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10 observações sobre os protestos contra as tarifas de ônibus

Foto: Daniel Teixeira/AE
Foto: Daniel Teixeira/AE
  1. As tarifas estão mesmo exorbitantes, ainda mais para um transporte público tão ineficiente e ruim.
  2. 65% da população nas capitais dependem de transporte público, segundo estudo do Ipea de 2011.
  3. Mais da metade das famílias paulistas viam como problema o alto preço da passagem de ônibus em São Paulo, segundo estudo de 2004 (página 11). Na época, a tarifa custava R$ 1,70
  4. A tarifa de 2013, de R$ 3,20, é bem maior que a inflação acumulada de 332%, desde 1994, contrariando os argumentos do prefeito paulistano Fernando Haddad.
  5. Protesto é uma forma válida de reivindicar mudanças que afetam a uma maioria, como é o caso. Estamos acostumados a ver as manifestações na Turquia, França e Grécia como atos de coragem e luta pelos direitos dos cidadãos daqueles países, mas pouco fazemos pelos nossos direitos corriqueiros no Brasil, além das futricas via redes sociais, com suas ineficazes hashtags, ou marchas da maconha e das vadias. Resultado: é mais comum ver um jornal de fora, como o “El País”, dar destaque às reivindicações dos brasileiros do que ver um jornal local refletir sobre o mesmo, em vez de destacar apenas os vandalismos cometidos.
  6. Há como protestar e se manifestar sem vandalizar a cidade, que é de todos. Acredito que muitos dos que promovem esses atos de banditismo, como destruir pontos de ônibus e agências bancárias públicas, sejam movidos por organizações político-partidárias, com interesse em afetar a imagem ora dos tucanos (o governador Geraldo Alckmin, responsável pela PM paulista), ora dos petistas (o prefeito Fernando Haddad, responsável pelas tarifas de ônibus). Também acho que os vândalos sejam minoria, pelos relatos que li.
  7. Nem o vandalismo justifica ações agressivas coletivas como as que a PM vem tomando. Por exemplo, ao agredir e prender um jornalista no exercício da profissão, deter outros dois repórteres que se identificaram, prender outro, junto a 40, apenas porque “portava vinagre”espancar um gaiato que estava apenas observando os protestos etc. [Atualização na quinta (13/6) à noite: também atingiram o olho de uma repórter em plena cobertura, além de vários outros repórteres. A foto dela me chocou. Outro repórter-fotográfico provavelmente vai ficar cego, pelo mesmo motivo. Espancaram um casal que apenas tomava chopp num bar da Paulista. Bateram num engravatado que apenas deixava o serviço e ia pegar o metrô para casa. Jogaram bomba de gás num carro onde havia um senhor de 74 anos, que não queria protestar. Elio Gaspari diz a hora exata em que os confrontos começaram na quinta e afirma: 20 PMs chegaram ali exclusivamente para atacar. Não há mais dúvida de que eles começaram o conflito nesta quinta, sob ordens de…]
  8. Por outro lado, a truculência da PM tampouco justifica o linchamento que dez pessoas quase promoveram contra um policial sozinho, que fazia a vigília de um prédio público e apenas foi impedir uma pichação. A covardia é registrada em vídeo e texto.
  9. Dito tudo isso, recomendo a leitura do texto, muito mais completo, de Leonardo Sakamoto. Um trecho: “Não estou defendendo que interditar vias públicas de grande circulação é a forma correta de protestar até porque “forma correta de protestar” é por si só uma contradição. Para algumas pessoas e grupos sociais é a saída encontrada para sair da invisibilidade. Ao contrário do que muitos pensam, ninguém faz greve porque quer ver multidões plantadas no aeroporto, chegando atrasadas no emprego ou perdendo o ano letivo, da mesma forma que ninguém protesta pelo prazer de ver outros se descabelarem no carro. ”Ah, mas o congestionamento afetou a vida de mais gente, por isso é a notícia mais importante.” O conceito de relevância jornalística se perde em justificativas como essa, desumanizando a situação, quando o motivo do protesto nem é devidamente citado.” [Depois ele fez uma continuação ao post, AQUI].
  10. Por fim, protestar não resolve? Se as “primaveras” de outros países não nos servem de exemplo, fiquemos com o outono brasileiro e a seguinte luz (temporária) no fim do túnel: “MP vai propôr suspensão de tarifa em SP para evitar novos protestos“. E existem exemplos concretos, pelo mundo afora e até no Brasil, de cidades com transporte público gratuito, como reivindica o Movimento Passe Livre. Quem sabe um dia não teremos isso em mais cidades brasileiras?

Este é meu pitaco. Deixem o de vocês nos comentários 😉

Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

14 comentários em “10 observações sobre os protestos contra as tarifas de ônibus Deixe um comentário

  1. Cris, muitíssimo bem colocado o texto sobre as manifestações do MPL, aqui em Sampa. Tomei a liberdade de divulgá-lo citando, claro, a fonte. Parabéns!
    Na última terça-feira, eu estava presa no trânsito em plena Praça da Sé (local onde ocorria a manifestação) e, indubitavelmente, o que me deixou apavorada foi a ação da PM, os manifestantes estavam “na boa”, mas, quando se quer protestar por direitos e se é recebido com bombas de efeito moral, armas com balas de borracha e policiais violentos, muitos perdem o controle. Os confrontos sempre aconteceram após a PM agir com truculência. Não dá para criminalizar o movimento como um todo tendo como base uma parcela.
    Eu passei a utilizar meu carro como transporte de ida e volta ao trabalho desde 2009, pela inviabilidade de utilizar o caótico transporte público, quando o prefeito Kassab tirou os ônibus fretados de circulação (que eu utilizava há anos). http://www.pco.org.br/nacional/em-mais-uma-medida-ditatorial-kassab-proibe-fretados-de-parar-nas-ruas/isyp,b.html
    “O que vimos foi uma ação policial baseada na truculência e na violência, o que constituiu um abuso contra as liberdades democráticas e um ataque violento à liberdade de imprensa”:
    http://www.diariodeguarapuava.com.br/noticias/brasil/2,28011,12,06,jornalista-do-portal-aprendiz-e-preso-durante-manifestacao-no-centro.shtml
    Em 2011 petistas afirmaram que as planilhas dos gastos com transporte público estavam superfaturadas… “Kassab não justifica PLANILHA CONTESTADA POR VEREADORES DO PT… 8 de abril de 2011, cerca de 150 manifestantes do Comitê de Luta Contra o Aumento de Tarifa realizaram 0 11º movimento do ano”…
    http://transporteparatodospoa.blogspot.com.br/2011_04_01_archive.html
    Resta-nos parabenizar os Srs. Haddad e Alckmin pelo belo trabalho de repressão da polícia, por ouvirem o povo, por defendê-lo e por se preocuparem tanto com a mobilidade urbana no município de São Paulo (LOL), lembrando que hoje, parte da CPTM está em greve.
    Depois de presenciar a guerra que foi o último protesto, ainda me resta um pouco de esperança num futuro melhor, por ver que a maioria dos que estavam ali reunidos era composta de jovens lutando pelos direitos da população. Não faz lembrar os relatos dos movimentos estudantis nas décadas de 60 e 70?
    CRIS, obrigada por preciosas pérolas que você nos agracia através do seu blog.

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  2. Cris, hoje começamos o dia em SP com greve de trem… também sou usuária de transporte público, é mais rápido. De Santo André a SP pego duas conduções, R$ 3,00 para ir e R$ 3,00 para voltar, por todo o trajeto. No trabalho, concordamos que não é caro. Pelas imagens vejo pessoas tomando cerveja nas manifestações e a Avenida Paulista está pichada e quebrada, não entendo, sou trabalhadora e a empresa arca com parte do meu transporte. Os estudantes pagam meia, e muitas vezes quem arca com essa despesa são os pais. Gostaria de saber quem são esses manifestantes…

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  3. Cris, concordo com você pois, infelizmente, se os manifestantes estão “sem controle”, a polícia, que deveria ser treinada para essas situações, está totalmente descontrolada e despreparada.
    Fotógrafo ferido em manifestação corre risco de ficar cego:
    http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/06/fotografo-ferido-em-manifestacao-corre-risco-de-ficar-cego-diz-mulher.html
    “Ciclista passa por cirurgia após ser agredido durante manifestação”:
    http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/06/ciclista-passa-por-cirurgia-apos-ser-agredido-durante-manifestacao.html
    E a manifestação não vai parar por aí.

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  4. Minha cara Cris,
    dias difíceis esses … mas sinto que eh só assim que nossa Pindorama se move…só através de dias difíceis…pois sem eles somos cooptados por corruptos e falastrões. Protestos ao meu ver são bemvindos eh com eles que saímos dessa letargia copamundense e essa hipocrisia novorica que se apossou desse pais… As reinvindicacoes em forma de revolta tem uma razão…isso eh facto…por isso minha cara dias difíceis ainda estão por vir…e que venham…pois quem sabe nos trara uma outra Pindorama…mais justa…menos corrupta…menos abstrata…menos faraônica…se eh que me fiz entender…
    Saudações desde aqui de Brasilia…

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