O método Bolsonaro, segundo Thaís Oyama

Imagem do rosto de Jair Bolsonaro.
Prioridade de Bolsonaro era proteger sua família de ser investigada por esquemas de corrupção, diz relatório de entidade internacional. Foto: capa do livro 'Tormenta'.

Texto escrito por Douglas Garcia, professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e colaborador frequente deste blog, sobre o livro ‘Tormenta – o governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos’:

 

O presidente Jair Bolsonaro é um político que desperta reações fortes. É praticamente impossível ser indiferente a ele. Seus muitos apoiadores o celebram como um ungido de Deus, um “Mito”, alguém cercado do carisma dos seres especiais. Seus críticos o veem como um político simplório, incapaz de discernimentos mais sofisticados, mais conduzido pela intuição do que pela razão.

Thaís Oyama, com seu livro “Tormenta – o governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos”, fez um excelente trabalho jornalístico de investigação. O livro cobre a campanha do então deputado federal, sua eleição à presidência e o primeiro ano (2019) do seu mandato. Para ilustrar o seu método de trabalho, destaco duas observações da jornalista sobre seu “tema”, o presidente Bolsonaro.

Bolsonaro gosta muito do programa “A praça é nossa”, do SBT, observação que Oyama capta a partir de uma ida espontânea e inesperada dele, como presidente, a uma sessão solene do Congresso que homenageava o humorista Carlos Alberto de Nóbrega. Bolsonaro gosta muito de pesca, especialmente da pesca da tilápia, observação que ela toma a partir da grande quantidade de menções ao assunto dentre os temas abordados pelo presidente em suas “lives”.

O que isso diz sobre o método de Oyama? Duas coisas. Em primeiro lugar, que todos os relatos de eventos e falas são sustentados por notícias, registros audiovisuais ou depoimentos de interlocutores e assessores diretos do presidente. Nas notas finais, ela indica suas referências. Em segundo lugar, que o registro de fatos muito pequenos é valioso por compor um grande mosaico de referências, nos quais a figura pessoal e o método do presidente são vislumbrados, ao final da leitura do livro.

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General Heleno, em foto de Antonio Cruz, da Agência Brasil – 6.11.2018

Nem Mito, nem simplório, Bolsonaro aparece no livro como um político astuto, capaz de fazer alianças cruciais para o crescimento de seu capital político, como é o caso com os pastores que lideram algumas das igrejas evangélicas brasileiras, por um lado, e, por outro, com os protagonistas do mercado, por meio da figura de Paulo Guedes, e, não menos importante, com os setores mais influentes do alto oficialato das Forças Armadas, principalmente por meio dos generais Augusto Heleno e Villas Boas.

O livro esmiúça os detalhes de como ocorreram essas aproximações, em que os contatos pessoais e lances de acaso desempenharam papel importante. Nessa dimensão, o método Bolsonaro é o do cálculo racional de apoios e alianças: ele é eficiente na captação de pessoas que funcionam como enablers, como viabilizadores de seus projetos político-eleitorais.

Há uma outra dimensão, que corre paralela a essa. Oyama detalha como o presidente é bastante competente no que se poderia chamar de gestão das emoções do eleitorado, que ele enxerga como um público consumidor de paixões políticas fortes, como o medo, o ressentimento, a desconfiança e a raiva.

Nessa dimensão, o método Bolsonaro é o da mobilização permanente da adesão dos seus eleitores e captação de novos apoiadores, o que ele consegue fazer em duas etapas: na primeira, acompanhando diariamente a repercussão das suas falas e ações nas redes sociais, as menções positivas e negativas, os novos apoiadores, os temas que repercutem melhor etc. Na segunda etapa, aparecendo o máximo possível nas mídias tradicionais e nas suas redes sociais pessoais, com declarações fortes, capazes de suscitar compartilhamento elevado da sua agenda política e ideológica, gerando adesão emocional e dirigindo as pautas da imprensa.

Charge do Duke sobre uma das declarações públicas mais emblemáticas de Bolsonaro

O método de investigação e de escrita de Thaís Oyama, que é claro, transparente e objetivo, assim, ajuda a desvendar o método Bolsonaro, que parece intuitivo e aleatório, mas é racional até mesmo quando não parece. Ou melhor, principalmente quando não parece.

O presidente parece, assim, jogar ao mesmo tempo em dois tabuleiros: o do jogo da composição política e institucional de alianças (principalmente com o Congresso), que é feito sem muito estardalhaço, mas com senso de cálculo político – e, além desse, o do jogo da opinião pública, que é, ao contrário, bastante ruidoso, com participações frequentes em atos públicos de apoiadores da pessoa do presidente (desde os primeiros meses do governo, como o livro mostra), bem como intensa postagem de mensagens em suas redes sociais, “lives”, entrevistas televisivas, com notável senso de comunicação.

Se o leitor de 2020 achar que o livro trata de “águas passadas”, é melhor rever seus conceitos. Em primeiro lugar, como já disse, o livro ajuda a compor o quebra-cabeças do “método Bolsonaro”. Além disso, ele aborda pontos importantes da relação do presidente com seus filhos políticos, com Sergio Moro, e com aliados que, em algum ponto do caminho, se distanciaram do governo e das relações pessoais do presidente. Não pretendo dar spoilers. Deixo à curiosidade do leitor que encontrará aqui excelente matéria de pensamento.

 

Tormenta – o governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos
Thaís Oyama
Editora Companhia das Letras, 2020
272 páginas
R$ 27,45 na Amazon


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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

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