Três personagens principais orbitam neste romance do argentino Andrés Neuman: Lito, um garoto que acaba de fazer 10 anos, Elena, sua mãe, e Mario, seu pai.
O livro é dividido em capítulos, que alternam as narrativas dessas três pessoas, tão diferentes entre si.
No capítulo de Lito, é ele quem narra em primeira pessoa. Um fluxo de pensamentos rápidos, ainda bastante infantis e ingênuos, vivendo uma grande aventura com o pai-herói a partir de seu ponto de vista leve.
Quando é Mario quem fala, jorra outro fluxo, desta vez de palavras, ansiosas para sair, apressadas, e aos poucos vamos descobrindo que é porque ele está gravemente doente – está morrendo. Seu tempo é curto e ele quer falar tudo aquilo para seu filho, mas está claramente falando sozinho.
Quando é a vez de Elena, conhecemos uma mulher exausta, angustiada, preocupada e triste. Mario e Lito saíram em uma última viagem, ela está sofrendo como a cuidadora de um doente e como uma quase viúva, prestes a perder uma pessoa amada. Suas palavras são mais organizadas que as dos outros personagens, e descobrimos que é porque ela as escreve.
E assim o livro vai correndo, com os três personagens – e suas narrativas tão distintas, tão únicas, como se viessem de escritores diferentes – se revezando. E revelando um pouco mais de suas histórias, a cada novo fluxo de palavras.
Frases e pensamentos do livro ‘Falar sozinhos’
O título do livro não é aleatório: estão sempre falando sozinhos. Não há diálogos, ao menos não no estilo normal de um diálogo. Há descrições de conversas, de encontros com terceiros, mas são sempre os pensamentos em primeira pessoa, os mais íntimos possíveis, daí porque às vezes tão brutais em sua sinceridade.

No meio desse processo, somos brindados, como leitores, com algumas reflexões interessantes sobre filhos, trabalho, amor, vida, morte, luto, doença. Esses ingredientes que nos tornam humanos.
Com frases como estas, que surgem inesperadamente entre outros pensamentos:
“Às vezes tenho a sensação de que a maternidade é um buraco negro. Nunca basta o que você coloca nem sabe onde vai parar.”
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“Nos trabalhos, filho, diz ele, há muitas coisas que não têm sentido. Por isso mesmo lhe pagam, entende?”
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“Dia após dia você coloca o melhor (e o pior) que tem em seu filho. E enquanto isso se pergunta: será que ele nota? Isso ficará? Isso lhe fará algum bem? E também, porque você não é nenhuma santa: ele saberá reconhecer isso? Agradecerá? Vai querer cuidar de mim?”
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“Às vezes tenho a impressão de que os médicos não falam para que você entenda o que está acontecendo, mas para que demore um pouco mais a entender. Talvez, enquanto isso, com sorte, a doença se cure.”
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“não sei para que diabos ensinamos nossos filhos a se comportar como nós, se já sabemos que não somos felizes”
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“desde o dia em que lhe dão o diagnóstico, o mundo se divide imediatamente em dois, o grupo dos vivos e o grupo dos que vão morrer logo, todos começam a tratá-lo como se já não fizesse parte do clube deles, agora é do outro”
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“Fazer-se companhia não consiste em presenciar grande momentos. A verdadeira companhia é o outro. Compartilhar um sincero não fazer nada.”
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Teve ainda uma frase, que não anotei (e já devolvi o livro à biblioteca), que era sobre como o ente que já se foi continua vivo, dentro de nós, como se tivesse se incorporado ao nosso organismo. Achei essa visão muito bonita.
Ensinamentos sobre doença, morte e luto
Enfim, este é um livro que conta uma história de vida, de amor e de morte. Conta do luto também. De como ninguém, absolutamente, parece estar preparado para acolher o luto dos outros.

Elena gosta de ler e de sublinhar as frases que a tocam mais. Sobre o despreparo para lidar com o luto, ela sublinhou estas, de um romance de Javier Marías:
“Os efeitos duram muito mais do que a paciência dos que se mostram dispostos a ouvir.” e “Qualquer desgraça tem prazo de validade social, ninguém está feito para a contemplação da pena (…) esse espetáculo é tolerável durante uma temporada, enquanto há ainda nele comoção e certa possibilidade de protagonismo para os que assistem, que se sentem imprescindíveis, salvadores, úteis”.
Quando peguei este meu primeiro livro de Neuman para ler, não sabia que era sobre luto. Recentemente, tenho lido muitos livros com esse tema, às vezes sem querer: “A Livraria Mágica de Paris“, “O Ano do Pensamento Mágico” e “Fundo do Poço: o lugar mais visitado do mundo“.
Perdi alguém recentemente? Tenho algum parente muito doente? Eu mesma estou prestes a morrer? A resposta é negativa para as três coisas. Mas tampouco considero as leituras mórbidas, ou fúnebres.
Para mim, são aulas. Aulas que todos deveríamos ter, mas ninguém nos ensina nada disso, nunca, e, quando um dia acontece de perdermos alguém que amamos muito, o chão se abre.
“Ninguém lhe ensina essas coisas. A adoecer, a cuidar, a despejar, a despedir, a velar, a enterrar, a cremar. Pergunto-me que merda nos ensinam.”
E, além disso, ao ler um livro tão íntimo sobre a doença e a morte, aprendemos a valorizar a vida de um jeito intenso. E a olhar e enxergar os cuidadores dos doentes de uma maneira diferente também, mais piedosa, porque eles também estão meio mortos naqueles momentos.
Só não gostei muito da reação que o autor infligiu a Elena, a personagem mais interessante, para essa cruz que ela estava carregando. Para aguentar tanta angústia, ele a fez mergulhar no sexo. Em um tipo de sexo muito bruto e masculinizado, a meu ver. E aí lembro que é um homem escrevendo sobre a mente e as reações de uma mulher, e entendo. Carece de verossimilhança.
Apesar dessa observação, trata-se de um livro bonito, e muito bem escrito. Também sobre como construímos as memórias afetivas para nossos filhos. Sobre como podemos nos manter vivos mesmo muito depois de mortos.
Isso, também, ninguém nos ensina.
‘Falar sozinhos’
Andrés Neuman
Ed. Alfaguara
163 páginas
R$ 31,90 na Amazon
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