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Uma crítica para a série ‘Dark’, sucesso mundial da Netflix

 

Hoje o Douglas Garcia, professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e grande colaborador deste blog, traz mais uma de suas valiosas contribuições, desta vez com a resenha da série “Dark”, que está fazendo o maior sucesso. Mas ele não achou a série tão boa assim… Veja por quê:

 

A série “Dark”: mão e contramão

Por Douglas Garcia

Dark é o nome de uma série televisiva alemã da Netflix que se tornou um sucesso mundial. Ela tem três temporadas, com 26 episódios de 50 a 70 minutos cada. É difícil falar dela sem dar spoilers da trama, mas vou tentar fazer um balanço da série sem revelar fatos além daquilo que é mostrado logo no primeiro e no segundo episódios.

Farei, primeiramente, um esboço da via de “mão”, isto é, dos aspectos positivos da série, que indicam suas qualidades e explicam a sua recepção positiva global. Gostaria de argumentar, no entanto, que é preciso atentar para seus aspectos negativos, isto é, sua via de “contramão”.

MãoDark tem ótimos atores e atrizes, crianças, adolescentes, adultos e idosos. São atuações convincentes, que atraem o interesse do espectador. A fotografia e a direção de arte são muito boas, ajudando a criar o contexto visual de cada época que é mostrada na história. A trama de Dark é interessante, com sua adoção de quadros paralelos de séries de ações, seu vai-e-vem narrativo e sua inventividade. Além disso, a série tem referências culturais que não costumam aparecer no universo das séries televisivas, como citações filosóficas, reminiscências da tradição literária alemã e discussão de conceitos de física.

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ContramãoDark não apresenta nenhum personagem que não seja etnicamente do norte da Europa: não há nenhum negro, árabe ou asiático. Até mesmo os figurantes são todos brancos. A história se passa em uma cidade pequena da Alemanha, a fictícia Winden, e seu foco são as relações familiares e afetivas entre algumas poucas famílias da cidade. Todos os poucos personagens que não são nativos da cidade são retratados negativamente. Apesar da relação entre presente e passado ser um tema central da série, não há qualquer menção ao passado nazista da Alemanha: os longos anos de 1933-1945 são simplesmente “pulados”, como se não tivessem existido. Nem sequer suas consequências na vida das pessoas são indicadas, nem direta nem indiretamente.

Ainda na contramão: outro aspecto tematicamente importante da série é o da energia nuclear e seus potenciais efeitos destrutivos para o meio ambiente. A cidade de Winden é sede de uma grande usina nuclear, e há desde o início da série a suspeita de que ela, de algum modo, esteja envolvida com eventos perturbadores. No entanto, não há qualquer discussão mais efetiva do uso de energia nuclear, do seu significado político, econômico e social, nem das alternativas ecologicamente corretas, nada disso. A usina é representada como um objeto-tabu: um lugar misterioso e poderoso, inacessível. E não vai muito além disso.

Alguém poderia fazer uma objeção à “contramão” apontada aqui. Seria possível objetar que nada disso interessa a quem tem satisfação de espectador com a série. Em outros termos: um objetor poderia argumentar que os aspectos criticados acima não afetam a autonomia estética da obra, isto é, a sua qualidade de ficção que não tem, de princípio, compromisso com a realidade factual. É uma objeção razoável. Seria possível, de acordo com essa objeção, aprovar os aspectos positivos indicados acima e ter um prazer estético, mesmo ignorando os aspectos negativos apontados.

Gostaria de contestar essa objeção. A meu ver, a qualidade estética da série é comprometida pela ausência de representação da história e da sociedade. Isso se desdobra esteticamente, tanto no plano da forma quanto no plano do conteúdo.

No plano da forma, há uma aparência de polifonia, de pluralidade de vozes, que não se dá de fato, uma vez que o arranjo do narrador todo-poderoso faz com que essas vozes soem muito parecidas. Um índice disso é o pouco desenvolvimento dos personagens, que faz com que o espectador raramente consiga desenvolver uma concepção de suas motivações, e da pouca empatia que é possível estabelecer com eles a partir daí. Algo análogo se dá no que diz respeito à aparência de não-linearidade, de complexidade causal da trama, que esbarra, no fundo, com uma concepção muito tradicional de causalidade narrativa.

É no plano do conteúdo, no entanto, que as orientações políticas e estéticas da série revelam toda a sua limitação. Dark se mostra, ao final, como uma fantasia regressiva de comunidade e familiaridade. Toda a negatividade é cuidadosamente evitada, seja a da morte, seja a do outro, seja a do tempo.  Apesar das aparências de complexidade e profundidade, no fundo, ela apela para algo muito regressivo: o desejo de que toda mudança seja apenas aparência, de que tudo deva permanecer igual, mesmo que mude.

Dark menciona questões filosóficas importantes, como as do tempo, da identidade pessoal e da liberdade. O seu desenvolvimento, porém, não é acompanhado de uma necessidade interna à narrativa, permanecendo no nível da mera citação. Nem poderia ser, uma vez que, por um lado, os personagens são planos demais, do outro, todas as questões que vão além de laços de família são apagadas.

Parte do sucesso de Dark virá, talvez, daí: de gratificar a fantasia de que é possível viver como se a história e a sociedade humana – e suas diversidades – não existissem.

 


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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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