Adolescentes esquisitos e um ritual satânico

Não deixe de assistir: SEM EVIDÊNCIA (Devil’s Knot)
Nota 9

semevidencia

Sempre tomo bastante cuidado ao fazer uma resenha de filme aqui no blog, para não entregar demais, contar o fim, estragar surpresas para quem ainda não assistiu. Mas, para falar sobre este filme específico, não saberei manter este costume. Porque o que quero falar dele exige contar algumas coisas importantes sobre a história. É, portanto, mais um comentário para quem já assistiu ou para quem não liga nem um pouquinho para spoilers.

Se não for o seu caso, sugiro pular este post 😉 Só posso adiantar que o filme é muito bom e conta com dois ótimos atores nos papéis principais: Reese Witherspoon e Colin Firth.


 

A questão é que “Sem Evidências” deveria ser visto por todos os brasileiros, neste momento de fortalecimento de discursos tão selvagens, como os que pregam o justiçamento com as próprias mãos, a pena de morte e a redução da maioridade penal para idades cada vez mais… reduzidas.

O legal de filmes baseados em fatos reais é que nos levam a conhecer realidades diferentes das nossas e ver como lidam com questões complexas e se as soluções encontradas por eles são mesmo melhores do que as adotadas por aqui. Nos Estados Unidos, cada Estado tem sua legislação sobre pena de morte e tem sua própria idade penal. Segundo uma reportagem da Reuters de 2013, 32 Estados norte-americanos ainda adotam a pena capital. A idade penal varia entre 12 e 16 anos, segundo este levantamento do Ministério Público, mas já começam a questionar se não deveria ser maior.

O fato é que o filme “Sem Evidências” expõe o lado mais cruel da pena de morte e prisão perpétua voltadas para adolescentes: a possibilidade, nem tão remota assim, de os jovens serem inocentes e terem suas vidas destruídas tão precocemente.

O crime relatado no filme ocorreu em 1993, no Arkansas. Três crianças foram brutalmente assassinadas e amarradas de um jeito esquisito. Logo levantou-se a suspeita de que elas tinham sido usadas em um ritual satânico. Começaram a procurar os culpados e foi fácil achar que um grupinho de adolescentes metaleiros, fãs de bruxaria e bem esquisitinhos, se encaixaria perfeitamente como os donos das mentes doentias por trás de um crime tão estúpido.

Logo eles foram julgados e condenados por toda a sociedade local, pela afobada mídia e, obviamente, pelo júri popular. Anos depois, descobriu-se que foi o padrasto de uma das vítimas que cometeu os assassinatos. Os adolescentes condenados passaram 20 anos presos até que o DNA do padrasto fosse analisado. Foram soltos, por causa de um acordo, mas ainda não obtiveram perdão judicial.

Muitos são os filmes nos Estados Unidos que mostram as consequências terríveis de uma investigação e um julgamento equivocados levarem alguém inocente a anos de prisão ou à pena de morte. Outros casos ainda não viraram filmes, mas são encontrados aos montes em uma simples pesquisa no Google. Por exemplo, ESTE, ESTE e ESTE, todos recentes. os Estados Unidos podem ser um exemplo em muitas coisas, inclusive em como não agir.

Afinal, com nossa polícia brasileira sobrecarregada e ineficiente, quantos seriam nossos casos de inocentes, adolescentes ou não, no corredor da morte? Quantos deles seriam negros, pobres ou pessoas que foram condenadas apenas por serem “esquisitas”, como os jovens do filme?

Acho que qualquer criminoso está cometendo um ritual “satânico”, de certa forma. Principalmente quando deixa que outro — simplesmente mais “plausível”, que aplaque a sede de vingança da sociedade — pague pelo que ele fez.

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2 comentários sobre “Adolescentes esquisitos e um ritual satânico

  1. Assisti esse filme e achei super interessante. Adoro assistir os que são baseados em fatos reais, e nesse dá pra ter a sensação de como funciona os sistemas de punição, e a forma de como os pré-conceitos influenciam nos julgamentos. Simplesmente adorei o filme.

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    • Também adorei, Lu! Acho que filmes baseados em fatos reais nos ajudam a pensar sobre as diversas coisas surpreendentes que acontecem na vida, né? Seja num caso de crime, como neste filme, ou num caso de doença (como naquele super emocionante “Uma Prova de Amor” (My Sister’s Keeper), já viu?), ou num caso de aventura, como aquele “Na Natureza Selvagem” (sensacional!!!). Eu gosto particularmente desses casos de julgamento (sou fã da série Law & Order!), porque nos fazem pensar sobre como somos apressados em julgar logo quem é culpado ou inocente e como a vida pode ser bem mais complexa do que isso… Um abração!

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