O que eu queria dizer sobre a invasão dos EUA na Venezuela

Charge do Nando Motta sobre a invasão dos EUA na Venezuela. A desculpa é a democracia, o objetivo real é o petróleo, assim como foi com a invasão do Iraque em 2003.
Charge do Nando Motta sobre a invasão dos EUA na Venezuela. A desculpa é a democracia, o objetivo real é o petróleo, assim como foi com a invasão do Iraque em 2003.

Criei meu primeiro blog no dia 20 de março de 2003. Sabem que dia foi esse? O dia em que os Estados Unidos, então comandados por George W. Bush, invadiram o Iraque. A desculpa usada foi de combater o terrorismo e libertar o povo iraquiano. Também foi dito que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa.

Nada disso nunca foi comprovado, mas o governo de Saddam (que, anos antes, tinha sido apoiado e financiado pelos mesmos EUA na guerra contra o Irã, nos anos 80) colapsou, ele foi capturado e, mais tarde, enforcado.

O que os EUA queriam, como sabemos desde aquele março de 2003, era controlar as reservas de petróleo iraquianas. E eu criei o blog no mesmo dia da invasão, junto com a amiga Maria Tereza, para escrever sobre isso. Indignada com o cinismo do presidente mais poderoso do mundo, eu, que era uma jovem estudante de jornalismo que sonhava em ser correspondente de guerra ou colunista de política, queria dar minha opinião.

Nos últimos anos, já sem nenhuma vontade de trabalhar com política, tenho evitado escrever esse tipo de opinião aqui no blog. O motivo é simples: minha sensação é que não adianta nada, sabem? Só estou falando com a minha bolha e a turma que pensa diferente não está nem um pouco interessada em ler e refletir. A ultrapolarização inflada pelas redes sociais não permite mais debate de ideias como o que havia em 2003.

Mas, em respeito a esta história de 23 anos atrás que agora se repete (e à minha memória, que continua afiada, em alguns momentos), achei que não podia deixar passar em branco a nova invasão dos Estados Unidos, agora em um país que faz fronteira com o Brasil.

Só que não vou escrever nada, não. Prefiro reproduzir o texto do jornalista Ricardo Mello, com quem trabalhei na época da Globo e que está muito mais realizado desde que se tornou o Explicador-geral da República. Porque concordo com tudo o que ele disse, então faço dele as minhas palavras, com grifos meus:

“Vamos falar de uma ideia antiga, de 200 anos atrás, chamada Doutrina Monroe. A frase original era “a América para os americanos”, e a intenção era dizer para a Europa: “Não se metam aqui no nosso continente”. Parecia uma boa ideia de proteção.

O problema é que, com o tempo, os Estados Unidos mudaram o sentido para “a América para os estadunidenses”. Eles passaram a usar essa doutrina como uma desculpa para se meter nos assuntos dos países vizinhos, agindo como se fossem o “dono do quintal”.

Agora, pense na Venezuela. Você pode não gostar do governo de Maduro, e ter muitas razões para isso. A questão aqui não é defender um político, mas sim o seu país e o futuro de todos nós.

Imagine que os EUA decidam que não gostam de um governo e, ao mesmo tempo, querem muito o petróleo daquele país. Se eles usarem a força para invadir a Venezuela e pegar o petróleo, eles criam uma regra perigosa para todos.

Se for aceitável invadir a Venezuela hoje para roubar seu petróleo, o que impede que amanhã invadam o Brasil por causa das terras raras ou riqueza da Amazônia? Ou a Bolívia e o Chile por causa do lítio?

O precedente é perigoso porque ele diz que a força de um país maior vale mais do que o direito de um país menor ser dono de suas próprias riquezas.

No fundo, lutar contra uma invasão na Venezuela por seu petróleo não é sobre apoiar Maduro. É sobre defender uma ideia básica: a riqueza de um país pertence ao seu povo, não à nação mais forte que queira tomá-la.

Permitir isso uma vez é abrir a porta para que aconteça com qualquer um de nós no futuro.”

O presidente dos Estados Unidos em 2003 invadiu o Iraque, a 12 mil quilômetros de distância do Brasil, para ter controle sobre o petróleo deles. Agora, o atual presidente Donald Trump invade a Venezuela, que faz fronteira com o Brasil, pelo mesmo motivo (e, de novo, usando a desculpa do combate ao narcoterrorismo, de liberdade aos venezuelanos etc. Como se Trump tivesse qualquer preocupação com democracia, faz-me rir!).

Se muitos de nós nos preocupamos naquela época, deveríamos nos preocupar muito mais agora, que a guerra encostou na gente, literalmente.

Goste-se ou não de Maduro ou de Trump, o fato é que o presidente dos EUA invadiu um país, sequestrou o líder desse país, e agora tenta se apropriar de (= roubar) todos os recursos desse país.

Goste-se ou não de um lado ou de outro (ou de nenhum, o que é meu caso), o fato é que Trump ignorou todas as leis internacionais e cometeu um crime.

Usando, para isso, uma mentira (de novo), e abrindo um precedente perigoso, como bem apontou o Ricardo Mello.

Charge mostra Morte, vestida com a bandeira dos Estados Unidos, indo bater nas portas da Venezuela, depois de passar por Iraque, Líbia, Síria e Ucrânia.
Charge mostra Morte, vestida com a bandeira dos Estados Unidos, indo bater nas portas da Venezuela, depois de passar por Iraque, Líbia, Síria e Ucrânia. Publiquei aqui no blog em 2017, mas não sei quem é o autor.

Há quase uma década, meu pai também escreveu sobre as mentiras a respeito da Venezuela, aqui neste blog. E hoje ele comentou lá:

“Tantos anos se passaram, mas é como se fosse ontem. Alguém há mais de um século disse que a história se repete como uma farsa. Farsa ou não, poucos compreendem isso, a explicar os tenebrosos atos protagonizados por Donald Trump.”

Com a ajuda desses dois talentosos jornalistas, nada mais tenho a acrescentar. Mas pelo menos deixo este registro aqui no blog, para que talvez seja resgatado (daqui a quantos anos? Ou meses?), quando for o Brasil a ser invadido pelo presidente ianque da vez.

***

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Como comprar o livro de crônicas (Con)vivências, de Cristina Moreno de Castro, do blog da kikacastro.

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

4 comments

  1. Puxa! que bom que você escreveu, Cris. Essa história não podia passar em branco no Tamos com Raiva (epa!)

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  2. Tamos com Raiva é o nome do primeiro blog da Cris, criado no dia em que o Iraque foi invadido pelos ianques.

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