Mais algumas razões do Golpe Paraguaio no Brasil

golpe

Texto escrito por José de Souza Castro:

Em fevereiro de 2015, alertei aqui que a presidente Dilma Rousseff podia sentir na pele o golpe Paraguaio. Ou seja, que ela poderia ser derrubada pelo parlamento, com as bênçãos dos Estados Unidos.

Agora leio AQUI um artigo do geógrafo norte-americano Brian Mier, editor da “Brasil Wire“, em que aponta fortes indícios dessa ajuda de Tio Sam, e conclui:

“Apesar de que talvez não haja provas concretas suficientes e disponíveis para fazer um argumento totalmente convincente sobre o envolvimento dos Estados Unidos no golpe de 2016 contra Dilma Rousseff, certamente existem provas suficientes para se especular sobre esta possibilidade. Será que os Estados Unidos se beneficiam com as novas políticas deste governo? Com certeza. Ele tem motivos para apoiar o golpe? Sim. Elementos do estado expandido norte-americano, como a imprensa burguesa, solaparam os pilares do governo Brasileiro? Sim. Será que o governo dos Estados Unidos foi diretamente envolvido nesta desestabilização? Neste momento as únicas provas concretas são as correspondências do Departamento de Estado dos EUA implicando Sergio Moro, embora o nível deste envolvimento ainda não seja claro. Entretanto, sob o risco de ser acusado de um teórico de conspiração, eu previno que com a passagem de tempo, como no caso do Golpe de 1964 no Brasil e do golpe de 1973 em Chile, mais e mais provas de envolvimento dos Estados Unidos na mudança de regime de 2016 vão subir até a superfície.”

Um ponto significativo do artigo são os interesses em jogo que poderiam levar a Casa Branca a agir no e contra o Brasil. Transcrevo, também com as devidas correções de erros gramaticais observados na tradução:

1) Petróleo. O Brasil tem enormes depósitos de petróleo na bacia de Santos, o pré-sal, que antes do golpe de 2016 estava nas mãos de uma empresa que, embora seja de capital misto, continuava 100% brasileira, a Petrobras. Depois do golpe, a Petrobras começou a vender acesso aos seus depósitos de pré-sal para empresas estrangeiras por preços abaixo do valor de mercado. O envolvimento do José Serra, ministro de Relações Exteriores pós-golpe, em articulações de longo prazo com a empresa Chevron e o Departamento de Estado dos Estados Unidos, encorajou a privatização e o abandono da lei do pré-sal, tudo documentado aqui.

2) Enfraquecimento dos BRICS. Antes de o Brasil ser desestabilizado e as economias da China e Rússia diminuírem o crescimento, pareceu que os BRICS estavam se transformando em um poderoso contrabalanço ao poder estadunidense no palco mundial. Nesse momento, as economias das nações que compõem os BRICS, somadas, quase igualaram à norte-americana, e o Brasil era seu segundo membro mais rico. Os Estados Unidos tradicionalmente preferem negociações bilaterais às negociações com blocos comerciais. Um argumento similar pode ser feito sobre o desejo de enfraquecer o Mercosul.

3) Os Estados Unidos sempre intervieram em assuntos brasileiros. Em seu novo livro best-seller, O Quarto Poder, Paulo Henrique Amorim documenta os 70 anos de penetração norte-americana nos assuntos políticos e econômicos brasileiros. Em “US Penetration of Brazil”, Jan Black conta em detalhes o apoio e envolvimento estadunidense com a ditadura militar brasileira, incluindo treinamento em técnicas de interrogatório e tortura para milhares de policiais e militares brasileiros, em lugares como a Escola das Américas. Apesar do fato de que a China tenha ultrapassado os Estados Unidos como o maior parceiro comercial do Brasil em anos recentes, ainda serve aos interesses do setor empresarial norte-americano que os preços das commodities brasileiras se mantenham baixos e a produção industrial interna seja limitada para encorajar compras dos produtos norte-americanos.

4. Hegemonia. O governo petista foi caracterizado por uma economia política neodesenvolvimentista. Conquanto Lula mantivesse o tripé macroeconômico neoliberal de FHC e a autonomia para o Banco Central (movimento livre de capital e políticas fiscais rígidas), ele também havia implementado uma série de medidas tradicionalmente desenvolvimentistas que se aprofundaram durante os primeiros 4 anos da presidência de Dilma Rousseff. Estas incluem aumentos anuais do salário mínimo acima do nível de inflação, bilhões de reais de estímulos para produção e consumo industrial interno, estabelecimento de um sistema de bem-estar social e vinculação das pensões do INSS ao salário mínimo. Essas medidas redistributivas criaram uma majoritária população de classe média, pela primeira vez na história do Brasil, além de retirar o país do Mapa Mundial da Fome da ONU. Será que o fato de que o segundo maior país do hemisfério ocidental estava caminhando bem e em um sistema que não era 100% neoliberal foi uma pedra no sapato dos Estados Unidos? E se os norte-americanos começassem a exigir que, como no Brasil, as universidades fossem 100% gratuitas? E se eles demandassem que a comida das merendas escolares seja comprada exclusivamente dos pequenos agricultores, como é no programa brasileiro do PAA? O que aconteceria se eles exigissem que os pagamentos mínimos de pensão precisassem se igualar ao salário mínimo? O fato de que o Brasil estava andando bem e não seguindo ao pé da letra a fórmula do FMI/Banco Mundial era um tapa na cara do Consenso de Washington e seu dogma da TINA – There Is No Alternative (Não há alternativa) a isso.”

O primeiro motivo apontado é, a meu ver, o mais importante para o governo e a economia americana: o petróleo.

Sobre isso, recomendo a leitura desta reportagem de Joaquim de Carvalho, que revela mais coisas do presidente da Petrobras, Pedro Parente, sobre o qual escrevi AQUI e AQUI, no seu esforço para transferir bens da empresa – e dos brasileiros – a estrangeiros.

Bem ao gosto dos Estados Unidos. Os quais, em qualquer governo – e talvez mais no governo do empresário Donald Trump – sabem defender seus próprios interesses. Ao contrário do governo Temer, que dá mostras seguidas de não dar bola aos interesses da maioria dos brasileiros.

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