- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
Eu tinha 13 anos quando dei meu primeiro calote. Primeiro e único, diga-se de passagem, porque nunca mais fiquei devendo nem um centavo para ninguém.
Inclusive meu primeiro emprego formal, aos 19 anos, foi em um banco e uma das funções que exerci por mais tempo lá foi de renegociadora de dívidas. Eu era a pessoa que oferecia a boia para os inadimplentes que estivessem se afogando.
Mas, aos 13 anos, como eu ia dizendo, eu dei um calote.
Na época, eu estudava na Escola Estadual Barão do Rio Branco, na sétima série do Ensino Fundamental (que hoje seria oitava série). No fim daquele ano de 1998, ia passar pelo processo seletivo para tentar uma vaga no Colégio Santo Antônio.
Estava bem nervosa, porque o CSA era tido como o colégio mais difícil de Belo Horizonte (até hoje tem essa fama). Além disso, eu sentia a pressão de ser a única da família a ir para uma escola particular, já que os quatro filhos sempre tínhamos estudado em escolas públicas, pelo menos depois da pré-escola.
Na prova só iam cair questões de português e matemática. Eu sempre fui boa aluna no Barão. Nunca tinha precisado fazer recuperação, por exemplo, e minhas notas eram sempre acima de 80%, 90%. Mas, quando vi o conteúdo que ia cair na prova de matemática do CSA, fiquei apavorada: eu não tinha aprendido NADA de geometria até aquela altura, NADA! Não sabia nem que a soma dos ângulos internos de um triângulo era 180°.

Eu estava tranquila com a prova de Português, a professora Beth Gressi tinha feito um ótimo trabalho nos três anos em que me deu aula. Mas não sei o que acontecia com a Matemática. Eu era tranquila em Álgebra, mas acho que os conteúdos de Geometria eram sempre deixados para o fim do ano, e acabavam de lado por causa de greves e afins.
Vendo o aperto, minha professora, a Telminha, se ofereceu para dar uma aula particular para mim e para o colega Leonardo, que também ia tentar a mesma prova. Eu nunca tinha feito aula particular, mas fui perguntar à minha mãe se ela pagaria. Se não me engano, o custo da aula era R$ 20 – montante que valia beeeeem mais que hoje em dia. Achei que minha mãe não ia topar, mas ela concordou.
E lá fui eu para a casa da Telminha num dia de semana à tarde. Lembro que ela focou a aula só em Geometria, e que continuei com muitas dúvidas. Mas o que mais lembro é que, em certo momento, o Leo tirou R$ 40 da mochila para entregar a ela. Eu fiquei branca. Morta de vergonha. “Não era R$ 20, Telminha?”. Ao que ela respondeu: “Era R$ 20 por hora, Cris. Como são duas horas de aula, o valor é R$ 40.” Mas me tranquilizou: “Não preocupa, não, depois você me paga o resto.”

Mas quem disse que eu paguei? Eu já estava achando caríssimo os R$ 20, achando que minha mãe nunca ia topar pagar uma aula particular pra mim com esse preço, imagina como que eu falaria com ela que, na verdade, eu tinha me enganado, e o valor era o DOBRO?
Resultado: preferi dar um calote na professora, que já não devia ganhar um bom salário, a enfrentar o risco de levar uma bronca da minha mãe.
(Claro que, se minha mãe soubesse disso, teria ficado ainda mais brava com minha péssima decisão. E claro que ela teria pagado a diferença de bom grado à Telminha. Mas vai dizer isso àquela menina de 13 anos?)
Não me lembro de nada mais relacionado ao calote depois desse dia. Por exemplo, não lembro de ter enfrentado as semanas finais de aula, vendo a Telminha todo santo dia, provavelmente morta de vergonha, e sem nunca pagar a diferença dos R$ 20 para ela. Tampouco lembro de ela ter me cobrado o valor. Só lembro que fiz a bendita prova para o CSA e passei, mesmo tendo deixado várias questões – de Geometria – em branco. Ou melhor, com um mesmo recadinho repetitivo: “Ainda não aprendi essa matéria na minha escola”.
Telminha era uma professora ótima, que me deu aulas na quinta, sexta e sétima séries. Tinha um sotaque que remetia ao Nordeste, mas não lembro se ela era de algum estado nordestino ou se era de alguma cidade do Norte de Minas, cujo povo tem o mesmo jeito bonito e cantado de falar. Ela tinha estatura baixa, era magra e forte – gostava de usar calças justas, que destacavam seu corpo malhado – e usava os cabelos soltos, cheios de cachinhos dourados. Tinha uma risada alegre e aberta, e tratava os alunos com muito carinho.
Não tenho notícias dela desde que deixei de ser aluna do Barão, há 26 anos, mas espero que esteja viva, bem e que este texto, de algum jeito, chegue até ela, para que saiba que eu não queria, eu juro, ter te dado um calote, Telminha, e gostaria de me redimir te convidando para um café bem gostoso, numa tarde agradável como aquela de 1998. (E desta vez eu pago a conta, prometo.)

P.S. Feliz Dia dos Professores à Telminha e a todos os outros mestres que tanto nos marcam ao longo da vida! ❤
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Excelente homenagem à professora Telminha. Lamento o calote. Não sei por que não me pediu o dinheiro na época, Cris. Tenho certeza de que teria dado.
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Também não faço ideia… Também sei que vocês dois teriam dado… Vai saber o que se passa na cabeça de uma menina de 13 anos!
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