas a perda de amigos, objetos e lugares também é muito sentida.”
Acho que o livro trata também dos nossos medos. Medo de ficar como aquele vovô “biruta”. Medo de perder os amores das nossas vidas. Medo da solidão, em suas várias formas.
Mas não é um livro triste: é verdadeiramente encantador, porque termina com uma “solução” criativa para esses medos. Para quase todos eles, na verdade.
“O tema da morte e da solidão é muito pertinente na nossa sociedade com uma população cada vez mais idosa. Penso que meu livro pode ajudar a abordar o assunto com leveza e carinho”, disse a autora.
Acho que foi isso o que senti ao terminar minha leitura: um misto de leveza e carinho.
Fico feliz que Mariângela Haddad tenha me dado esse presente tão precioso. Não tenho mais minhas avós (os avôs morreram antes de eu nascer), mas tenho lembranças lindas com elas, que nunca morreram. Assim como meu filho vem construindo suas memórias afetivas com os dois avôs e as três avós que ele conheceu ao longo de seus dez anos de vida.
Desejo a vocês um Dia dos Avós de memórias emocionantes, doçura, leveza e carinho, como nas imagens tão prolixas da minha colega de clube do livro. E eu poderia retribuir a ela o mesmo pedido: “Fala mais!”
Com palavras ou com ilustrações, tanto faz 🙂
Minha vó sem meu vô
Mariângela Haddad
Ed. Miguilim
24 páginas
R$ 40 na Amazon (preço consultado na data do post, sujeito a alteração)
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