Os Esquecidos de Domingo, de Valérie Perrin: leia minha resenha do livro

Ilustração de Antonio Rhoden na capa do livro Os Esquecidos de Domingo, de Valérie Perrin (ed. Intrínseca)
Ilustração de Antonio Rhoden na capa do livro Os Esquecidos de Domingo, de Valérie Perrin (ed. Intrínseca)

Já li os quatro livros que Valérie Perrin escreveu até o momento. Gostei muito de Água fresca para as flores, adorei Três e depois me decepcionei com Querida Tia, principalmente com sua segunda metade, que considerei inverossímil e exagerada – tanto que nem escrevi resenha dessa obra aqui no blog.

Tinha até resolvido não voltar a ler esta autora francesa, mas ganhei no sorteio este Os Esquecidos de Domingo (seu livro de estreia, mas que chegou por último aqui no Brasil, só em 2026), que foi discutido no clube do livro de junho, na semana passada.

Meu favorito ainda é Três, mas gostei muito deste também. Publicado em 2015, ele já trazia toda a estrutura dos livros policiais que aparece nos outros três livros de Valérie Perrin.

Porque, mesmo que as histórias que ela conta não sejam exatamente de detetive, elas sempre trazem vários mistérios e um clima de suspense muito forte, que prende nossa leitura.

No caso deste livro, estas são algumas das perguntas que ficam pairando:

  • quem faz os trotes no asilo de velhinhos?
  • que praia é aquela onde Hélène se fixa?
  • quem falou sobre Simon?
  • o que explica aquela gaivota?
  • foi mesmo acidente?
  • qual é o mistério dos avós paternos de Justine?
  • por que seu irmão Jules parou de falar com os avós maternos?

E por aí vai.

De novo, a autora recorre a sua técnica de ir e voltar no tempo várias vezes, e de intercalar histórias de forma paralela (aqui, as histórias de Justine, no tempo presente, de seus pais, no passado, e de Hélène e Lucien, num passado mais remoto). Mas não segue um ritmo tão rígido como o que passou a adotar nos livros que vieram depois. Ela vai deixando a história ditar se é hora de navegar pelo passado ou pelo presente – o que até preferi, pra falar a verdade.

E, de novo, ela conta sagas de uma vida inteira. A narradora Justine tem 21 anos de idade, e acompanhamos sua vida desde a infância. Mas temos ainda mais detalhes sobre as histórias de Hélène e Lucien, que acompanhamos desde a infância dos dois até sua velhice.

Numa entrevista para a Veja, a autora foi perguntada justamente sobre essa predileção por fazer a “construção de uma visão a longo prazo” e sobre “os desafios de escrever tramas que somam décadas“.

Ela respondeu o seguinte:

“Adoro histórias intergeracionais. Água Fresca para as Flores acontece ao longo de vinte anos e Três, ao longo de trinta anos. (…) Tenho três livros e entre eles há um intervalo de três anos cada, porque eu levo muito tempo para escrever meus romances, eles são muito estruturados, têm construções semelhantes aos dos romances policiais. São demorados de organizar e elaborar.”

Bota demorado nisso. Para escrever Os Esquecidos de Domingo, a autora levou 15 anos. Ou seja, ela ficou matutando (e maturando) a história desde quando tinha 33 anos até quando estava com 48, que foi a idade com que publicou seu primeiro livro (o que traz uma esperança danada para mim, que tenho 41 anos e ainda sonho em ser escritora!).

Assim como nos outros livros, neste primeiro também foram trabalhados vários temas, como o abandono na velhice, o poder da leitura e os horrores da Segunda Guerra.

Mas o pano de fundo mais óbvio da vez são as histórias de amor. São várias: contei nove casais diferentes, com maior ou menos grau de importância para a obra. Nove!

Em outra entrevista que ela deu, ao UOL no ano passado, a autora disse o seguinte:

“Não há nada que me toque mais do que o amor. Em todos os sentidos da palavra. Amor oculto, amor paixão, amor pelos nossos filhos, amor pelas pessoas mais velhas, amor pelos nossos animais, todos os animais. Eu sou feita assim. É por isso que, em cada página dos meus romances, o amor está presente.”

Neste livro há um transbordamento de amor, com o mérito de não cair numa pieguice irritante. E, para além do amor romântico, há ainda outras facetas, como Valérie disse nessa entrevista acima. Por exemplo, o amor da irmã pelo primo-irmão e o amor da jovem auxiliar de enfermagem pelos velhinhos que ela adora escutar.

O amor respeitoso que vem com a simples escuta atenta: eis um ensinamento que este livro nos deixa, em tempos de tanta polifonia.

 

Capa do livro Os esquecidos de domingo, de Valérie PerrinOs Esquecidos de Domingo
Valérie Perrin
Ed. Intrínseca
285 páginas
R$ 46 na Amazon (preço consultado na data do post, sujeito a alteração)

Leia as resenhas de outros livros já discutidos no clube do livro:

 

Como comprar o livro de crônicas (Con)vivências, de Cristina Moreno de Castro, do blog da kikacastro.

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista desde 2007 (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), dona da empresa Kikacastro Comunicação desde 2022, blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

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