Dois cegos mortíferos: FHC e Bolsonaro

Fernando Henrique Cardoso e Jair Bolsonaro, em fotos da Wikimedia.

Texto escrito por José de Souza Castro:

Fernando Henrique Cardoso e Jair Bolsonaro, em fotos da Wikimedia.

O que têm em comum os governos Jair Bolsonaro e Fernando Henrique Cardoso? A cegueira. É o que revela o físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, professor emérito da Unicamp e presidente de honra do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, em artigo publicado neste domingo (7) na “Folha de S.Paulo”. Uma cegueira cuja relevância se revela numa pandemia que já matou mais de 230 mil brasileiros indefesos.

Qual foi a cegueira de FHC? Para falar sobre isso, o físico recorre à história. Volta à Guerra das Malvinas, na qual Inglaterra e Argentina disputaram, entre abril e junho de 1982, o domínio sobre uma ilha no Atlântico. O Brasil era governado pelo último dos ditadores, o general Figueiredo, que não participou claramente do conflito, embora apoiasse ideologicamente seus colegas argentinos.

Inglaterra e Estados Unidos bloquearam a exportação de fármacos e remédios para a Argentina, lembra Cerqueira Leite.

“Preocupado com a perspectiva de que pudesse acontecer algo semelhante com o Brasil, o governo Figueiredo aprovou um amplo projeto do desenvolvimento da capacidade tecnológica nacional no setor de fármacos. O governo emprestaria recursos financeiros às empresas do setor, que se associariam a instituições de pesquisas, remunerando-as com os empréstimos. Entrando em produção os produtos desenvolvidos, o governo federal seria reembolsado”, explicou o autor.

E o que fez o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que eu admirava pelos seus artigos no jornal “Opinião”, um semanário criado em 1972 para fazer oposição à ditadura e que sucumbiu, somente o jornal, dois anos antes da posse de Figueiredo? Primeiro, em 1993, disse a empresários para esquecerem o que havia escrito antes. Depois… Vale transcrever a parte final do artigo de Cerqueira Leite:

Todavia, assumiu em seguida [ao nacionalista Itamar Franco] o “príncipe dos sociólogos”, Fernando Henrique Cardoso, que, ansioso em agradar o patrão americano, promoveu a aprovação pelo Congresso Nacional de legislação sobre propriedade intelectual lesiva aos interesses nacionais.

China e Rússia se negaram a assinar o acordo de propriedade intelectual de interesse dos países hospedeiros das multinacionais do setor farmacêutico. A Índia aceitou, porém manteve a consentida proposta de quarentena por dez anos, o que lhe permitiu consolidar a sua indústria nascente de fármacos. O Brasil, generoso, servil, abdicou da quarentena. ​Bill Clinton ficou feliz.

Em seguida, 1.050 estações de produção de química fina (à época, na maior parte, fármacos) foram extintas e 300 projetos, já aprovados, interrompidos (o levantamento é do próprio governo FHC).

Divulgou-se então um aumento de quase 1% do PIB na aplicação às pesquisas. Mentira descarada. Denunciei, nesta Folha, que atribuíra-se à Ciência e Tecnologia um estímulo (doação) às montadoras multinacionais de veículos, quase US$ 2 bilhões. Enquanto isso, o Sistema Nacional de Pesquisas agonizava, à míngua de recursos.

Se Fernando Henrique Cardoso contribuiu decisivamente para o atraso tecnológico atual do Brasil no setor de medicamentos, Bolsonaro estará acabando com o futuro do Brasil, definitivamente, com o contingenciamento do FNDCT. Fármacos são mais importantes para a segurança nacional do que pólvora.

 

Como destruir o desenvolvimento científico do Brasil, em dois governos. Foto ilustrativa:
Bill Oxford

Acho que ficou bastante clara, neste ponto, a analogia entre os governos dos dois cegos – e não vale aqui lembrar “Ensaio sobre a Cegueira”, romance de José Saramago publicado dois anos depois do pedido de FHC aos empresários. Ambos são mentirosos. Ambos são fanáticos pelos Estados Unidos e seus governantes neoliberais. E os dois disputam para ver quem entrega mais riquezas brasileiras para as multinacionais americanas.

Na minha modesta opinião, não há entre os dois um mais cego que o outro. Nem mais tosco!

 

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Por José de Souza Castro

Jornalista mineiro, desde 1972, com passagem – como repórter, redator, editor, chefe de reportagem ou chefe de redação – pelo Jornal do Brasil (16 anos), Estado de Minas (1), O Globo (2), Rádio Alvorada (8) e Hoje em Dia (1). É autor de vários livros e coautor do Blog da Kikacastro, ao lado da filha.

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