Quando o atropelador é a vítima

Land Rover que atropelou Vitor Gurman, em julho de 2011, logo após o acidente numa rua tranquila de São Paulo. Reparem na placa de 30 km/h logo atrás. Para a Polícia, a motorista tinha bebido. Ela diz que ingeriu "apenas uma margarita" naquela noite. Foto de Silvio Portante/Folhapress.

Land Rover que atropelou Vitor Gurman, em julho de 2011, logo após o acidente numa rua tranquila de São Paulo. Reparem na placa de 30 km/h logo atrás. Para a Polícia, a motorista tinha bebido. Ela diz que ingeriu “apenas uma margarita” naquela noite. Foto de Silvio Portante/Folhapress.

Quem acompanha este blog sabe como defendo com veemência a punição aos motoristas que dirigem embriagados. Já defendi por aqui, por exemplo, que a idade mínima para se obter a CNH — que não é um direito, mas uma licença provisória, e sob condições, como gosto de frisar — fosse ampliada, para tentar englobar um grupo de motoristas mais maduros (considerando que todo limite legal de idade é aleatório). Também já defendi que motoristas que bebem, dirigem, atropelam e matam sejam punidos por homicídio com dolo eventual, como tem sido o entendimento de delegados, mas raramente de juízes (se é que já foi alguma vez).

Mas hoje escrevo parcialmente em defesa de uma nutricionista que ficou nacionalmente conhecida por ter atropelado e matado o rapaz Vitor Gurman, em 2011, após ingerir “apenas uma margarita”, como ela declarou em entrevista à “Folha”.

O mesmo jornal divulgou, no último sábado, que, além de ter a carteira de habilitação suspensa, a nutricionista Gabriella Guerrero Pereira está proibida pela Justiça de frequentar bares.

Pera lá!

Ela responde a um processo criminal, ainda em andamento e sem decisão final, por ter bebido e dirigido. Não por ser adepta de drinques mexicanos. Não por frequentar bares e restaurantes onde bebidas alcoólicas são vendidas.

Não vejo o menor sentido em punir alguém, previamente, por frequentar determinado ambiente. Que cassem a carteira da moça, mas que mal ela comete ao, por exemplo, ir a pé ou de táxi ou de carona até um bar para tomar cerveja na comemoração do aniversário de um amigo? Ou ir até um restaurante para, digamos, o almoço do Dia das Mães e só tomar refrigerante? A punição tem que ser condizente com o crime e esse tipo de cuidado tem que ser ainda mais respeitado quando esse crime ainda está em processo de investigação.

É como diz o advogado dela, na mesma reportagem: “Ela não pode ser proibida de sair de casa.” A juíza, na minha opinião, extrapola totalmente na punição. Uma coisa é um torcedor briguento ser impedido de frequentar um estádio: é uma punição que tem lógica com o crime que ele cometeu. Assim como uma pessoa que matou alguém ao dirigir de forma imprudente ser proibida de dirigir — e, em última instância, ser condenada e presa. Mas pra mim não tem cabimento impedir alguém de frequentar um lugar que, a princípio, não traz nenhum prejuízo à sociedade, caso ela resolva fazer o percurso sem estar ao volante de sua Land Rover.

Ou então, sigamos a mesma lógica e vamos impedir a nutricionista de ir até um supermercado ou uma padaria e comprar bebidas alcoólicas lá, que ela poderia consumir tranquilamente em casa. E que tal aproveitar a deixa e trancafiá-la num programa de abstinência de alcoólatras, já que o foco da pena é esse?

Privar a moça de ir a eventos sociais, independentemente do meio de transporte que ela use ou do que for consumir no lugar é meio caminho andado para uma prisão, antes do julgamento final do processo. Nessa punição sem lógica, a atropeladora e suposta homicida é que é a vítima.

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16 comentários sobre “Quando o atropelador é a vítima

  1. Até que enfim alguém sensato… pq penso o mesmo que tu. Qual a justificativa dessa juíza quando proibiu a menina de frequentar bares e restaurantes? Em qual base jurídica ela se apoiou? Pensei o mesmo que você e isso me cheira $$$ envolvido pra dar aquele jeitinho de fazer a menina se f…de alguma forma…
    Quer dizer que todos que cometerem acidentes no transito nao podem mais sair pra jantar, comemorar aniversario num restaurante ou mesmo ir a um cinema que serve bebida alcoolica? Entao melhor rever todos os casos, nao?
    Qual o risco q ela oferece a sociedade se nao esta dirigindo??? O caso ja foi encerrado?
    Mas o povão aplaude pq é ignorante e so enxerga qdo a agua bate no bundão rsrs

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    • pois é, como vc bem lembrou, hoje em dia dá para beber álcool até no cinema. Se ela faz isso sem dirigir e sem fazer mal a ninguém, não vejo sentido na punição. É uma prisão (impedir de ir a certos lugares) antes do fim do processo judicial.

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    • Talvez isso tenha sido “bom” pra ela..uma desculpinha pra depois, no tribunal, ela se safar, com falas advocatícias do tipo “olha só, ela respeitou a imposição jurídica”. E não foi acidente, caro Bruno; ela bebeu e pegou uma arma, e matou um jovem…nem aqui nem em lugar algum isso é acidente.

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  2. Você expõe sua opinião com todo direito neste blog, que é seu. Eu, sem nem saber como cheguei até aqui, preciso lhe confessar que, mesmo sem te conhecer, concordo com sua opinião, pelo menos em parte. Na verdade, acho um exagero todo o massacre dos noticiários sobre uma situação criada pelo próprio poder público. É uma questão cultural! Oras, eu já bebi e dirigi, mas em pequena quantidade (socialmente) isso era permitido há até alguns meses atrás. Em outra ocasião, já tive guarda rodoviário me pedindo um “cafezinho” em troca de um “perdão”. Mas isso não para por aí? Ou seja, quem de nós nunca se permitiu a um erro conceitual, mesmo sabendo que tal erro seria legal ou “permitido” pelos nossos governantes? Conheço inúmeras pessoas e, como eu já disse, me incluo. Mas não! O que tenho visto é um monte de condenações em cima da sociedade. As vítimas que se tornaram vítimas de seus algozes. Os réus que se tornaram vítimas do sistema. Porque ainda hoje vemos propagandas totalmente pautadas pela virilidade da potência dos carros velozes e surreais de caros? Porque permitem que cheguem a 300km/h? Onde e quando seriam vendidos esses produtos? Pra que? Isso corre na contramão do planeta, onde não podemos e não queremos ter mais apelos para um sistema suicida! Vamos punir os culpados e os culpados pelos culpados tbm? Vamos punir o mundo? Vamos responsabilizar aos que cumprem com o nosso falho sistema? Vamos punir o sistema? Cadê o Cap. Nascimento??! Será que o batman do STF nos salvará? O povo precisa de um herói, alguém capaz de nos tirar desse lugar infestado pela podridão nefasta que rege nossas vidas… Mas não tenho mais idade para crer nessas coisas. (Que Joaquim Batman Barbosa me perdoe). E a imprensa? Essa é a pior! Em tempos remotos me lembro de altas críticas às manipulações da TV Globo para com o povo brasileiro. Era um bafafá de jornalista falando daqui e dali contra a politização da informação. E o que fizeram com isso? Bom, hoje temos apresentadores, editorias inteiras, gente importante até. Tá todo mundo falando, emitindo opinião, brigando apelativamente por audiência, julgando e condenando pessoas de todas as esferas, tem gente se vendendo e jogando pedra na moralidade alheia. Mas, perguntando eu, quem julga esses caras? Sem essa de dizer que é a volta da ditadura. Mas quem avalia tantas informações que todos os dias estão sendo despejadas na internet?! Quem?
    Acho válido e sou a favor do controle do trânsito, das regras do trânsito. Mas não só disso! Sou a favor das regras, de alguma ordem em tudo. Quer dizer que nego usa os veículos de comunicação, muito mais perigosos e poderosos que qualquer arma social, e aí tudo fica assim? Que isso?! E, claro, não teremos uma editoria “pau na mesa” que vai abordar esse tema. Quem apontaria o dedo para si mesmo? Quem? Talvez alguma juíza com algum juízo, capaz de dar a cara a sociedade e explicar que os culpados fomos, somos ou seremos nós, mas escancarando os porquês até agora escondidos pela preguiça de uma massa que se recusa a lutar e de uma imprensa prostituída e relapsa com seus próprios valores.
    Parabéns pela seu texto. E que a justiça seja justa com as vítimas e com as vítimas que vitimaram suas vitimas.

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  3. Também concordo EM PARTE. A atidude da mídia é um clássico já no Brasil. A mídia sangrenta e seus patronos (Datenas e Rezendes da vida) automaticamente julgam suspeitos, violando de forma bruta a Presunção de Inocência. Porém, pesquisando mais sobre o caso, me deparei com a entrevista da Gabriella. Um sem pé nem cabeça danado, claramente construído pelo advogado de defesa com o objetivo de futuramente humanizar a ré perante o júri (a entrevista foi cedida em seu próprio escritório). Capotou uma Land Rover em uma via de 30 KM/h? Ela pode perder seu direito de frequentar bares. Enquanto o Vitor, teve a sua vida ceifada de forma banal. E isso não poderá ser revogado por nenhum tribunal. Abraços e parabéns pelo texto.

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  4. É fácil arrotar esse tanto de escrotice quando não é alguém da sua família. Você já experimentou sair desse lixo de país (que pessoas nojentas iguais a você adoram a impunidade) e ver como esses casos são tratados nos países de 1º mundo? Morei no Japão e caso uma assassina igual essa tal da Gabriella atropele uma pessoa, a pessoa além de pegar uma pena duríssima, nunca mais pode frequentar locais públicos que vendam bebida ou ser visto fora de casa após as 20h. Tá achando que lá é duro demais? Então olhe onde eles estão e onde nós estamos!!! Você gosta de impunidade e ama o país do jeitinho, continue aqui, afinal esse é o país ideal para pessoas nojentas iguais a você.

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    • Não adoro a impunidade, meu caro. Você nem me conhece. Acho “escroto” é entrar no blog de alguém e, em vez de defender com educação seu ponto de vista, passar a me atacar com xingamentos e agressões. Por favor: não volte. abs

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  5. O ótimo é inimigo do bom. Seria ótimo que a juíza “só” estabelecesse a punição sobre a licença de direção dela, mas ainda prefiro o excesso de punição que a impunidade. Então não defendo a atropeladora… Até entendo o seu ponto de vista, mas acho que deveria ficar restrito a sala, grupo ou comissão de estudo sobre o tema. Quando divulgamos uma opinião para todos com a intensão de formar opinião, acredito que devemos pensar na melhor opinião do ponto de vista da sociedade e aí é muito mais difícil conseguir o ótimo. Ainda que já tivéssemos o bom, estaria certo… Mas acho que são passos. Vamos acabar primeiro com impunidade, depois agente vê se está pesando a mão com os culpados.

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    • Daniel, você pode ter razão. Posso ter me excedido ao defender uma pessoa que todos decidiram crucificar, muito pela ótima capacidade de mobilização dos amigos de Vitor Gurman — que é ótimo que exista e seria ótimo se todas as famílias de pessoas atropeladas pudessem se mobilizar da mesma forma, para garantir que o atropelador não saísse impune.
      Eu apenas defendi que não faz sentido ela ser proibida de frequentar bares, mas sou favorável a que seja impedida de dirigir e que responda criminalmente ao processo como ré do crime de homicídio com dolo eventual. Ou seja, penas bastante mais graves do que deixar de ir a um bar, mas mais condizentes com o crime cometido.
      No mais, vejo que hoje este post é o mais lido do meu blog porque hoje foi noticiado que uma juíza liberou Gabriella de voltar a frequentar bares — o que vejo como algo positivo — e de voltar a dirigir — o que acho uma pena, porque era uma punição exemplar para o caso. Imagino que as pessoas que acompanham o caso de perto estejam debatendo essa liberação e, por isso, minha pequena opinião tenha entrado na roda. Mas não sou dona da verdade de nada, nem tampouco exerço grande influência sobre ninguém e, embora com frequência eu mude minhas opiniões, por ora, sobre este caso específico, mantenho o que escrevi acima.
      Um abraço e volte sempre.

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      • Cristina cheguei aqui através do Google, e não concordo qdo vc fala q “resolvi defender alguém que todos decidiram crucificar”, igual o comentário do rapaz acima, “quem nunca cometeu um erro”… ELA TIROU UMA VIDA! Não foiu acidente, qdo vc bebe e resolve dirigir vc assume o risco, se vc mata alguém e com ctz ela não estava a 30km por hr, pq nenhum idiota acredita nisso, então ela assumiu TODOS os riscos… infelizmente vivemos num país de INDIOS que nunca sairá disso. Pessoas bebem, matam, e ficam chorando na televisão parecendo coitadas… em Miami dirigindo o carro, não deixei uma pessoa atravessar… a polícia veio atrás de mim e falou q estava em direção perigosa e se continuasse fazendo aquilo iam me prender, só pro não deixar alguém q estava no meio da pista atravessar… Infelizmente aqui no BR tirar a vida de uma pessoa, q NÃO tem volta, acabar com uma família inteira não é nada, coitada ela tem q ter o direito de comemorar o aniversário em bar etc… ela já deveria estar PRESA e passar bons anos lá! Q Fique claro q não conhecia a REAL vítima q perdeu a vida, mas como mtos já estou de saco cheio desse país de índios q vivemos e não vejo a hr de mudar definitivamente daqui. Sempre qdo vou dar opinião sobre algo, penso se fosse meu pai q estivesse na rua, e se fosse minha mãe, ou minha irmã que ela tivesse matado? Se vc conseguisse pensar dessa forma se ela tivesse assassinado alguma pessoa q vc ama mto eu não acreditaria que é hipocrisia.

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      • Rafa, se você ler meu post sem tantas paixões vai ver que:
        – em nenhum momento eu disse que ela não cometeu um crime;
        – em nenhum momento eu disse que foi acidente, ela certamente assumiu todos os riscos de matar e defendo até penas mais rigorosas em outros posts (você pode ler os links que coloco no primeiro parágrafo);
        – eu defendo que ela cumpra a pena pelo homicídio que cometeu, quando houver decisão judicial nesse sentido;
        – eu não concordo apenas que ela tenha que ser proibida de frequentar algum lugar durante o processo judicial, porque isso extrapola a pena, e argumento nesse sentido. Inclusive, pelo que vi, outro juiz concordou com a minha linha de raciocínio e já liberou a nutricionista dessa penalidade descabida.
        Por fim, não chego a abordar isso no post, mas realmente acho que ela foi mais crucificada do que milhões de outras pessoas que cometeram crime semelhante. Todo mundo — todo mundo, veja bem, inclusive você — tem direito a defesa no sistema jurídico vigente no Brasil. E ela já foi condenada muito antes de o processo criminal terminar. A lógica de quem defende isso é a mesma de quem defende o linchamento ou qualquer outra forma de “justiça com as próprias mãos”. E não concordo com ela. É apenas minhas opinião, enfim. Não vai mudar a vida de ninguém, nem muito menos a forma como as coisas funcionam no Brasil. Infelizmente, no nosso país é difícil até escrever uma opinião, porque muitas pessoas a leem e a interpretam como querem, até dizendo que eu disse o que não disse.
        Um abraço,

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  6. Cristina cada um com sua opinião, mas só pelo seu título já se vê que vc tende para o lado dela, Quando o atropelador é a vítima? WTF? Vítima é que? Vítima foi o garoto que não tem mais possibilidade de sonhar, q teve sua vida ceifada pela irresponsabilidade de outra pessoa, q agora chora mas vive a vida normalmente… detalhe q li em um dos seus posts sobre a imaturidade de um garoto de 18 anos, ela já passou dos 18 faz tempo! E mesmo se tivesse 18 teria q ser punida de forma severa. Sei que TODOS tem direito a defesa, porém a justiça brasileira é uma piada, em qualquer outro lugar depois de 2 anos ela já estaria condenada e presa. Respeito sua opinião MAS como falei me coloco no lugar do pai, da mãe que criaram um filho por 20 anos e por culpa de uma pessoa não ter mais esse alguém pra falar um eu te amo, pra dar uma bronca ou qualquer outra coisa. Infelizmente o BR não é um pais feito para pessoas honestas e por isso chegamos onde chegamos… eu msm já fui assaltada mais de 5x e não aguento mais. Qto ela ter sido mais crucificada q outros foi pq o caso ganhou mais notoriedade, mas nem por isso ela é vitima… infelizmente a vítima está embaixo da terra…

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    • Não acho que ela sempre seja a vítima, mas especificamente no caso da decisão de que trata o post. E, durante o post, reitero: “Que cassem a carteira da moça” e “uma pessoa que matou alguém ao dirigir de forma imprudente ser proibida de dirigir — e, em última instância, ser condenada e presa”.
      Sei que escolhi uma palavra forte para o título do post e para sua conclusão, mas a ideia era realmente provocar uma reflexão, e sustento minha opinião, mas apenas do que diz respeito ao que realmente defendi no post, e não ao que ele levou outras pessoas a interpretarem.
      Sempre serei radicalmente contra a beber e dirigir. Defendo, por exemplo, que a carteira de habilitação seja permitida para pessoas maiores de 25 anos. Defendo que todo mundo que bebe, dirige e mata seja enquadrado em crime de homicídio doloso. Defendo que a licença para dirigir seja cassada até de forma definitiva, porque dirigir não é um direito, é uma licença, que exige pré-requisitos e habilitação qualificada. Defendo que o acusado de homicídio no trânsito seja investigado, processado, condenado e punido. Mas não defendo linchamento público nem punições que não têm nada a ver com o crime cometido.
      Abraços

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