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Desperdício indecente

Foto de Apu Gomes, publicada na "Folha" de 16.4.2011
Foto de Apu Gomes, publicada na “Folha” de 16.4.2011, mostra batatas e outros alimentos novinhos, ainda dentro de sacos, jogados debaixo de um viaduto ao lado do Mercadão paulistano.

Recentemente a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) divulgou que um terço de todo o alimento produzido no planeta é desperdiçado e que, ao mesmo tempo, quase 1 bilhão de pessoas passam fome todos os dias. Meu pai escreveu artigo sobre isso. E hoje li um post excelente, do sempre ótimo blog Grooeland, também refletindo a respeito.

Em termos de escala, a responsabilidade da indústria e dos restaurantes e mercados é muito maior do que a nossa, com nosso lixo residencial. Bom, mais ou menos. Li agora que pouco mais da metade de todo o lixo produzido no Brasil é o chamado lixo domiciliar, segundo dados do IBGE de 2000. Então nossa responsabilidade pelo descarte e, consequentemente, pelo desperdício das coisas, inclusive os alimentos, é muito considerável.

E quantos de nós temos consciência disso e adotamos práticas para evitar o desperdício? A começar pelo básico: todo mundo aí raspa o prato direitinho?, só coloca no prato o que vai comer?, guarda na geladeira o que sobrou do almoço para comer depois?, só cozinha comida nova quando toda a que estava na geladeira já foi consumida? As perguntas se tornam mais incisivas quanto mais ricos forem os interlocutores, porque o desperdício é proporcional à riqueza das pessoas. Olhemos, portanto, para nossos cotidianos e busquemos uma forma de corrigir eventuais abusos.

Mas o mesmo vale para restaurantes e mercados. Vejam o caso do Mercado Municipal de São Paulo. Fiz uma matéria em 2011, com o colega Apu Gomes, mostrando que, todos os dias, 22 toneladas de comida vão parar no aterro da cidade. Depois da venda por atacado do Mercadão, milhares de quilos de comida novinha, não vendida, vão parar debaixo de um viaduto — onde moradores de rua, principalmente (mas não só), aparecem para tentar aproveitar algo. Um deles, extremamente inteligente e esclarecido, que entrevistei, questiona acertadamente: “Podiam separar e dar pra gente carente. Jogam fora muita coisa boa”.

Deixo uma reprodução da matéria, que só saiu na versão impressa da “Folha”, abaixo. Acho que, junto com o post do Grooeland (que reforço ser de leitura obrigatória!), nos ajuda nessa reflexão mais velha que a serra e ainda tão preocupante:

“Xepa do Mercadão faz a festa dos moradores de rua

Acabou a feira no Mercado Municipal (região central de São Paulo) e os frutos amassados, muito maduros ou já murchos, que encalham nas bancas, são deixados pelos feirantes a 150 metros dali, no parque Dom Pedro 2º.
É uma montanha de batatas, tomates, mangas, cenouras, mamões e abacaxis, alguns ainda fechados em sacolas ou caixas, a maioria largada no chão, sob o viaduto.
Por trás dessa fartura abandonada, a indignação dos moradores de rua com o desperdício de 22 toneladas diárias de comida que, varridas como lixo, vão parar no aterro de Guarulhos, na Grande São Paulo.
“Podiam separar e dar pra gente carente. Jogam fora muita coisa boa”, afirma Levi Menezes, 43, enquanto come um abacate madurinho encontrado ali no chão.
Morador do local, Luiz Moura, 50, pega uma batata e dá uma mordida nela, crua. “Depois que lava, dá pra aproveitar.”
Donas de casa, aposentados e até gente aparentando ter dinheiro também passam por ali a partir das 6h, quando o Mercadão termina a venda por atacado, e a feira da rua, que dura toda a madrugada, também acaba.
Para dar conta de tanta comida jogada fora, cerca de 30 garis fazem a varrição, que começa às 6h30 na rua da Cantareira e acaba quatro horas depois, no viaduto.
As aposentadas Jacira, 50, e Conceição, 68, debruçam-se sobre um monte de quiabos no meio-fio e selecionam os melhores.
“A gente cata, lava com sabão, raspa, bota de molho no vinagre e cozinha. Ninguém nunca morreu, não”, afirma Jacira.
Joselito dos Santos, 46, seleciona mangas e batatas, lava e revende: um saco de 60 kg de batatas sai por R$ 10 (no Mercadão custa R$ 240) e uma caixa com 30 mangas, por R$ 7 (no “oficial”, chega a R$ 150).
Não demora e passa um homem, num Fiat Uno, e compra algumas jacas dele.”

Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

4 comentários em “Desperdício indecente Deixe um comentário

  1. Cris, nessa reportagem sua para a Folha, você encontrou um personagem “extremamente inteligente e esclarecido” entre os moradores de rua. Antes de ler seu post, eu havia ficado surpreso com uma reportagem no “Hoje em Dia” desta segunda-feira intitulada “Jovens sem estudo têm no lixo o ganha-pão”. Por causa dessa informação da reportagem, retirada de uma pesquisa feita pela Fundação João Pinheiro em 114 municípios mineiros, na qual foram entrevistadas 557 pessoas que vivem da cata do lixo em lixões: “mais de 20% dos mineiros que tiram o sustento do que é jogado fora são jovens de 18 a 29 anos e 57% não terminaram o ensino fundamental”. O que me surpreende é que, então, 43% dos jovens de 18 a 29 anos que tiram o sustento do que é jogado fora concluíram o ensino fundamental e, portanto, deveriam estar aptos a conseguir um emprego com carteira assinada num país de “pleno emprego”, conforme a propaganda oficial.

    Talvez a surpresa seja só minha, pois sou do tempo em que fazer o curso ginasial (ou seja, os quatro últimos anos do ensino fundamental) era coisa de gente privilegiada que estaria com o futuro garantido em nossa sociedade. Impressão que era reforçada pelo fato de que, entre todos os mais de cem alunos do ginásio em minha cidadezinha do Oeste de Minas, no final da década de 1950, só havia uma negra e colegas – e também eu – se perguntavam por que ela, ainda por cima empregada doméstica, estaria fazendo ginásio (Muito depois, soube que ela, essa garota excepcional, não estava perdendo seu tempo ali, pois se tornou professora.)

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    • Realmente, e não é porque o lixo dá tanto dinheiro assim, além de ser um trabalho arriscado e pesado, especialmente no caso dos carroceiros que trabalham com coleta de papelão. Talvez a propaganda oficial é que esteja errada…

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  2. Cris, muito obrigado por citar o meu humilde bloguezinho em seu texto. Não tenho muito a acrescentar além do que escrevi e também em sua postagem e matéria para a “Folha”; apenas a lamentar tamanho desperdício e rever até mesmo algumas de minhas condutas quanto ao consumo de alimentos – e alertar as pessoas.

    Falando em lixo, um colega professor leu o blog na escola e sugeriu que eu procurasse pelo filme “Lixo Extraordinário”, do qual eu não conheço. Pela sinopse parece ser muito interessante:

    http://www.lixoextraordinario.net/filme-sinopse.php

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