- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
Fiquei curiosa para ler “The Underground Railroad: Os caminhos para a liberdade“, de Colson Whitehead, desde que vi que ele estava na lista dos melhores livros do século 21, que divulguei aqui no blog no Dia Mundial do Livro, lembram?
Na verdade, tenho tentado ler mais livros daquelas listas, conhecer melhor o que vem sendo considerado tão precioso no meio da infinidade de livros publicados que existem.
Quando li o resumo da história na contracapa, fiquei ainda com mais vontade de mergulhar naquelas páginas. Afinal, quem acompanha este blog sabe que o tema do letramento racial me interessa muito e pode-se dizer que sou uma “aluna” aplicada nessa disciplina.
O livro conta a saga da escravizada Cora, que começa desde antes de ela nascer, quando sua avó, Ajarry, é traficada em um navio no porto de Ouidah, no litoral africano (onde hoje é Benin), e passa a trabalhar na fazenda do Velho Randall, na Geórgia.
A vida na fazenda é muito bem descrita e detalhada nas primeiras 60 e poucas páginas do livro. Com toda a crueldade própria da escravidão – principalmente vinda dos homens brancos, obviamente, mas também entre os negros (o autor não cai na cilada maniqueísta de retratar as pessoas negras sempre como boas e as brancas sempre como más).
A partir dessa parte, o livro dá uma guinada, porque Cora decide fugir.
Vamos acompanhando essa fuga por meio da ferrovia subterrânea que dá nome ao livro. Que é uma ferrovia mesmo, com trilhos e trens, debaixo da terra, guiando os escravizados pelas rotas secretas de fuga nos Estados Unidos, geralmente saindo do Sul racista em direção ao Norte, abolicionista.
Li depois, no The Guardian, que não existiu uma ferrovia subterrânea de forma literal, mas sim como uma metáfora para uma rede de pessoas, esconderijos e rotas de fuga clandestinas que realmente ajudaram as vítimas da escravidão a escapar para estados livres ou para o Canadá, no início e meados do século 19.
O autor do livro, Colson Whitehead, usou a imaginação para transformar a metáfora em um componente fantástico para sua narrativa. Mas ele se baseou em vários documentos históricos para compor o restante da obra, dando verossimilhança ao que ele relata, e realmente nos fazendo conhecer um pouco do gosto (amargo, horrendo) desse pedaço da história da humanidade.

Por exemplo, ele leu histórias de vida de ex-escravizados que foram coletadas na década de 1930 pelo Federal Writer’s Project, criado por Franklin D. Roosevelt. E, no início de cada capítulo, usou anúncios reais, publicados em jornais do século 19, que ofereciam recompensas por “propriedades” perdidas, que o autor retirou de coleções digitais da Universidade da Carolina do Norte.
Como este, da página 246:
“Recompensa 50 dólares
Saiu de minha casa na noite da sexta-feira, dia 26, por volta das 10 horas da noite (sem ser provocada ou algo do tipo) minha moça negra Sukey. Ela tem cerca de 28 anos, pele clara, maçãs do rosto proeminentes, é delgada e bastante apessoada. Usava, ao fugir, um vestido de brim listrado. Sukey anteriormente era de propriedade do cavalheiro L.B. Pearce, e antes ainda pertenceu a William M. Heritage, já falecido. (…)
James Aykroyd”
Acho que o que tornou este livro tão impactante (foi vencedor do Prêmio Pulitzer e do Man Booker Prize, além de ter entrado naquela lista dos melhores livros do século do New York Times) foi ter trazido com tantos detalhes as várias facetas da economia da escravidão, que movimentou os Estados Unidos até ser oficialmente abolida naquele país em 18 de dezembro de 1865.
Quando a gente pensa em escravidão, sempre nos vem à mente aquelas imagens terríveis de homens negros presos num pelourinho, numa fazenda, recebendo chibatadas, como na cena mais marcante do filme “12 Anos de Escravidão“. Isso, seja lá nos Estados Unidos, seja aqui no Brasil, ou em qualquer outro país escravagista das Américas.

Mas a escravidão tinha muitas outras nuances tão perversas quanto o castigo físico em si. Um anúncio como este que repliquei acima exemplifica uma dessas nuances: os escravizados eram vistos como objetos, propriedades que passavam de dono para dono, que podiam ser herdados, que nem sempre tinham autorização para comprar a própria liberdade, que mal sabiam como se chamavam, muito menos que idade tinham, que viam os próprios filhos serem vendidos assim que conseguiam executar algum trabalho, que nunca tinham acesso a educação, e assim por diante.
Tem ainda o lado dos caçadores de fugitivos, no livro representados pelo cruel Ridgeway, dos ladrões de cadáveres, dos médicos e cientistas que faziam experimentos sórdidos com os negros (como Hitler fez com os judeus), dos enforcamentos em praça pública, das punições a qualquer pessoa (inclusive brancos abastados) que ousasse ajudar um fugitivo, das traições… São tantas, tantas facetas desta história terrível, e todas são tão desumanas, que é até difícil acreditar que isso tudo tenha acontecido por tantos séculos, impunemente.
O livro tem o mérito de contar tudo isso pra gente de uma forma íntima e humana, nos aproximando de cada um dos personagens, dando nomes a eles, contando sua história pessoal, nos mostrando seus sentimentos. Já vi e li vários relatos sobre a escravidão, mas acho que, por tudo isso, este foi um dos mais contundentes.
Vai ser difícil esquecer a cena de Cora trabalhando no museu da Carolina do Sul, por exemplo. Provavelmente não foi o lugar onde ela mais sofreu violências físicas, mas o tipo de violência a que ela foi exposta, psicológica, é incomensurável. Ou a parte do casal da Carolina do Norte que a ajudou… São muitas as micro histórias que compõem esta grande saga de Cora em busca de sua liberdade, cada uma delas mais impactante que a outra, mas não vou dar spoilers. E todas estão contidas em um único livro, de 312 páginas.
Não por acaso, todas essas histórias depois acabaram virando uma série de 10 episódios no Prime, vencedora do Globo de Ouro, dirigida pelo vencedor de Oscar Berry Jenkins… Que, é claro, um dia quero ver. Mas não vai ser agora, porque preciso acabar de digerir o livro primeiro.

Só não digo que o livro tenha superado todas as minhas já altas expectativas iniciais por conta da edição brasileira da Harper Collins. Achei alguns trechos meio confusos, e acredito que possa ser um problema de tradução. E definitivamente havia muuuuitos erros de revisão, que tenho visto frequentemente em livros desta editora. Lamentável. Uma obra dessas merecia mais cuidado, viu?
Mas, seja como for, é uma leitura daquelas que conseguem nos modificar. Difícil, às vezes, porque simplesmente não há como se falar de escravidão com leveza. Mas necessária. Porque, como sempre falo por aqui, é importante que a gente conheça os períodos mais brutais da nossa História, para que não deixemos que eles voltem a acontecer jamais.
E é uma leitura necessária também para nos ajudar a sempre nos lembrarmos da dívida impagável que todos nós, enquanto sociedade e humanidade, temos com o povo negro que foi traficado da África para trabalhar como escravos nas terras invadidas pelos brancos. Já passou da hora de esta dívida ser compensada, de alguma forma.
***
P.S. Nos Estados Unidos, onde se passa essa história, o aspirante a ditador Donald Trump já está trabalhando para apagar tudo relacionado à escravidão, porque “menospreza” os americanos históricos, como George Washington. É o mesmo que um nazista se tornar presidente da Alemanha e resolver apagar tudo sobre o holocausto daquele país, derrubar os museus, porque “mancham” a história alemã. Só que é conhecendo as mazelas do nosso passado histórico que a gente consegue 1) compensar suas vítimas, 2) punir seus defensores e 3) evitar que se repitam.
“The Underground Railroad: Os Caminhos Para a Liberdade”
Colson Whitehead
ed. Harper Collins
312 páginas
R$ 41,58 na Amazon (preço consultado na data do post; sujeito a alterações)
Leia também:
- Minha seleção de livros para nos ajudar a refletir sobre racismo
- Os melhores filmes sobre racismo e resistência
➡ Quer reproduzir este ou outro conteúdo do meu blog em seu site? Tudo bem!, desde que cite a fonte (texto de Cristina Moreno de Castro, publicado no blog kikacastro.com.br) e coloque um link para o post original, combinado? Se quiser reproduzir o texto em algum livro didático ou outra publicação impressa, por favor, entre em contato para combinar.
➡ Quer receber os novos posts por email? É gratuito! Veja como é simples ASSINAR o blog! Saiba também como ANUNCIAR no blog e como CONTRIBUIR conosco! E, sempre que quiser, ENTRE EM CONTATO 😉
Descubra mais sobre blog da kikacastro
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





Cris, em nossa família, além de todos os motivos expostos no seu texto, temos outro motivo, pessoal, para não sermos racistas. No livro da família (“Minhas histórias de Castros, Cabrais e Morenos”), que escrevi há 10 anos, com distribuição reduzida aos parentes mais próximos, mostrei que somos descendentes de brancos, negros e índios. Com muito orgulho.
CurtirCurtir
Com muito orgulho mesmo!!!! ❤️👏🏽👏🏽👏🏽
CurtirCurtir
Li esse livro já faz bastante tempo, lá em 2018, e adorei como sua resenha me transportou para aquele tempo, como se a leitura tivesse recém sido concluída. Não sabia que tinha uma série. Vou tentar assistir. Belíssima resenha!
CurtirCurtir
Que bom, Pudima, fico muito feliz por isso! Inclusive porque uma das razões para eu gostar de fazer resenhas dos livros e filmes é que minha memória é péssima, e quero sempre poder ser transportada de volta para as obras depois de algum tempo 😀 Obrigada!!!
CurtirCurtir