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‘Round 6’: um espelho sombrio da sociedade, por Douglas Garcia

Hoje o Douglas Garcia, professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e grande colaborador deste blog, traz mais uma de suas valiosas contribuições, desta vez com a resenha da série “Round 6”, da Netflix, que está dando o que falar. Leia a seguir.

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS!


 

 

 

“A essa altura do ano quase todos já sabem que a série coreana “Round 6” (Squid Game) é a mais vista da história da Netflix. Além disso, ela tem mobilizado discussões sociológicas e estéticas, além de preocupações quanto à exposição de crianças ao conteúdo. De todo modo, a novidade se impõe como um fenômeno cultural e surgem especulações a respeito do seu significado.

Por falta de conhecimento detalhado da produção audiovisual sul-coreana, abstenho-me de abordar as referências estéticas e as relações de “Round 6” com outros filmes e séries.

Vou pressupor que o eventual leitor conhece a sinopse da série. O que se segue são comentários de aspectos que remetem à estrutura da situação criada pela história contada na série, e como as dinâmicas geradas por essa estrutura desencadeiam situações de exceção, que a negam e, ao mesmo tempo, a fortalecem.

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Em primeiro lugar, e, aparentemente, a estrutura da situação é de igualdade diante da regra: todos os jogadores assinam um contrato pelo qual aderem incondicionalmente a três regras simples: 1. O jogador não pode parar de jogar; 2. O jogador que quiser sair do jogo no meio da ação será eliminado; 3. O jogo pode ser interrompido caso, em votação, a maioria decida que é hora de parar. Essa suposta igualdade implicaria imediatamente o caráter de liberdade, e, portando, de ausência de coerção: são os jogadores que decidem entrar no jogo.

Se “no papel”, a igualdade justa impera, assim que pisam no “palco” do primeiro jogo, os jogadores percebem que a situação não é bem essa: desigualdades de força física, coordenação motora, dentre tantas outras, se impõem – atingindo desigualmente os jogadores – primeira inversão da igualdade em desigualdade. Até aí, o espectador acompanha a “consciência” dos jogadores.

Não para por aí: essa consciência é “superada” no último episódio, quando o espectador descobre que toda a situação já era desigual desde o início, uma vez que Il-Nam, o jogador número 001, até então um simpático e frágil idoso, assume sua verdadeira identidade de idealizador e comandante do jogo, no interior do qual pôde gozar imunidade plena (há bons vídeos no YouTube que indicam essas cenas em que ele joga “imunizado”) – segunda inversão da igualdade em desigualdade.

A figura de Il-Nam, o jogador/dono do jogo é particularmente reveladora, a respeito das inversões de “Round 6”: quando o acompanhamos na condição de espectadores “ingênuos”, vivenciamos toda uma gama de sentidos associados à confiança de quem, apesar de todas as violências visíveis a cada um dos competidores, tem razões para continuar no jogo: com efeito, ele parece encarnar em sua figura os sentidos benévolos de uma infância passada (e perdida) entre brincadeiras inocentes, já esquecidas da maioria, e uma vida adulta associada às tradições da pequena comunidade do subúrbio, com seus valores familiares e seu trabalho humilde.

O jogador 001 parece ser o reservatório da confiança no jogo, aquele que seria o único portador de uma ponte para o abismo que se cavou entre o passado (de bondade e confiança) e o futuro cada vez mais incerto. Como o espectador só saberá ao final, há que desconfiar da confiança.

O jogador 218, Sang-Woo, muito diferentemente, aparece como a figura do “vencedor” do sistema, ainda que um vencedor ambíguo. A ele se associarão os sentidos da desconfiança em alguém cuja participação no jogo revela, ponto por ponto, o “segredo do sucesso” no sistema: mentira, trapaça, omissão e dissimulação. Assim, ele parece encarnar para o espectador a ruptura entre aparência (respeitável) e ação (desprezível), a exacerbação do interesse próprio, e a perda de qualquer laço de proximidade com o outro, mostrada em atitudes de frieza calculada.

A série insinua que essa ruptura se deu em algum lugar de sua vida adulta. Criança de subúrbio, afeita às brincadeiras de rua, ascende socialmente pelos estudos e se torna um gestor financeiro, alguém cuja frieza não impedirá de realizar operações ilegais e lesar seus clientes, levando-o a uma dívida colossal e, assim, a decidir-se a entrar no jogo. Como o espectador verá mais tarde, há que se confiar até mesmo além da desconfiança, pois seu último gesto, jogador já vencido, revelará certo grau de desprendimento.

Observemos, enfim, o personagem central da série, Gi-Hun, o jogador 456, herói e anti-herói, ao mesmo tempo. Para ele, olhamos desde o início com um misto de pena, desconfiança e simpatia. Capaz de roubar dinheiro da mãe para apostar em corridas de cavalo, também é capaz de dividir a pouca comida que tem com um cachorro. Ele aparece como o que os americanos chamam de loser em seus filmes, um perdedor do sistema. Desempregado e sem perspectivas, ele participa do jogo como um meio de saldar suas dívidas com agiotas e mafiosos, mas não só.

Ele joga também para tentar “dar o troco” nos mais fortes, naqueles que sempre vencem. Aos poucos, aparecem sinais de sua dignidade pessoal, como o fato de ter ficado desempregado por ter participado de uma greve violentamente reprimida pelo polícia. Ele parece ser o personagem mais mergulhado no presente do jogo. Como alguém que nunca deixou o ambiente humilde em que cresceu, ele sabe valorizar o calor dos relacionamentos, ao mesmo tempo em que aprende, com tristeza, a ceder ao interesse e à frieza.

Cabe somente ao espectador, no entanto, tomar consciência da síntese final, do sentido último do jogo. Como num grande Bacurau coreano, o “Jogo da Lula” (nome original da série) é, na verdade, um reality show de violência bancado por espectadores/patrocinadores internacionais, mascarados ricos que falam um inglês esquisito e se deleitam em um cenário kitsch com os jogos mortais que acompanham em tempo real.

Esse grande Bacurau, na verdade, é global. A estrutura é desvendada no último episódio da série. Se Gi-Hun aposta em corrida de cavalos, no primeiro episódio, ele descobre que também é um “cavalo” em um jogo de aposta, como lhe é dito explicitamente pelo personagem de Il-Nam.

Há muitos outros personagens e situações interessantes na série. Restringi o foco a esses três para tentar indicar o quanto a inversão entre igualdade e desigualdade, confiança e desconfiança, justiça e injustiça, reciprocidade e egoísmo é um eixo central que estrutura a série como um todo.

Nesse sentido, a série talvez possa ser lida como um ensaio de crítica social ao capitalismo, não em sua generalidade abstrata, mas na forma concreta e específica que ele assumiu no início do século XXI. Um capitalismo em que tradição, comunidade, humanidade e trabalho são progressivamente desvalorizados em prol de uma dinâmica de desregulamentação, financeirização, e mistura promíscua de poder econômico e político.

Assim, Round 6 funciona como um espelho sombrio, um Black Mirror de nossos temores e inseguranças, não só para com o presente, mas também em relação ao futuro.”

 


Você também escreve resenhas, contos, crônicas, poemas, análises…? Envie para meu e-mail e seu texto poderá ser publicado aqui no blog, na seção de textos enviados pelos leitores 😉

 


Veja o trailer oficial de “Round 6”:

 

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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

2 comentários em “‘Round 6’: um espelho sombrio da sociedade, por Douglas Garcia Deixe um comentário

  1. Texto muito bom!
    Terminei de ver a série e lembro de ter visto um comentário sobre a produção não ser excelente, mas ser bastante cativante.
    Não é uma das minhas preferidas, mas, a cada análise, gosto mais.

    Curtir

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