- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
Chegou ao fim, meus amigos. Hoje é o último dia deste resgate que venho fazendo desde setembro aqui no blog, mostrando os bastidores de uma redação de jornal.
Foram 15 posts, originalmente produzidos por mim para o blog Novo em Folha, da “Folha de S.Paulo”, e publicados em 2010:
- Como é o trabalho do pauteiro?
- Como um repórter define sua pauta?
- Como é uma reunião de pauta?
- Como é feita a primeira página?
- Como é a rotina da equipe de arte?
- Como é o trabalho de ombudsman?
- Como é o dia da repórter que cobre o Lula?
- Como é a rotina de produção do caderno Equilíbrio?
- Como a editoria de Ciência define suas pautas?
- Como é o trabalho do crítico de gastronomia Josimar Melo?
- Como é o trabalho do obituarista?
- Como é a cobertura do Oscar?
- Como é a cobertura do Big Brother?
- Como um repórter se torna colunista?
5 repórteres-fotográficos contam sua rotina de trabalho
Neste último post, o décimo-quinto, trago depoimentos de cinco fotógrafos que trabalhavam na “Folha” naquela época, que respondem como é a rotina de um repórter-fotográfico. São eles:
- Alan Marques
- Rafael Andrade
- Mastrângelo Reino
- Moacyr Lopes Junior
- Joel Silva
Ao contrário dos vídeos, que eu tinha guardado no meu computador até hoje, esses depoimentos eu só pude resgatar por causa do maravilhoso site Web Archive.
Divirtam-se:
Alan Marques, que era repórter-fotográfico da sucursal de Brasília:
“O dia do fotógrafo começa cedo em Brasília e acaba tarde porque segue a agenda da política local. Aquela história que na Capital Federal ninguém trabalha é mito e posso dar o exemplo dos jornalistas daqui, que têm a carga horária diária de 12 horas.
Algumas vezes o repórter-fotográfico vai para uma pauta que é a mais importante do dia e rala muito, mas não rende. Outras vezes, uma foto que seria banal e levou apenas um minuto para ser feita vira a imagem de destaque do dia.
Sextas e segundas-feiras são os dias que a gente foge da agenda política da cidade e trabalha nas pautas especiais e nas de fim de semana. No último dia 18, eu já havia feito quatro pautas especiais e passei na residência oficial da Presidência da República, na Granja do Torto, para conferir a decoração da festa junina, que o presidente Lula daria no sábado, 19.
Era uma pauta sem muita importância e que a gente chama de “fria”. Ao descer do carro para fotografar as bandeirinhas e os santinhos que enfeitavam a entrada da Granja do Torto, vi uma figura com uma roupa simples, mas que com ar sério conferia a qualidade da decoração. Para minha surpresa, era a primeira-dama, Marisa Letícia, que estava ali para ver se os preparativos para a festas estavam bem feitos. Uma assessora correu em minha direção e pediu para não fotografar porque a primeira-dama não estava arrumada para fotos. Consegui fazer umas seis fotos antes que as duas entrassem na Granja do Torto.
A pauta que parecia não ter importância foi a foto que publiquei no dia seguinte, porque era muito difícil ver Marisa Letícia tão sem maquiagem.
Na noite seguinte, a primeira-dama, Marisa Letícia, e o presidente Lula deram a festa junina e abriram para que eu e mais outros três fotógrafos registrássemos a procissão de Santo Antônio, que o casal faz anualmente antes do início do arraial. Lá estava a primeira-dama arrumada de caipira ao lado do presidente. Ela veio para minha direção e me entregou um pãozinho de Santo Antônio e foi embora com os outros convidados. Esta foto não vi em lugar nenhum.”

Rafael Andrade, que era repórter-fotográfico da sucursal do Rio:
“O dia a dia na sucursal Rio é bem variado. Por mês, às vezes chegamos a fazer mais de 50 pautas, trabalhando no mínimo 22 dias – quatro semanas mais um fim de semana. Isso dá numa média aproximada de duas a três pautas por dia, mas tem dias em que fazemos quatro e dias em que fazemos uma.
Às vezes acontece de uma pauta – como o recente encontro de chefes de estado da Aliança de Civilizações da ONU, ou a cobertura das chuvas no Rio, ou a tragédia em Angra, ou a queda do avião da Air France, ou a simples agenda no Rio de um candidato a presidente – te consumir um dia inteiro, às vezes 10, 12 ou até mais horas.
Ontem [22/6], por exemplo, cobri a Marina Silva em agenda em Petrópolis. Na cidade, que fica na região serrana, Marina daria coletiva, seguida de caminhada no centro, seguida de evento em hotel.
A agenda começaria às 13h30. Para chegar lá nesse horário, cheguei à Folha às 10 da manhã – sairíamos às 11h. A Marina atrasou e o primeiro evento só começou por volta de 14h30. Às 16h, ela faria corpo a corpo no centro. Ela só deixou o hotel às 16h30. Não foi direto para o calçadão, antes fez aparição numa TV evangélica de Petrópolis. Só foi caminhar no centro por volta de 18h. Uma hora depois foi para o último evento do dia – que estava marcado para as 18h. Ficou lá até perto de 20h, quando se encerrava a agenda e nosso trabalho.
Durante o último evento, que era mais controlável – ela falando numa mesa para militantes do PV, transmiti o que tinha de melhor, que era a caminhada no calçadão e o encontro com eleitores nas ruas de Petrópolis. Ao final do último evento, transmiti mais algumas fotos dela discursando e aguardei ela deixar o local.
Retornamos ao Rio depois da pauta, chegando aqui por volta de 22h. Ou seja, mesmo chegando mais tarde na sucursal, ainda consegui trabalhar 12 horas ontem. E aí vem uma eleição presidencial…”
Mastrângelo Reino, que era repórter-fotográfico de São Paulo e fazia a cobertura para a coluna da Monica Bergamo:
“Faço em média duas pautas para a coluna por dia, e isso leva umas quatro horas, depois vou para a minha casa e edito o material e mando ainda durante a noite, já que as fotos precisam estar nas mãos do pessoal da coluna logo cedo para poderem diagramar a página.
As pautas geralmente são festas badaladas e cheia de celebridades e por isso nem sempre é muito tranquilo, já que sempre tem vários outros fotógrafos e fãs disputando o mesmo espaço que eu. Quanto mais pessoas eu conhecer, melhor. Quando não conheço, procuro no “São Google”, ou a assessoria ou os outros fotógrafos me ajudam com isso.
A coluna leva uma linha não só de colunismo social, ela vai além disso, e aí precisamos ter fotos boas sobre eventos políticos, etc.
Sempre procuro chegar antes nas pautas para poder tentar fazer um retratão para o abre da página, e quando isso rola, tem que ser feito muito rápido.
A Redação às vezes me pauta para pautas do dia, e aí pauta outra pessoa para fazer a coluna. Essas outras pautas são de diversas editorias, pode ser o alagamento do Jardim Pantanal, um retrato de um empresário, treino ou jogo de futebol, manifestações etc.”
Moacyr Lopes Junior, que era repórter-fotográfico de São Paulo, sobre como era o plantão de sábado:
“Sábado, em meu plantão do final de semana, fui pautado para acompanhar, pela manhã, a convenção do PTB, num hotel na zona sul de São Paulo, onde o candidato à Presidente pelo PSDB, José Serra, participaria do encontro de anúncio de sua candidatura.
Trânsito tranquilo, eu e o sr. Marivaldo, motorista da Folha, chegamos às 9h e já encontramos dois fotógrafos na porta do hotel.
A convenção estava marcada para as 10 horas. Chegaram correligionários, políticos, repórteres e nada do candidato Serra.
Eu reconheci um segurança no lobby e fiquei de olho nele – é bom saber identificar quem são os seguranças e assessores porque, mesmo quando não querem falar, um gesto, uma movimentação entregam os passos de seus protegidos. O segurança continuava tranquilo, de vez em quando checava o celular, e em seguida espiava a TV, que mostrava um jogo da Copa na recepção do hotel.
Passava das 11 horas quando foi iniciada a convenção com discursos e homenagens. Todos os jornalistas subiram para a reunião e eu preferi ficar distante, observando o segurança que continuava aguardando o candidato. Mais uma checada no celular e o segurança recebe um telefonema, resolve sentar: foi minha dica para entender que o candidato iria atrasar ainda mais, então fui para os discursos, desisti de tentar uma foto exclusiva.
O difícil de uma cobertura fotográfica é a disputa de espaço com tantos “fotógrafos” com suas câmeras de celulares. Eles entram na frente, esticam o braço, gritam, pedem atenção, modificam a espontaneidade da cena. Tá cada dia mais difícil.
Não pensaram num lugar para os fotógrafos e cinegrafistas, nos amontoamos no chão.
Alguns políticos discursaram longamente, meu horário para a transmissão das fotos estava no gargalo, tinha que mandar até 12h30, avisei o editor da Fotografia que o candidato estava atrasado e ele ficou preocupado com o horário, me disse o formato da foto. Quando o Serra entra na sala com mais de uma hora de atraso, o jeito foi resolver o fechamento com uma imagem contextualizada do encontro, ou seja, a proximidade dos dois partidos. Assim que aconteceu a cena, no mesmo local, embaixo da mesa da cerimônia, liguei meu computador, editei quatro fotos, legendei e transmiti para a Redação o mais rápido possível. Deu certo.
É assim, quase sempre dramático, um fechamento de jornal. Parece que não vai dar tempo e o fotojornalista tem a responsabilidade de registrar o fato com precisão e fidelidade sem perder o horário do fechamento porque, afinal, foto boa é foto na página.”
Joel Silva, repórter-fotográfico de São Paulo, contou por telefone como estava sendo a cobertura da Copa, na África
“Rotina
Aqui a gente acorda por volta das 8h e vai dormir por volta das 2h da madrugada, todos os dias.
Cobertura
Às vezes deixo o esporte – os treinos e jogos – e vou fazer outras pautas paralelas, para tentar contar um pouco como é a África. Já estive em favelas, em bares… A rotina na Copa não é só esporte.
Dificuldades
Uma das maiores dificuldades é ter que estar sempre atento com segurança, ainda mais que a gente anda com equipamento caro. Outros jornalistas da Folha tiveram o cofre do hotel arrombado. Eu fui assaltado dentro do avião, na vinda pra cá. Roubaram o laptop no bagageiro.
Além disso, temos dificuldade de locomoção. Aqui não existe táxi, os táxis são vans. Ontem um colega foi assaltado pelo motorista. Perguntou quanto ficou a corrida e o cara tirou a faca e disse: “Tudo o que você tiver”. Sempre tem que alugar carro. A Folha alugou carro pra gente.
E é muito frio.
Pautas por dia
Varia. Ontem fiz duas. Hoje fiz o treino e um jogo. Sempre umas duas ou três pautas por dia. No dia do jogo do Brasil, a gente só faz o jogo. Tenho que ir ao estádio pegar colete, credencial e um tíquete com a posição no campo. Isso demanda tempo.
Multimídia
Estou fazendo cobertura multimídia. Já enviei mais de cinco vídeos para a Folha.com. Eu faço tudo: capto as imagens, vou para o hotel, faço a edição e mando para o Brasil.”
Assim encerro mais este resgate histórico, pessoal. Espero que tenham gostado e que seja útil não só para estudantes de jornalismo, jornalistas e amantes desta profissão, mas para todos que queiram saber um pouquinho de como era a nossa história há 15 anos 🙂
Com este post, não tenho mais séries para resgatar, mas ainda tenho alguns vídeos bacanas do Novo em Folha guardados no meu computador, que vou trazer para o blog de vez em quando. Até a próxima! 😉
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Fotógrafo de jornal trabalha muito mesmo. Lembrou o Mazico, do Jornal do Brasil, sobre quem escrevi aqui, e Toninho Lara e Marcelo Prates, do Globo, com quem trabalhei. O último morreu há dias, depois de uma vida agitada, como se vê ao pesquisar sobre ele no Google. Boa série de reportagens, Cris.
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